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Entrevista a  D. Fernando José Fernandes Costa Mascarenhas, 11º Marquês de Fronteira.
Entrevista a  D. Fernando José Fernandes Costa Mascarenhas, 11º Marquês de Fronteira. Entrevista a D. Fernando José Fernandes Costa Mascarenhas, 11º Marquês de Fronteira.
2008.10.20 12:03h
D. Fernando Mascarenhas, 11º Marquês de Fronteira é hoje uma das figuras mais conhecidas e carismáticas da Nobreza Portuguesa. E é com uma enorme honra que o monarquicos.com efectua a presente entrevista.
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D. Fernando Mascarenhas, 11º Marquês de Fronteira é hoje uma das figuras mais conhecidas e carismáticas da Nobreza Portuguesa. E é com uma enorme honra que o monarquicos.com efectua a presente entrevista.
A mesma procurará centrar-se em diversas temáticas para que a mesma possa ser o mais abrangente o possível, sendo que desde de já apresentamos as nossas desculpas aos nossos leitores e em especial a D. Fernando de Mascarenhas o qual tão amavelmente acedeu a responder às mesmas.


F.M..:Antes do mais, quero expressar os meus agradecimentos pelo vosso interesse e pelos simpáticos epítetos que me atribuem; a honra é mútua. Não compreendo bem a razão do seu pedido de desculpas ao público e a mim. É porque as perguntas são muitas? Provavelmente, mas nem ninguém obriga o público a ler tudo o que o monarquicos.com publica, nem ninguém me obriga a mim a responder a todas elas. Já agora, pelas minhas contas pessoais sou o 12º Marquês de Fronteira, mas são só as minhas e também não obrigam ninguém.

- Sociedade Civil

D. Fernando, é conhecida a sua distanciação quanto à Igreja Católica, por tradição intimamente ligada à Monarquia e Nobreza Portuguesa.

1º Sem querer causar qualquer embaraço, pergunto-lhe se para se pertencer à Nobreza Portuguesa tal implica ser-se Católico ou pelo menos religioso?


F.M..: Não me causa embaraço nenhum. Do meu ponto de vista e apesar de historicamente haver, sem sombra de dúvida, uma relação muito estreita entre a nobreza portuguesa e a Igreja Católica, o pertencer à nobreza portuguesa não implica, de forma alguma ser-se Católico ou sequer religioso. Isto não significa que eu não tenha o maior respeito pelas religiões e pelas pessoas que as praticam, desde que sejam sinceras e consistentes. Além disso, a Igreja Católica, enquanto herdeira, ainda que nem sempre fiel, de uma tradição ética e de valores fundamentais da nossa cultura, enquanto religião em que fui educado e religião da maioria dos portugueses e enquanto instituição cuja capacidade de sobrevivência se tem revelado notabilíssima, merece-me grande respeito.

2º Pondo de parte quaisquer opiniões pessoais relativas aos mais diferentes credos ou falta destes, teria algum problema em aceitar um Monarca Português que seguisse um qualquer credo que não o tradicional ou até que fosse ateu?


F.M..: É uma pergunta interessante e sobre a qual nunca tinha reflectido. Considero que um monarca português, como qualqur cidadão, tem inteiro direito às suas convicções pessoais. No entanto, entendo que as suas preferências, a diferirem das da maioria da população, deveriam ser, não secretas, mas discretas. Mais entendo que, nesse caso, deveria ter a abertura de espírito suficiente para poder participar, ainda que dentro de certos limites, nos actos religiosos de significado nacional. Sem pretender minimamente estar a comparar-me com um monarca, seja de onde for, e sem que tenha sequer nada que ver com a minha condição de nobre, já me aconteceu durante a celebração de Missas a que assisto, pensar em reviver uma experiência da minha infância, de que tenho gratas recordações, e comungar; no entanto, e embora possa parecer estranho, o respeito que a Igreja, enquanto instituição e enquanto Ecclesia ou congregação de fiéis me merece, impede-me de o fazer.

3º Tendo em mente o imenso papel que a Igreja Católica teve ao longo dos séculos na história Portuguesa e do quanto esta ainda influência a Sociedade Civil Portuguesa de hoje. Considera que a Sociedade Civil procura laicizar-se de forma crescente?
E se sim, crê que a mesma procurar-se-á distanciar dos valores católicos ou abranger, tanto quanto o possível, outros valores que não os da Igreja Católica?


F.M..:Não penso que se possa falar da “Sociedade Civil” como um ente com vontade próptria e unívoca, por consequente não penso que a “Sociedade Civil” procure nada. Como já disse a Igreja Católica é herdeira de valores essenciais da nossa cultura, mas não tem o exclusivo dessa herança, nem representa a totalidade desses valores. Há alguns valores (não todos) que estão presentes no pensamento Católico e que considero que estarão senpre presentes na nossa cultura. Se um dia deixarem de o estar é porque a cultura já não é a mesma

4º Considera a Sociedade Portuguesa bem servida ao nível de Valores? Caso fosse chamado a isso, o que aconselharia aos nossos governantes por forma a melhorar a capacidade de resposta da mesma às influências tidas como perniciosas?


F.M..: A minha primeira reacção à leitura desta pergunta foi pensar: “Deus meu!”, o que vindo dum agnóstico como eu, diz muito sobre ela. Por outras palavras, acho que essa pergunta, para ser adequadamente respondida, requereria um pequena tratado e nem tenho tempo, nem qualificações para o fazer.

5º Tendo conhecimento de que D. Fernando escreveu um tratado para aconselhar o seu sucessor. Pergunto-lhe, se não levar a mal, se nos pode indicar se tal tratado igualmente abrange valores a que aconselha o mesmo a seguir e se sim, se nos pode dar exemplos de quais sejam estes?


F.M..: Fique claro que não escrevi tratado nenhum, escrevi aquilo a que chamei um “Sermão” (no sentido laico), mas a que poderia também ter chamado “carta” ou “testamento”. O Sermão ao Meu Sucessor, que na realidade já são três, procura, sem sombra de dúvida dar a conhecer e, se possível, transmitir muitos dos valores em que acredito.
Agora sou eu que peço que me perdoe, pois vou embaraçá-lo: o meu amigo, se me queria entrevistar e com a profundidade que o está a fazer, devia ter lido os dois primeiros “Sermões” (o 3º está ainda inédito); a linguagem é simples e têm cerca de 30 páginas cada um. Se quer saber o que lá digo, leia-os. Terei, de resto, muito gosto em oferecer-lhe um exemplar.

- Estado da Nação

Os últimos cem anos foram palco de inúmeras situações e acontecimentos os quais marcaram particularmente a Nação na qual vivemos hoje.

1º Não sabendo se esta será uma temática particularmente do agrado de D. Fernando, no entanto faço a seguinte pergunta.
Tendo o reinado d’El Rei D. Carlos I sido pautado por N questões onde creio que se tenha procurado sempre por maneira de seguir a fórmula e os valores que à altura regiam o regime. A conjectura política da altura levou El Rei D. Carlos I a entregar ao Sr. João Franco a governação do País sob a forma de “ditadura”.
Acha que El Rei D. Carlos I foi forçado a tal atitude? Que a mesma possa ser vista enquanto a escolha do que seria um “mal menor” por forma a reformar a Nação? O que acha que falhou na governação do País para que se tivesse chegado a esta situação?


F.M..: Não me considero competente para responder a essa pergunta; o que posso dizer-lhe é que a “ditadura” de João Franco parece-me uma brincadeira de crianças comparada com a do Dr. Oliveira Salazar e não esqueço que houve, na Europa do século XX, algumas bem piores (Hitler, Stalin, Mussolini, por exemplo)

2º A 1 de Fevereiro de 2008 ocorreu o centenário da efeméride do regicídio d’El Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luís Filipe. O monarquicos.com rememorou o centenário desta data trágica para a Monarquia Portuguesa com a publicação de um pequeno “livro” no qual D. Fernando nos deu a honra de participar. A evocação desta data tem acontecido ao longo do ano em eventos coordenados, na sua maioria, pela Comissão “D Carlos - 100 anos”, a qual pode ser encontrada no site http://www.dcarlos100anos.pt/ , e por outros eventos esporadicamente montados por outros organismos e grupos.
Como olha para esta data, para os eventos destinados a rememorar o mesmo e para a multitude de organismos e grupos que procuram evocar as memórias de D. Carlos I, do Príncipe Real D. Luís Filipe e deste trágico momento?


F.M..: Como disse, participei com um pequeno texto no livro monarquicos.com e , certamente, pois é esse o meu costume, terei dito o que pensava sobre a data, mas repeti-lo-ei aqui, em síntese, já que mo pede: o assassinato do Rei D. Carlos e do Principe D. Luís Filipe foi um acto de terrorismo político, que as circunstâncias da época, de modo algum tornavam minimamente aceitável. Parece-me que repensar a história é sempre útil, lembrar os erros do passado poderá sê-lo, embora não esteja inteiramente seguro disso. Não tenho, nem pouco mais ou menos, um conhecimento exaustivo dos eventos organizados e previstos; dos que tenho conhecimento, não tenho nada a censurar. Quanto à multitude de grupos é uma opção aparentemente legítima de quem entendeu organizar cada um deles, opção sobre a qual não tenho opinião em concreto. Se a sua pergunta visa saber se seria preferível juntar esforços, dir-lhe-ei que talvez as sinergias criadas pela convergência num único movimento conferissem um maior impacto à data, mas em contrapartida perder-se-ia concerteza alguma coisa e certamente diversidade e riqueza de pontos de vista. Esta afirmação tanto vale para o caso vertente como para qualquer outro.

3º Diversos eventos levaram ao 5 de Outubro de 1910, sendo por ventura os mais marcantes os Ultimatum de 1890 e o Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908. Portugal dividir-se-ia, tal como aconteceu (e talvez ainda aconteça), em dois. O Portugal Citadino e mais “moderno/liberal” e o Portugal Rural mais “tradicional/conservador”. A Implantação da República, a qual sob uma influência talvez por demasia romântica, procurou dar a Portugal um novo começo, do zero, onde todos fossem iguais.
É inegável que alguns dos direitos hoje tidos por garantidos são oriundos desta altura, da mesma forma é inegável que muitos atropelos foram cometidos pela jovem República em defesa dos novos valores estatais.
O que me leva à seguinte questão. D. Fernando, “os fins justificam os meios”?


F.M.: Essa é uma pergunta a que é muito difícil responder em abstracto; posta nesses termos, a minha tendência natural será dizer que não. No entanto, matizarei a minha resposta dizendo que certos fins justificam certos meios; mais esclareço que há meios que não são justificáveis por nenhum fim.

4º Numa altura em que as inépcias governamentais nos mais diversos países europeus deram origem a inúmeros regimes totalitaristas, com Portugal a passar por “ensaios” dos mesmos com a ditadura do Sr. João Franco e da Presidência do Sr. Sidónio Pais antes da implantação do Estado Novo e se formos estritamente correctos, do período revolucionário do 25 de Abril, como olha para este período? Seria o mesmo, Estado Novo, evitável?


Nota: Optei por incluir as Ditaduras dos Srs João Franco e Sidónio Pais, no mesmo saco que o Estado Novo e 25 de Abril apesar de as mesmas nada terem a ver, estritamente falando. Tal como o mesmo se poderá dizer do Estado Novo e 25 de Abril se optarmos por os comparar aos Regimes Europeus por norma usados enquanto referência para ambos os casos.


F.M.: Fez bem em acrescentar a nota, porque de facto se trata de coisas muito diferentes. Quanto ao Estado Novo já disse acima o que pensava, embora convenha acrescentar que o grande mal do Dr. Oliveira Salazar foi não ter sabido retirar-se a tempo, digamos, logo a seguir ao fim da 2ª Grande Guerra. Quanto ao 25 de Abril, convém não confundi-lo com o PREC no qual degenerou; neste último foram certamente cometidos excessos, mas não se pode dizer que fosse uma ditadura, pois esta implica, um certo tipo de estabilidade e a permanência do poder nas mesmas mãos durante um período de tempo relativamente prolongado, ora durante o PREC não creio que isso tenha acontecido; considero que o período do PREC que, felizmente, se prolongou apenas por cerca de ano e meio, entre o 1º Governo de Vasco Gonçalves e o 25 de Novembro de 1975, se caracterizou por constantes lutas pelo poder.

5º Hoje, passados mais de 30 anos do fim do Estado Novo, pergunto-lhe como olha para o mesmo, tendo em conta que para muitos Portugueses o Estado Novo veio “salvar” Portugal da grave crise económica em que se encontrava à altura da sua instauração, enquanto que para muitos outros Portugueses, o mesmo foi sinónimo de repressão, estagnação e violação de direitos humanos e cívicos? Pode um mesmo sistema de governação ter uma amplitude tão grande quanto aos sentimentos que reflecte nos Portugueses? Como olha este momento da nossa história?


F.M.: Acho que já disse o suficiente sobre a matéria; em síntese, penso que durante os primeiros 10/15 anos foi útil, durante os últimos 25/30 anos foi pernicioso. Essa diferença de sentimentos, no caso vertente, não é minimente surpreendente: de facto, o Estado Novo salvou Portugal da crise económica e, de facto, “foi sinónimo de repressão, estagnação e violação de direitos humanos e cívicos”.

6º Considera que caminhamos, novamente, num período semelhante ao que levou a Europa a mergulhar numa onda de governos totalitaristas? E se sim, o que estará a falhar. A Democracia enquanto valor ou a inépcia dos diversos Governos Nacionais?


F.M.: Espero bem que não. A Democracia é apenas a menos má das formas de governo conhecidas; penso e espero, mas não sei dizer como, que seja susceptível de aprofundamentos e melhoras. Urge torná-las reais. Isso não quer dizer que não haja países onde os governos são consideravelmente melhores que no nosso, independentemente das cores políticas nuns e noutro.

7º O passado recente Português encontra-se marcado por dois eventos. A Guerra do Ultramar e a entrada na então C.E.E.. Sendo que se a primeira veio dar um abanão ao Estado Novo e despertar Portugal e os Portugueses para a realidade de que talvez nem todos os habitantes das então Províncias Ultramarinas se sentissem Portugueses, com o que tal implica. Já a segunda vem despertar Portugal e os Portugueses para essa Europa, à altura ainda muito desconhecida da generalidade mas à qual, nos dias de hoje, aparentemente já se encontram perfeitamente habituados.
Qual é a sua visão destes dois acontecimentos, os quais marcam o início e fim de um período de transição da nossa história?


F.M.: A guerra colonial foi um acontecimento lamentável, a entrada na C.E.E. foi um factor muito positivo para o país, sendo apenas de lamentar que tenha sido tão mal aproveitado e que os sucessivos governos de Portugal tenham anualmente que restituir a Bruxelas muitos milhões de Euros, além dos muitos outros milhões que são mal gastos.

8º Na sua opinião, foi a entrada para a C.E.E., hoje U.E., um passo positivos para Portugal e para os Portugueses? Porquê?


F.M.: Globalmente entendo que sim. Por um lado, porque torna muito mais improvável o regresso a um regime ditatorial, seja de que sinal for; por outro, porque oferece vantagens económicas infelizmente mal aproveitadas, mas ainda assim com alguns resultados visíveis, designadamente no que se refere à rede viária. Quem nunca fez a viagem Lisboa-Porto nas estradas de antigamente não acreditará se lhe contarmos o pesadelo que era. Nem tudo, porém são rosas; a acentuada tendência para a burocracia do nosso país foi reforçada e agravada pela de Bruxelas; a mania da regulamentação de tudo quanto são produtos alimentares ameaça muito seriamente destruir tradições multiseculares e fazer desaparecer uma parte importante da nossa cultura, o que considero inaceitável; a isto acresce uma acentuada tendência para se intrometeram na vida das pessoas, com perdas de liberdade, para mim injustificadas.

9º A Europa Unida caminha, hoje, numa busca de uma identidade que a defina. Procura-se assim por uma Constituição Europeia que dê uma “espinha” (o termo inglês “back bone” adequar-se-ia aqui talvez melhor) à União de Estados. Os políticos europeus dividem-se quanto à forma a dar à mesma, mas vai-se caminhando para os falados Estados Unidos da Europa. Tudo isto sob a justificação de que a Europa, a nível global, deixou virtualmente de contar se apenas contabilizarmos a importância individual de cada estado membro, ao inverso da crescente importância e preponderância que a União Europeia vai assumindo nas mais diversas situações.
Como olha para todo este processo? Qual é e deverá ser o papel de Portugal no mesmo?


F.M.: Em português existe a expressão “espinha dorsal”, perfeitamente equivalente ao “back-bone” inglês, se não estou em erro. A ideia de uma Constituição Europeia parece-me boa, mas concebo-a em termos completamente diferentes do que o faz o, felizmente já afastado, projecto, que a França e a Holanda chumbaram. Entendo que a Constituição deve ser um texto muito simples, apenas com o essencial; nesse aspecto formal a Constituição dos E.U.A. parece-me um modelo a seguir. Quanto ao papel de Portugal, parece-me mais fácil dizer o que não deve ser: um cachorrinho às ordens de Bruxelas.

- O Portugal de hoje

Portugal a nível externo, nos dias de hoje, encontra-se inserido na União Europeia e dividido entre diversas correntes políticas, desde o “Atlantismo” onde os Aliados “tradicionais” Inglaterra e Estados Unidos se encontram presentes, ao “Europeismo” com o alinhamento do lado das Nações Europeias Continentais ou a defesa mesmo de um “regresso” ao “Africanismo” com a aposta nas ex colónias Portuguesas (Africanas maioritariamente, mas não só) em detrimento dessa Europa que aos mesmos nada diz.
Já ao olhar para o seu “umbigo” Portugal assiste à “dança das cadeiras” por parte dos seus políticos enquanto se centra na eterna questão de onde apostar por forma a desenvolver economicamente a Nação, sem que se ponha em causa a identidade desta e quanto muito a ecologia, que de forma crescente assume uma importância nas diversas tomadas de decisão. Há igualmente uma questão que serve de espinho aos diversos Governos Nacionais, a eterna Olivença que debaixo de uma Espanha não é esquecida e engasga as nossas relações amiúde com “nuestros hermanos”.

1º Até que ponto, na Europa em que nos inserimos, as diferenças culturais assumirão um papel de destaque nesta verdadeira “manta de retalhos” a que correspondem os Povos da mesma?


F.M.: As suas perguntas, às vezes, por um lado, fazem-me sorrir. Por outro lado, provocam-me um saudável e refrescante sentido de humildade. A verdade é que não sei responder. Quando muito, posso dizer-lhe que me parece fundamental a preservação da diversidade cultural, tal como a da biodiversidade, sem perder de vista o que nos une: a tradição clássica Greco-Romana e a tradição vinda das religiões do livro, bem como a forma, que apesar de tudo e pelo menos até certa altura, tem significativas afinidades, como essas tradições foram reinterpretadas no mundo europeu.

2º São os Povos que promovem ou abandonam as tradições que os definem ou serão estas, tradições, que definirão os Povos?
A razão do porquê desta questão deveu-se a um debate no fórum monarquicos.com no qual se questionavam os Touros de Morte em Portugal. Como vê esta questão? Aproveito igualmente para lhe perguntar sobre se tem, e qual será ela, uma posição definida quanto aos direitos dos animais?


F.M.: Quanto à 1ª destas perguntas, penso que as tradições podem ser cultivadas ou abandonadas por um povo, o que, a meu ver, não obsta a que contribuam para a definição desse povo. A realidade dos povos e das culturas é dinâmica. As tradições são importantes e penso que devem ser cultivadas, mas devem também ser reinterpretadas e ajustadas ao presente, pois de outra forma obsolescem e morrem.
Quanto aos touros de morte, penso que não é necessariamente mais cruel, nem menos digno para o touro ser morto na praça do que no matadouro. Além disso, o facto de essa tradição se ter conseguido manter viva em determinados pontos de Portugal mesmo durante a ditadura do Estado Novo, merece-me respeito.
Os animais têm certamente direitos. Nunca estudei o assunto pelo que não me vou atrever a dizer quais são; trata-se de um assunto importante, mas complexo. Creio também que, infelizmente a violação desses direitos e o causar sofrimento aos animais, que poderia ser evitado e não o é, por motivos económicos, é muito mais frequente do que normalmente nos apercebemos.

3º Indiferentemente de concordar ou não, com os Touros de Morte a título de exemplo. Acha que a Lei deverá consagrar casos de excepção nesta ou outras temáticas?


F.M.: Acho que sim, que há tradições que, pela sua força, merecem ser contempladas na lei. De resto, como já disse, acho que a tendência geral dos tempos que correm, pelo menos na Europa é legislar em excesso. Entendo ainda, que os estados e a União Europeia se metem em excesso na vida dos cidadãos.

4º A base que dá origem à criação das excepções, não poderá ser contestada por forma a que outras excepções noutras áreas possam igualmente ocorrer. Ou seja, que poderemos estar a criar precedentes perigosos?


F.M.: Claro que tudo envolve riscos, tanto a ausência de excepções como o seu excesso. No caso vertente, o dos touros de morte, é do domínio público onde se manteve essa tradição, pelo que me parece relativamente simples abrir as excepções apenas para aqueles casos em que uma determinada tradição perdurou sem interrupção. Creio que isto não será verdade apenas para os touros de morte; o mesmo argumento justificaria perfeitamente, por exemplo, a continuação da fabricação dos queijos regionais ou dos enchidos, respeitando os métodos antigos; trata-se de uma tradição que faz parte integrante da nossa cultura e que a União Europeia parece empenhada em destruir. Felizmente para eles e para a cultura europeia, há outros países onde consideram mais importante manter certas tradições do que ser bons alunos de Bruxelas.

5º Sendo que a última pergunta me faz saltar para a temática de Olivença e terras de Juromenha, hoje sob administração Espanhola. Sem mais rodeios, pois creio que o tema é sobejamente conhecido, são na sua opinião Olivença e as terras de Juromenha parte do território Nacional?


F.M.: Tanto quanto Gibraltar é território espanhol.

6º Como observa as acções do Grupo de Amigos de Olivença, entre outros, quanto à defesa da devolução destas terras à administração Portuguesa?


F.M.: É assunto que conheço mal.

7º Como olha as actuações dos sucessivos Governos Nacionais quanto a esta temática?


F.M.: Idem.

8º Na sua opinião a questão de Olivença e terras de Juromenha deve basear-se no “tudo ou nada” ou deverá haver espaço para o compromisso?


F.M.: Como já disse, não tenho uma opinião formada sobre o assunto, que nunca me preocupou particularmente, mas, genericamente falando, acho que os compromissos honrosos são sempre preferíveis a conflitos estéreis e desonrosos.

Agradecendo desde já pela sua amabilidade e compreensão para com a nossa “barragem” de perguntas, não quero deixar mesmo assim de dar a palavra a D. Fernando de Mascarenhas por forma a que possa abordar na presente entrevista e que considere ser essencial para o conhecimento dos nossos leitores.

F.M.: Meu caro amigo, ando há quatro noites a tentar responder tanto quanto sei e o melhor que posso às suas muitas e complexas perguntas, sinto-me demasiado contente por ter conseguido chegar ao fim, para que algo mais me ocorra. Agradeço-lhe também a sua gentileza e o muito que me honra com a sua consideração, em muitos casos injustificada. Sou apenas um cidadão razoavelmente inteligente e medianamente informado e as suas questões pediam um sábio.

Paulo Especial
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  Anónimo
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Comentários Comentários (1)
Anónimo 20.10.2008 21:02:23
Penso que deveria ter sido questionado sobre a Sucessão Dinástica.