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Beladona
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Mensagem Enviada: Dom Set 13, 2009 21:16     Assunto : Relação de tudo o que [se] passou em Olivença e no campo do cerco e tomada da praça pelos Castelhanos. Abril ano de 1657 Responder com Citação
 
in: Jornal Povo de Portugal
Com o especial obséquio do seu Director

Contribuição para a História de Portugal, Dr. António Marques

Com honra iniciamos a transcrição do importante trabalho do Dr. António Marques, ex-Presidente do "GAO" e nosso excelente Amigo.

Inicio aqui a transcrição de um manuscrito existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), com o título Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657. Este manuscrito anónimo foi transcrito e publicado por Horácio Madureira dos Santos em 1973, em Cartas e outros documentos da época da Guerra da Aclamação, Lisboa, Estado-Maior do Exército, pgs. 185-212. No entanto, dado o interesse do documento e a restrita divulgação do mesmo, creio ser oportuna a sua apresentação aqui. A diferença em relação ao original e à transcrição efectuada por Horácio Madureira dos Santos consistirá na actualização da ortografia utilizada, da pontuação (para facilitar a inteligibilidade do texto), na correcção de alguns erros de transcrição da versão de Horácio Madureira dos Santos e o acrescento de alguns apontamentos (mantendo, porém, os que foram da lavra de Madureira dos Santos, identificados com HMS). Trata-se um documento longo, que irá ocupar uma série de entradas superior à habitual, pelo que será possível que intercale esta série com outros artigos.

Relação de tudo o que [se] passou em Olivença e no campo do cerco e tomada da praça pelos Castelhanos. Abril ano de 1657

A 12 de Abril tocaram arma as atalaias que ficam dando vista à ribeira, quarta-feira [erro; trata-se de quinta-feira, conforme notou HMS] pelas sete horas da manhã, e como não tínhamos particular aviso que o inimigo marchava para Olivença, tivemos que seria rebate ordinário. Montou-se a cavalaria governada pelo tenente-general Achim de Temarachut [Tamericurt], e foram descobrindo para aquela parte [de] Joana Castanha. Tinham parado doze batalhões direito ao caminho que vai de Juromenha para Olivença, a fim de não deixarem passar pelo porto de Guadiana nenhuma coisa de uma praça para a outra. Com este aviso se acolheram à praça todos bem sentidos de ficar a cavalaria dentro, pela falta que faria aquele troço de nove companhias no nosso exército.

Pelas dez horas do dia vimos a vanguarda do exército marchando da coutada da ventana pela de Fiselha para a fralda da serra de Olor e se foram entrando pelos olivais, ocupando o outeiro do Espinhaço de Cabra e Vale de São Francisco o Velho, e ali começaram o seu primeiro quartel que por muitos dias foi o da Corte [ou seja, o do Estado-Maior do Exército].

Sexta-feira 13 do dito mês saíram da guarda as companhias dos tenentes-generais e as de D. Luís da Costa e João do Crato da Fonseca, que por ser mais antigo as governava, e indo ele descobrindo pela parte do Pereirão, deu vista de uma partida do inimigo, que trazia língua [ou seja, um civil português, capturado para da informações] e uns burros; arrojou-se a ela com cinco cavalos e tomou doi do castelhano e a presa.

Pelas dez horas do dia quis o inimigo reconhecer a praça e a viu em redondo, e todos os sítios em que podia aquartelar-se. A artilharia da praça fazia com que eles vissem tudo mais ao largo e com pouca segurança.

Estava o capitão D. Luís da Costa com a sua companhia junto da ponte de Ramapalhas e os batalhões do inimigo iam pela outra parte do ribeiro, e atrás deles dois soldados infantes por verem também, mas logo que foram vistos da nossa tropa mandou o capitão três soldados que pegassem deles, e intentando tomaram um que era vilão [civil, paisano], e não acharam o outro.

Nesta vista que o inimigo deu à praça chegou ao olival de João cabelo e para receber melhor o sítio, travou uma escaramuça com a companhia do tenente-general Dinis de Melo [de Castro], governada pelo seu tenente Manuel Dias Veloso, que se houve com muito valor e resolução. Da muralha e do forte lhe deram, ao inimigo, carga alguns mosqueteiros [dar carga, neste sentido, significa disparar], com que se afastou e foi continuando em ver a praça e quartéis ou sítio acomodado para eles, e no fim se recolheu para o vale de São Francisco o Velho.

Pelo meio-dia veio marchando a bagagem e artilharia do inimigo e retaguarda do seu exército pelo mesmo caminho, e se recolheu tudo em o mesmo sítio que a vanguarda.

Logo que o inimigo chegou, mandou o governador Manuel de Saldanha guarnecer a estrada coberta tudo ao redor da muralha, a qual, em poucos dias que havia que estava na praça, tendo vindo da Corte, a mandou reformar com estacas de novo, que eu tinha nos meses de antes conduzido, e mandou consertar os parapeitos que em muitas partes estavam arruinados, e com o terço do mestre de campo João Álvares de Barbuda mandou trabalhar ao forte que Gilot [Jean Gilot, engenheiro militar] tinha principiado defronte da porta do Calvário, o qual era uma obra curva que continha três baluartes e dois meios, tudo pequeno, e fechava na estrada coberta com duas linhas, ficando a porta ou rastilho dela em o meio delas.

Estava esta obra muito imperfeita e a meu juízo feito menos de metade dela, conforme ao voto de todos se pudera escusar com um forte pequeno que ali tinha mandado fazer o mestre de campo João Lopes Barbalho, o qual se guarnecia com cinquenta mosqueteiros e bastava para impedir ao inimigo o alojar-se ali e bater daquela parte, e este outro nos ocupava nove companhias de guarnição com um cabo [no sentido de "cabo de guerra", oficial superior, provavelmente um sargento-mor], e assim ficava a estrada coberta menos sortida de gente, e aquela ocupada com pouca utilidade e grande discómodo.

Abril 14. Teve notícia por algumas pessoas que passaram de Juromenha para Olivença que o inimigo não tinha impedido o caminho, o que foi parte para que a guarnição da atalaia de São João se recolhesse à praça depois de queimar a pólvora que tinha.

De tarde se mandaram aplicar as cavalgaduras que tinham vindo com o último comboio, e sendo noite as mandaram pelo caminho de Juromenha a cargo de um condutor da artilharia que tinha vindo com elas e passaram todas segundo nos informaram. Nesta noite partiu para o nosso exército [o exército de socorro, comandado pelo Conde de São Lourenço], com cartas, o ajudante de cavalaria Manuel da Silva Falcão, e chegou a ele com elas. Também entrou na praça um correio do Conde de São Lourenço.

(continua)
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Ter Set 15, 2009 16:28     Assunto : Responder com Citação
 
in: Jornal Povo de Portugal
Com o especial obséquio do seu Director


Após a publicação da 1ª parte, publicamos hoje a 2ª.

Relação de tudo o que [se] passou em Olivença e no campo do cerco e tomada da praça pelos Castelhanos. Abril ano de 1657

2.ª parte da «Relação de tudo o que passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657», de autor anónimo, sempre extraída (com a devida vénia) do sítio «Guerra da Restauração», de Jorge Penim de Freitas.

AMarques

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http://guerradarestauracao.wordpress.com/2009/09/1 4/cerco-e-tomada-de-olivenca-1657-2%C2%AA-parte-de -15-a-19-de-abril-de-1657/


«Cerco e tomada de Olivença, 1657 (2ª parte – de 15 a 19 de Abril de 1657)


Abril 15. Domingo, por noite, partiu o tenente-general [Achim de Tamericurt] para Elvas levando consigo oito companhias e ficou na praça a do capitão Agostinho Estevão de Castilho, francês [Stéphane Auguste de Castille, capitão francês de cavalaria, cuja desventura em Olivença já foi tratada aqui e aqui], e com ela alguns cavalos de outras companhias, que por todos ficaram oitenta cavalos; destes se fizeram duas tropas, uma das quais governava o dito capitão e a outra o seu tenente Manuel Pacheco. A cavalaria passou por Guadiana pelo porto de Chiso, junto de Telena, nesta passagem se afogaram dois soldados e outros dois se perderam das tropas, e tornaram para a praça.

Trabalhava o inimigo já no quartel de Vale Mimoso, aonde ao depois pôs uma bateria, e dela por uma linha guarnecia outra que era a de São Bartolomeu. Antes que pusesse baterias, quis nesta noite inquietar-nos trabucando, para o que se chegou perto da Cruz de São Pedro, aonde pôs o morteiro e lançou na praça nove bombas, cada uma de peso de 150 libras, as quais caíram dentro da vila, porém nenhuma fez dano.

16. Segunda-feira amanheceu feita uma plataforma a meia ladeira do Espinhaço da Cabra, e dela atirou o inimigo com dois meios canhões às casas da vila, também se viram balas de dez libras de uma peça vindas daquela parte, durou esta bateria desta parte até vinte deste mês.

Pela meia-noite entrou na praça João Mendes Mexia, que estava fora dela no tempo que o inimigo veio, e com ele mandou o governador das armas a Francisco de Sey, francês, comissário geral que era da artilharia e soldado prático. Vieram guiados pelo cabo de esquadra Furtado e o soldado Navarro, ambos da companhia de Dinis de Melo [de Castro].

Neste dia se adiantaram dois rapazes e um soldado infante e foram às hortas de Corna buscar favas e alhos; a estes tomou o inimigo e os levou ao seu quartel da Corte.

18. Quarta-feira largou o inimigo o soldado que tomou e a um dos rapazes. Por estes mandou lançar na praça alguns escritos, todos do mesmo teor. O governador os recolheu todos e só um pude eu haver, que dizia o seguinte:

A compaixão grande que se tem de que os que são vassalos de Sua Majestade [Filipe IV de Espanha, III de Portugal], ainda que inobedientes, padeçam por sua demasiada obstinação os grandes males que a guerra traz consigo, mormente sendo civil, e entre cristãos, há parecido, por que se escusem tão grandes danos, advertir a todos os que se acham nesta praça que, passando-se a este campo, não só se lhes dará perdão do passado, mas ainda querendo servir, se lhes assentará praça, e socorrerá conforme sua qualidade, e não querendo servir se lhes dará dinheiro para entrar-se pela terra adentro; tendo entendido que os que não quiserem usar desta oportunidade, e aguardarem a que se ponham as baterias, e que se abram brechas, serão tratados como inimigos obstinados, e não haverá para eles recurso de misericórdia. Muitos destes escritos lançou o inimigo à roda da praça, mas sem efeito.

19. Quinta-feira por noite despediu o governador o cabo e soldado que trouxeram ao Du Four [François Du Four, engenheiro francês], e eles fizeram caminho por Mourão e foram a salvamento; nesta noite entraram dois correios do Conde de São Lourenço com cartas para o governador, e uma delas trouxe um vidro de óleo de ouro [tintura utilizada para desinfectar e tratar ferimentos]. De tarde tinha chegado o rapaz que ficou retido no quartel do inimigo, era este um Afonso, filho do cabo de esquadra Afonso Mouro, e advertiu muito bem em tudo o que viu e lhe disseram; a este deram outros escritos, dizendo-lhe que os desse ao vigário. O governador os recolheu todos como os demais.

Neste dia começaram já a crescer as trincheiras do quartel que o inimigo fez a São Francisco o Velho, e a linha exterior que fez pelo alto do Espinhaço da Cabra.

(continua)

Este texto corresponde à transcrição (com ortografia actualizada) de um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Dom Set 20, 2009 17:08     Assunto : Responder com Citação
 
Com os especiais obséquios dos: Dr. António Marques e Jornal Povo de Portugal na pessoa do seu Director


Caros

Segue a 3.ª, 4.ª e 5.ª partes da

«Relação de tudo o que passou em Olivença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657»,

de autor anónimo, que continua a ser publicada no sítio «Guerra da
Restauração», de Jorge Penim de Freitas.

AMarques

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http://guerradarestauracao.wordpress.com/2009/09/1 8/cerco-e-tomada-de-olivenca-5%C2%AA-parte-de-1-a- 8-de-maio-de-1657/

Cerco e tomada de Olivença, 1657 (3ª parte - 20 e 21 de Abril de 1657 )
por Jorge P. de Freitas

20 [de Abril]. 6ª feira pela manhã mandou o governador cortar o arvoredo das
hortas do Vale da Corna, assim por que nos fazia dano, como por que o
inimigo se não aproveitasse dele para faxina. Enquanto se cortou esteve um
bom troço de infantaria fora e a cavalaria que tínhamos dando segurança aos
que estavam e traziam a rama. O governador e eu estivémos no baluarte da
Corna vigiando os movimentos do inimigo, ele para a parte do Vale das Éguas
e Santa Catarina e eu com um óculo vendo se do olival de João Cabelos e o
mais que há, até o posto de Elvas, saía alguma cavalaria a impedir o corte,
porém não saíra e os nossos se recolheram à praça.

Neste dia amanheceu uma bateria feita pelo inimigo no outeiro de São
Bartolomeu e para ele mudou as peças grossas que tinha na outra parte do
Espinhaço de Cabra. Desta que ficava mais perto demos a metade do que a
outra. Começou o inimigo a fortificar as casas da vila, entre as mais peças
que aí pôs foi uma de 48 libras, e foi este o primeiro dia que vimos na
praça balas de calibre.

O governador mandou logo fazer contrabateria para aquela parte, o que obrou
o capitão Manuel Rodrigues Pigaço, mandando fazer esplanadas no baluarte de
São Francisco, e aí pôs três peças grossas; no de São Brás havia duas, e no
da Rainha três, que todas atiravam contra aquela bateria, mas não foi
bastante para que não arruinassem o mosteiro aos frades e muitas outras
casas da vila que ficavam vendo-se daquela parte.

Na noite deste dia trabucou o inimigo e lançou algumas bombas dentro da
praça. eram estas feitas de metal e tinham de calibre 130 libras, afora o
enchimento; em qualquer parte em que davam faziam um poço grande, porque
entravam muito pela terra e em tomando fogo faziam uma notável ruína, porém
muito maior quando davam em alguma casa, porque afora de voarem todo o
telhado e sobrados, arruinavam as paredes.

Neste dia caiu uma bomba na igreja de Santa Maria que estava cheia de
mulheres e meninos, mas foi Deus servido que o primeiro golpe desse em um
friso da igreja, com o que, quando caiu sobre a abóbada a não rompeu, só
quando arrebentou voou um pedaço grande do telhado.

Por estes dias se acabou de fazer a coroa de que falei na relação de 13
deste mês, assistindo sempre nele nove companhias de guarnição e
trabalhadores, afora gente da terra e pedreiros, governava esta gente até
então o sargento-mor Manuel de Magalhães.

Logo que o inimigo deu vista da praça em 12 do presente, mandou o governador
ao sargento-mor da vila Gil Lourenço Cabeça com o capitão Gonçalo Mendes
Homem e grande quantidade de gastadores, todos da vila, que fossem cortar a
rama dos olivais mais vizinhos à praça, o que fizeram, e trazendo-a os
soldados e gastadores serviu que fora o inimigo se afastar mais longe, por
estar descoberto de faxina para esta obra e outras.

21. Sábado pela manhã entrou na praça o alferes do capitão Diogo Rodrigues
de Sousa, do terço de João Álvares de Barbuda, o qual ao tempo em que o
inimigo veio estava no Algarve, donde era natural, e filho de um
sargento-mor; veio com ele outro soldado infante que o guiou. Os nossos
tomaram língua [isto é, capturaram um soldado inimigo] e se informou o
governador do poder do inimigo, que sempre os castelhanos souberam
engrandecer com palavras e encarecimentos.

Caminhava o inimigo com as suas linhas exteriores e obras dos seus quartéis,
de uma e outra coisa tinha já feito muito, principalmente no da
circunvalação.

Muitos soldados castelhanos aventureiros vinham de pé fazer tiros aos
nossos, e os nossos saíam a eles. Neste dia veio um galego, natural que
disse ser da Corunha, que se chamava Sanchez de Taivo; este chegou até perto
da Cruz de São Pedro e aí lhe deu um balaço por um olho, de que caiu, mas
não morto, se bem desacordado. As suas sentinelas de cavalo o quiseram
retirar, porém Domingos do Prado, filho do sargento-mor Gil Lourenço Galego,
chegando pegou ao ferido por um pé e o trouxe a rasto até à estrada coberta,
e aí se confessou, e o levaram ao hospital. Nunca quis dizer quem era, de
que qualidade e que posto tinha. Viveu ainda cinco dias.

Na algibeira se lhe achou uma relação de algumas companhias de infantaria,
entre outros papéis, e uma memória de dinheiro cobrado de contribuição de
alguns lugares e um rol de prata lavrada, que de pouco tempo tinha comprado.

(continua)

Este texto corresponde à transcrição (com ortografia actualizada) de um
manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados,
agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de
tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça
pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.

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Cerco e tomada de Olivença (4ª parte - de 22 a 30 de Abril de 1657)

por Jorge P. de Freitas

[22 de Abril - Está, por lapso, indicado no original com o nº 23; nota
introduzida por Horácio Madureira dos Santos na sua transcrição] - Domingo
se viram mui avante as linhas do inimigo que, como trabalhavam nelas de
noite, apareciam pela manhã crescidas; pela tarde deu uma bala grossa na rua
das Flores, e na chapeleta que fez matou um alferes auxiliar, foi este o
primeiro homem que o inimigo nos matou.

Desde este dia se deu carga contínua de mosquetaria de dia e de noite pelas
partes em que o inimigo trabalhava, para lhe impedirem o seu serviço.

23 - 2ª feira amanheceu uma nova plataforma no mosteiro de São Bartolomeu,
mas por baixo, coisa de trezentos passos, e para ela passou o inimigo as
peças que na outra tinha; ficava esta menos de tiro de mosquete da praça.

[24] - 3ª feira ao amanhecer entrou na praça Diogo Soares, soldado honrado,
o qual estava fora dela ao tempo que chegou o inimigo. Neste dia amanheceu
outra bateria, posta por baixo da Cruz de São Pedro; nesta havia três peças
grossas, duas faziam tiro aos baluartes da Rainha e uma à Torre d'El-Rei, e
esta lhe quebraram algumas pedras junto às obras mortas. Um auxiliar de
Évora falou da praça, entendeu-se que se passara ao inimigo.

[25] - 4ª feira esforçou muito o inimigo as suas baterias, e as balas, que
davam no muro, tornavam para trás, estas nos mataram cinco soldados, e as
que saltavam para dentro da vila fazendo chapeletas mataram cinco bois; as
primeiras três bombardas arruinaram três moradas de casas.

As sentinelas da ronda tocaram arma ao inimigo, e enquanto durou, largaram
todos o trabalho, e todos andavam com tanta confusão que os não podiam os
cabos reduzir à forma. Nesta noite escreveu o governador [da praça, Manuel
de Saldanha] ao Conde [de São Lourenço] e a Câmara [de Olivença] lhe
escreveu o seguinte:

Presente é a Vossa Senhoria quantos dias há que o inimigo nos tem sitiados,
e com não serem muitos nos tem cortado os olivais, destruindo os pães [ou
seja, as culturas], e comida da sua cavalaria e bagagens; com a artilharia e
bombas nos vai arruinando as casas, com o que nos não deixa fora de toda a
pobreza e miséria. Nós somos e fomos sempre bons e fiéis vassalos a Sua
Majestade, e como tais merecemos ser socorridos, o que temos por muito
certo, confiados na grande mercê que Vossa Majestadefez sempre aos moradores
desta vila. este socorro ficamos esperando, e pedindo a Deus que nele dê a
Vossa Senhoria os bons sucessos que desejamos.

Esta carta cifrou [ou seja, pôs em cifra, em código] Gilot, e creio que
fielmente, se bem me disse o que escreveu a cifra que lhe acrescentou ou
cortou, mas ele passou, e a levou o Franco. Neste dia se tomou língua, e uma
das balas que faziam tiro à torre fez em pedaços um sino que estava nela e
servia de tocar a rebate.

26 - Quinta-feira pela manhã teve a nossa cavalaria uma escaramuça com a
companhia da guarda do inimigo junto das hortas, no Ferragial do Azoche;
durou um bom espaço e foi bem travada. Os nossos se recolheram sem dano, o
inimigo algum recebeu, e eu soube do tenente Pantoja [oficial espanhol],
[n]o dia em que saímos rendidos, que lhe morreram quatro e foram feridos
quinze, e muitos cavalos. Neste dia fez o governador repartição dos homens
nobres para estarem nos baluartes, três em cada um, mandando na artilharia e
vendo como se pelejava por aquelas partes, para que, parecendo-lhes
necessário, o advertissem [no sentido de "avisassem"] aos capitães, e a ele.

Por noite um soldado de D. Tomás Geraldino se passou para o inimigo, um
mosquete que rebentou matou um soldado e levou a outro uma mão. Uma bala
grossa quebrou pela jóia um sacre que estava na torre, com a qual e outra
peça de três libras se fez grande dano ao inimigo.

[27] - Sexta feira se começou de ver uma linha que de novo fazia o inimigo;
começava no quartel do olival de João Cabelo e ia caminhando ao redor da
praça, a tiro de arcabuz da estrada encoberta para a parte da Corna. O
governador mandou com grande cuidado segar os pães [ceifar o trigo e outros
cereais] que estavam ao redor da vila, por estarem tão crescidos que se não
viam as obras do inimigo senão quando eram já mais altas que eles; isto
cometeu ao sargento-mor da terra Gil Vaz cabeça, o qual o fez com os
moradores dela.

Neste dia acabou o inimigo de fazer a outra linha de comunicação de uma
bateria para a outra, e ambas guarnecia do quartel de Vale Mimoso. Daquela
linha saíam soldados a tomar alfaces nas hortas do Ral, que ficavam entre
nós e eles, e lhe mataram os nossos alguns com tiros, da estrada encoberta.
Acabou-se uma meia lua que o governador mandou fazer entre os baluartes da
Corna e do Calvário, e se guarneceu e começou de se trabalhar em outra, que
mandou fazer defronte da porta do Calvário.

O inimigo, desenganado com o pouco efeito que a sua artilharia fazia no
baluarte da Rainha, deu mais elevação às peças e meteu os tiros por dentro
da vila, com o que fez grande dano nas casas daqueles bairros; deixou de
atirar à torre e algumas vezes atirou à estacada da estrada encoberta, com o
que nos matou e feriu alguns soldados.

28 - Sábado pela manhã apareceu um quartel escrito em meia folha de papel
perto da nossa estrada encoberta, em um pau que parecia cabo de enxada;
trouxeram-no ao governador e ele o recolheu.

Também apareceu mui avante a linha que fazia pela parte do campo de [espaço
em branco no texto original; nota de HMS]. A artilharia do inimigo arruinou
muitas casas na rua grande de S. Bartolomeu, e entre estas as em que eu
vivia. Trabucou e lançou esta noite vinte e uma bombas, que arruinaram
algumas casas.

Pôs o governador fachos em a torre e sucedeu que estando ele com muita gente
na abóbada da porta do Calvário, dos quais todos dormiam, senão João Mendes
Mexia, Fernão Gomes de Cabreira e Gilot, que passeavam, se disparou uma
arma, e o pelouro dela deu em Salvador Machado, sargento-mor dos auxiliares
de Beja, e lhe quebrou uma perna, de que morreu em três dias. Como era noite
em que se trabucava, com o ruído do tiro saíram todos fugindo desacordados,
cuidando que era bomba que ali caíra, com o que se não pôde fazer
averiguação certa do caso, mas sempre se teve que foi desastre.

Duravam as baterias, e de uma e outra plataforma atiravam furiosamente. Em
tanto que houve dia em que se contaram setecentos tiros, segundo me
afirmaram soldados curiosos e de verdade. Domingo [dia 29] pela manhã se
passou para a praça um soldado do exército, era português, deu algumas
notícias do poder do inimigo, mas pouco certas. de tarde saíram a tomar
língua dois soldados nossos que foram Gonçalo Vaz e outro, o inimigo os
carregou com muitos, contra os quais sustentaram uma escaramuça por muito
tempo, e se retiraram sem dano.

À noite começámos de ver fogos por junto de Juromenha, tivémos grande festa,
entendendo que era o nosso exército. Como assim foi sem embargo de que
Castilho [Stéphane Auguste de Castille] sustentava, e com apostas, que nem
era o exército, nem havíamos de ser socorridos, o que dava grande escândalo
a todos. O governador mandou continuar os fachos na torre.

[30] 2ª feira pela manhã se via que da linha da comunicação entre as
baterias do inimigo saía formado um aproche, com que caminhava direito à
estrada encoberta, pela parte do baluarte da Rainha. Este formavam de noite,
e faziam o que lhe bastava para se cobrirem de alto e grosso, e de dia o
engrossavam e trabalhavam cobertos.

Pela manhã veio um escravo branco e ferrado, que era tambor-mor, e cuidava
que o nosso forte era quartel seu, e se veio meter nele. Este foi trazido ao
governador e disse que no dia atrás tinha chegado ao exército D. Francisco
de Guzmán, novo mestre de campo que vinha de Sevilha com nove companhias de
infantaria, e que logo lhe mataram um moço que era o melhor sapateiro que
havia na cidade.

Do quartel de S. Francisco Velho se passou para cá outro castelhano bem
fardado, mas ao meu ver e ao de todos, falto de juízo. Outro se tomou para
língua, de todos soubemos que entre os Duques de S. Germán e o de Osuna
houvera diferenças e que chegaram [a] vir à espada, e foi porque o de Osuna
disse que era ruim guerra atirar às casas da vila, que queria ganhar, e que
rompesse a muralha e entrasse a praça, que a isso vinha; sobre estas tiveram
outras razões, e a final a de Osuna foi que em Espanha, depois de El-Rei, só
ele era e ninguém lhe precedia. Na noite deste dia trabucou o inimigo e
lançou sete bombas, com o que arruinou quatro moradas de casas.

(continua)

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Cerco e tomada de Olivença (5ª parte - de 1 a 8 de Maio de 1657)

Por Jorge P. de Freitas

Maio 1 - Vendo o governador que o inimigo caminhava para nós, mandou fazer
no parapeito e segundo friso da estrada encoberta duas cortaduras, com as
quais deixava cortado o ângulo dela por aquela parte, e mais atrás daquelas
mandou fazer outras. Vendo também que havia na praça moradores necessitados
que não tinham que comer, lhes mandou dar racção como aos soldados, a cento
e sessenta e cinco deles.

2 - Quarta-feira trabucou o inimigo de noite e de dia e lançou grande
quantidade de bombas, quatro delas arruinaram quatro moradas de casas em que
caíram; entre estas deu uma em casa de Francisco de Magalhães Galego, e fez
uma disforme ruína, e lhe queimou todo o móvel de sua casa, que era muito e
bom.

Pelas duas horas da tarde mandou o governador fazer uma surtida ao inimigo
naquele novo aproche com que vinha caminhando. Foi por cabo o alferes
reformado João Domingos, e levou trinta infantes e alguns aventureiros, da
cavalaria foram doze cavalos, e por cabo o furriel Domingos Pereira. Saíram
pela estrada e com toda a fúria se arrojaram ao trincheirão que estava ainda
tão singelo, que os cavalos passaram todos da outra parte.

Estava o inimigo bem descuidado deste dano, e quando advertiu nele já não
teve tempo para mais que fugir, o que não puderam fazer mais que até dez; os
demais todos morreram e com eles o sargento-mor Palacios, cabo de tanto
porte que ainda o dia que saímos rendidos vi que os castelhanos choravam a
perda deste soldado. Só ele se pôs em defesa com mais dois, que também
morreram. E o capitão e oficiais da companhia que ali guarnecia, que tinha
75 soldados, deles trouxeram um para língua, que nos informou de tudo, e ao
depois o soubemos de outros, que [se] passou assim. Os nossos vieram sem
dano, só o alferes que foi cabo trouxe três feridas, mas de pouco porte, e o
sargento Castelão uma picada em um braço [picada: ferida provocada por um
pique].

O sentimento obrigou ao inimigo a se despicar, e o quis fazer dando-nos um
assalto na noite deste dia. Tinha já dado meia-noite, quando pela parte do
baluarte da Rainha avançou com um grosso de infantaria, entre espanhóis e
estrangeiros, e para melhor os obrigar trazia por detrás deles alguma
cavalaria. Chegaram a pegar nas estacas e a atirar com pedras; ao depois de
gastar, de parte a parte, os tiros e granadas que ali havia, chegou a durar
a briga sem tiros muito tempo. Desta parte lhe tomaram os nossos algumas
picas [piques] e chuços, em que lhe pegavam e tiravam das mãos. Durou o
combate por esta parte duas horas, em que de ambas partes se pelejou
furiosamente.

Activou-se o inimigo e retirou mortos e feridos, e só ficaram bem poucos,
que por ser mui perto de nós deixaram muitas armas no campo. Quis refazer-se
para segunda, mas os seus soldados o não quiseram fazer, sem embargo dos
gritos, ameaças e afrontas que lhes diziam.

Logo que se retirou de todo, se deu pelo muro uma salva, e viva[s] a Sua
Majestade, que Deus guarde, com que o inimigo tornou a avançar pela parte de
São Lázaro, aonde me eu achei. Saiu da sua linha e quartel do olival de João
Cabelos e com grande algazarra veio para nós, mas tão devagar que parecia os
traziam ao Inferno, e com partirem muitos, e por detrás deles um batalhão de
cavalaria, chegaram a nós já poucos, ainda que os oficiais bem brazonavam.
Eu vi uma só manga de mosqueteiros e o batalhão. Outros dizem que da outra
banda vinha outra manga. Chegaram perto da estacada coisa de dez passos, e
naquela distância continuaram para baixo até ao Ferragial do Azoche.
Receberão a carga de tão perto, e ao depois muitos tiros, com o que se
retirou, e retirou os mortos, se bem naquela noite todo[s] os sentimos vir
entre o trigo e carregar deles, de sorte que até as selas e freios dos
cavalos retiraram. Esta avançada durou menos de meia hora.

3 - Quinta-feira intentou o Du Four contraminar o muro da estacada coberta
pela parte do aproche, e tendo rota a parede não pôde obrar coisa alguma,
porque a terra o não consentia por ser solta e movida de poucos dias, e
assim tornou a mandar tapar o buraco.

O sargento-mor Gil Lourenço Cabeça saiu com gente da terra a cortar trigos
para faxinas, e para o que não bastaram se cortou arvoredo dos quintais e
hortas de dentro da vila. O inimigo chegou assim o aproche à escarga da
estrada encoberta. Mandou o governador fazer uma cortadura no ângulo da
estrada encoberta, por dentro do fosso, para que o que carretavam a faxina
os meninos e mulheres, que eu vi conduzir, por que os homens não perdessem
de trabalhar.

Neste dia, logo à noite, intentou o inimigo outro assalto por donde o
primeiro [tinha sido feito], mas não chegou perto, só tratou de retirar os
mortos que lhe tinham ficado ali no dia atrás.

[4 de Maio] 6ª feira, manhã, pelas dez horas do dia foi visto o nosso
exército, marchava para [a] praça, fez caminho direito ao Castelo Velho, que
é um outeiro que está um quarto de légua da vila. O inimigo queimou as
barracas do quartel de São Francisco o Velho e marchou com todo o poder para
o quartel do olival de João Cabelos, que era então o da Corte, e ficava
fronteiro àquela parte por onde marchava o nosso exército. Deste quartel
mandou pôr duas peças pequenas para o outro de Vale das Éguas, aonde tinha
feito um fortezinho no meio da sua linha exterior, e com a infantaria e
cavalaria guarneceu a sua linha desde Ladra até o ribeiro de Figueira,
repartindo a infantaria em esquadrões, que arrimava singelos à linha, e a
cavalaria em batalhões singelos em três esquadrões.

Nesta forma esperou o inimigo os nossos dentro da sua linha; era esta uma
trincheira feita de terra e faxina, de altura bastante para se poder pelejar
detrás dela, e de grossura ordinária, como os quartéis da campanha. Pela
parte de fora tinha um fosso ou sanja de largura ao parecer de cinco palmos,
e altura de pouco mais; isto tinha pela parte, que eu as vi quando vim
rendido; as outras partes deviam ser como esta, porque da praça lhe não
vimos maior vulto por outras partes do que por aquela.

[5] Sábado pelo meio-dia marchou o nosso exército direito à praça pela banda
de Castelo Velho; e porque o inimigo tinha guarnecido a atalaia daquele
outeiro com vinte cinco mosqueteiros, mandou um troço de mosquetaria que
avançassem a ela, o que fizeram com valor e entraram a atalaia e forte, e
mataram só três dos que estavam à defesa e aos mais deram quartel.

Daí foi o nosso exército para o sítio da Carvoeira, que dista desse outros
dois tiros de mosquete, aonde o inimigo tinha outra atalaia guarnecida; e os
que estavam à defesa dela pediram que, para satisfação dos seus, lhe dessem
lugar a que dessem duas cargas sem bala e que eles estavam rendidos, o que
se lhes concedeu, segundo me informaram, e eram outros vinte cinco
mosqueteiros; guarneceu o nosso exército estas atalaias.

Logo que o nosso exército chegou a Amora, se pôs em forma de batalha, e foi
uma formosa vista; e estando nesta forma, e ao parecer que querendo
acometer, começou de chover água grossa e continuou até noite; neste tempo
se afastou pouco atrás o nosso exército, e se meteu no Vale da Amoreira, e
aí se aquartelou. Do baluarte de cima do Calvário se atirou ao inimigo, ao
quartel de João Cabelos, e deu na pólvora que logo ardeu e foi grande
quantidade dela que se queimou, e com ela voaram mais de trinta homens,
excepto os que ficaram tostados.

[6] Com a grande chuva esteve a guerra em calmaria o dia de domingo, até que
pela tarde atirou o inimigo algumas peças ao nosso exército desde o olival
de João Cabelos, e com as peças que tinha levado para Vale das Éguas atirava
à vila. Eram as balas umas de dez libras, e as duas de sete; do nosso campo
se lhe atiravam também com outras peças, mas a chuva tornou a continuar como
até então.

7 - Ainda segunda-feira chovia como dantes, e os nossos tratavam e ir
fazendo o seu quartel no sítio referido; e em tanto tornou o inimigo a
guarnecer e trabalhar nos seus aproches, e esforçava as cargas de
mosquetaria que deles dava contra a praça. Os tiros de artilharia de campo a
campo continuavam. Este dia se passou para a praça um soldado castelhano, e
por noite teve o inimigo arma [ou seja, houve uma situação de alerta] pela
parte [do baluarte] da Rainha.

[8] - Terça-feira pela dez horas do dia saiu a cavalaria do inimigo do
quartel de Vale Mimoso e marchou por dentro da sua linha para o de João
Cabelos, e foi sair pelo ribeiro de Ramapalhos direito a Janela Ladra. Já
fora da linha foi caminho direito às Calçadas, e daí se formou em batalha
ao longo do ribeiro abaixo, algum tanto afastado dele, e levou consigo uma
pouca de mosquetaria, que formou junto do batalhão do corno direito, e assim
fez frente para a nossa gente. Os nossos destoutra parte so ribeiro se
formaram, e assim estiveram grande tempo sem haver mais que uma bem travada
escaramuça entre os batedores, com o que se recolheu o inimigo às suas
linhas.

Pela tarde avançaram dois batalhões ao rastilho da porta do Calvário, foram
rebatidos e com perda de dois cavalos que logo ficaram, afora os que levaram
feridos. Lançaram fama que minavam pela parte do seu ataque, o que se achou
pelo contrário. Neste dia choveu muita água, o mesmo fez quinta-feira, que
passou sem cousa de que se deva falar. [A narrativa apresenta aqui alguma
confusão: como veremos na próxima parte, a quinta-feira seguinte foi dia de
azáfama - o autor talvez tenha querido escrever "quarta-feira", mas mesmo
nesse dia registou um episódio curioso, como teremos ocasião de ver.]

(continua)
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sáb Out 03, 2009 21:00     Assunto : Responder com Citação
 
Com o especial obséquio do Dr. António Marques.

Caros Amigos

As últimas partes (6.ª a 10.ª) da «Relação de tudo o que passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657», de autor anónimo, foram publicadas no sítio «Guerra da Restauração», de Jorge Penim de Freitas.
São de leitura instrutiva e proveitosa.
Bem merece felicitações o sítio «Guerra da Restauração» e o seu autor.

AMarques


---------------


Transcreve-se, com a devida vénia, a 10.ª e última parte:


http://guerradarestauracao.wordpress.com/2009/09/2 7/blogue-de-historia-militar-dedicado-a-guerra-da- restauracao-ou-da-aclamacao-1641-1668-inicio-leitu ras-sobre-o-autor-cerco-e-tomada-de-olivenca-10%C2 %AA-e-ultima-parte-%E2%80%93/



Cerco e tomada de Olivença (10.ª e última parte - de 23 a 31 de Maio de 1657)
por Jorge P. de Freitas



20 [de Abril]. 6ª feira pela manhã mandou o governador cortar o arvoredo das hortas do Vale da Corna, assim por que nos fazia dano, como por que o inimigo se não aproveitasse dele para faxina. Enquanto se cortou esteve um bom troço de infantaria fora e a cavalaria que tínhamos dando segurança aos que estavam e traziam a rama. O governador e eu estivémos no baluarte da Corna vigiando os movimentos do inimigo, ele para a parte do Vale das Éguas e Santa Catarina e eu com um óculo vendo se do olival de João Cabelos e o mais que há, até o posto de Elvas, saía alguma cavalaria a impedir o corte, porém não saíra e os nossos se recolheram à praça.

Neste dia amanheceu uma bateria feita pelo inimigo no outeiro de São Bartolomeu e para ele mudou as peças grossas que tinha na outra parte do Espinhaço de Cabra. Desta que ficava mais perto demos a metade do que a outra. Começou o inimigo a fortificar as casas da vila, entre as mais peças que aí pôs foi uma de 48 libras, e foi este o primeiro dia que vimos na praça balas de calibre.

O governador mandou logo fazer contrabateria para aquela parte, o que obrou o capitão Manuel Rodrigues Pigaço, mandando fazer esplanadas no baluarte de São Francisco, e aí pôs três peças grossas; no de São Brás havia duas, e no da Rainha três, que todas atiravam contra aquela bateria, mas não foi bastante para que não arruinassem o mosteiro aos frades e muitas outras casas da vila que ficavam vendo-se daquela parte.

Na noite deste dia trabucou o inimigo e lançou algumas bombas dentro da praça. eram estas feitas de metal e tinham de calibre 130 libras, afora o enchimento; em qualquer parte em que davam faziam um poço grande, porque entravam muito pela terra e em tomando fogo faziam uma notável ruína, porém muito maior quando davam em alguma casa, porque afora de voarem todo o telhado e sobrados, arruinavam as paredes.

Neste dia caiu uma bomba na igreja de Santa Maria que estava cheia de mulheres e meninos, mas foi Deus servido que o primeiro golpe desse em um friso da igreja, com o que, quando caiu sobre a abóbada a não rompeu, só quando arrebentou voou um pedaço grande do telhado.

Por estes dias se acabou de fazer a coroa de que falei na relação de 13 deste mês, assistindo sempre nele nove companhias de guarnição e trabalhadores, afora gente da terra e pedreiros, governava esta gente até então o sargento-mor Manuel de Magalhães.

Logo que o inimigo deu vista da praça em 12 do presente, mandou o governador ao sargento-mor da vila Gil Lourenço Cabeça com o capitão Gonçalo Mendes Homem e grande quantidade de gastadores, todos da vila, que fossem cortar a rama dos olivais mais vizinhos à praça, o que fizeram, e trazendo-a os soldados e gastadores serviu que fora o inimigo se afastar mais longe, por estar descoberto de faxina para esta obra e outras.

21. Sábado pela manhã entrou na praça o alferes do capitão Diogo Rodrigues de Sousa, do terço de João Álvares de Barbuda, o qual ao tempo em que o inimigo veio estava no Algarve, donde era natural, e filho de um sargento-mor; veio com ele outro soldado infante que o guiou. Os nossos tomaram língua [isto é, capturaram um soldado inimigo] e se informou o governador do poder do inimigo, que sempre os castelhanos souberam engrandecer com palavras e encarecimentos.

Caminhava o inimigo com as suas linhas exteriores e obras dos seus quartéis, de uma e outra coisa tinha já feito muito, principalmente no da circunvalação.

Muitos soldados castelhanos aventureiros vinham de pé fazer tiros aos nossos, e os nossos saíam a eles. Neste dia veio um galego, natural que disse ser da Corunha, que se chamava Sanchez de Taivo; este chegou até perto da Cruz de São Pedro e aí lhe deu um balaço por um olho, de que caiu, mas não morto, se bem desacordado. As suas sentinelas de cavalo o quiseram retirar, porém Domingos do Prado, filho do sargento-mor Gil Lourenço Galego, chegando pegou ao ferido por um pé e o trouxe a rasto até à estrada coberta, e aí se confessou, e o levaram ao hospital. Nunca quis dizer quem era, de que qualidade e que posto tinha. Viveu ainda cinco dias.

Na algibeira se lhe achou uma relação de algumas companhias de infantaria, entre outros papéis, e uma memória de dinheiro cobrado de contribuição de alguns lugares e um rol de prata lavrada, que de pouco tempo tinha comprado.

(continua)

Este texto corresponde à transcrição (com ortografia actualizada) de um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.





Cerco e tomada de Olivença (4ª parte - de 22 a 30 de Abril de 1657)

por Jorge P. de Freitas



[22 de Abril - Está, por lapso, indicado no original com o nº 23; nota introduzida por Horácio Madureira dos Santos na sua transcrição] - Domingo se viram mui avante as linhas do inimigo que, como trabalhavam nelas de noite, apareciam pela manhã crescidas; pela tarde deu uma bala grossa na rua das Flores, e na chapeleta que fez matou um alferes auxiliar, foi este o primeiro homem que o inimigo nos matou.

Desde este dia se deu carga contínua de mosquetaria de dia e de noite pelas partes em que o inimigo trabalhava, para lhe impedirem o seu serviço.

23 - 2ª feira amanheceu uma nova plataforma no mosteiro de São Bartolomeu, mas por baixo, coisa de trezentos passos, e para ela passou o inimigo as peças que na outra tinha; ficava esta menos de tiro de mosquete da praça.

[24] - 3ª feira ao amanhecer entrou na praça Diogo Soares, soldado honrado, o qual estava fora dela ao tempo que chegou o inimigo. Neste dia amanheceu outra bateria, posta por baixo da Cruz de São Pedro; nesta havia três peças grossas, duas faziam tiro aos baluartes da Rainha e uma à Torre d'El-Rei, e esta lhe quebraram algumas pedras junto às obras mortas. Um auxiliar de Évora falou da praça, entendeu-se que se passara ao inimigo.

[25] - 4ª feira esforçou muito o inimigo as suas baterias, e as balas, que davam no muro, tornavam para trás, estas nos mataram cinco soldados, e as que saltavam para dentro da vila fazendo chapeletas mataram cinco bois; as primeiras três bombardas arruinaram três moradas de casas.

As sentinelas da ronda tocaram arma ao inimigo, e enquanto durou, largaram todos o trabalho, e todos andavam com tanta confusão que os não podiam os cabos reduzir à forma. Nesta noite escreveu o governador [da praça, Manuel de Saldanha] ao Conde [de São Lourenço] e a Câmara [de Olivença] lhe escreveu o seguinte:

Presente é a Vossa Senhoria quantos dias há que o inimigo nos tem sitiados, e com não serem muitos nos tem cortado os olivais, destruindo os pães [ou seja, as culturas], e comida da sua cavalaria e bagagens; com a artilharia e bombas nos vai arruinando as casas, com o que nos não deixa fora de toda a pobreza e miséria. Nós somos e fomos sempre bons e fiéis vassalos a Sua Majestade, e como tais merecemos ser socorridos, o que temos por muito certo, confiados na grande mercê que Vossa Majestadefez sempre aos moradores desta vila. este socorro ficamos esperando, e pedindo a Deus que nele dê a Vossa Senhoria os bons sucessos que desejamos.

Esta carta cifrou [ou seja, pôs em cifra, em código] Gilot, e creio que fielmente, se bem me disse o que escreveu a cifra que lhe acrescentou ou cortou, mas ele passou, e a levou o Franco. Neste dia se tomou língua, e uma das balas que faziam tiro à torre fez em pedaços um sino que estava nela e servia de tocar a rebate.

26 - Quinta-feira pela manhã teve a nossa cavalaria uma escaramuça com a companhia da guarda do inimigo junto das hortas, no Ferragial do Azoche; durou um bom espaço e foi bem travada. Os nossos se recolheram sem dano, o inimigo algum recebeu, e eu soube do tenente Pantoja [oficial espanhol], [n]o dia em que saímos rendidos, que lhe morreram quatro e foram feridos quinze, e muitos cavalos. Neste dia fez o governador repartição dos homens nobres para estarem nos baluartes, três em cada um, mandando na artilharia e vendo como se pelejava por aquelas partes, para que, parecendo-lhes necessário, o advertissem [no sentido de "avisassem"] aos capitães, e a ele.

Por noite um soldado de D. Tomás Geraldino se passou para o inimigo, um mosquete que rebentou matou um soldado e levou a outro uma mão. Uma bala grossa quebrou pela jóia um sacre que estava na torre, com a qual e outra peça de três libras se fez grande dano ao inimigo.

[27] - Sexta feira se começou de ver uma linha que de novo fazia o inimigo; começava no quartel do olival de João Cabelo e ia caminhando ao redor da praça, a tiro de arcabuz da estrada encoberta para a parte da Corna. O governador mandou com grande cuidado segar os pães [ceifar o trigo e outros cereais] que estavam ao redor da vila, por estarem tão crescidos que se não viam as obras do inimigo senão quando eram já mais altas que eles; isto cometeu ao sargento-mor da terra Gil Vaz cabeça, o qual o fez com os moradores dela.

Neste dia acabou o inimigo de fazer a outra linha de comunicação de uma bateria para a outra, e ambas guarnecia do quartel de Vale Mimoso. Daquela linha saíam soldados a tomar alfaces nas hortas do Ral, que ficavam entre nós e eles, e lhe mataram os nossos alguns com tiros, da estrada encoberta. Acabou-se uma meia lua que o governador mandou fazer entre os baluartes da Corna e do Calvário, e se guarneceu e começou de se trabalhar em outra, que mandou fazer defronte da porta do Calvário.

O inimigo, desenganado com o pouco efeito que a sua artilharia fazia no baluarte da Rainha, deu mais elevação às peças e meteu os tiros por dentro da vila, com o que fez grande dano nas casas daqueles bairros; deixou de atirar à torre e algumas vezes atirou à estacada da estrada encoberta, com o que nos matou e feriu alguns soldados.

28 - Sábado pela manhã apareceu um quartel escrito em meia folha de papel perto da nossa estrada encoberta, em um pau que parecia cabo de enxada; trouxeram-no ao governador e ele o recolheu.

Também apareceu mui avante a linha que fazia pela parte do campo de [espaço em branco no texto original; nota de HMS]. A artilharia do inimigo arruinou muitas casas na rua grande de S. Bartolomeu, e entre estas as em que eu vivia. Trabucou e lançou esta noite vinte e uma bombas, que arruinaram algumas casas.

Pôs o governador fachos em a torre e sucedeu que estando ele com muita gente na abóbada da porta do Calvário, dos quais todos dormiam, senão João Mendes Mexia, Fernão Gomes de Cabreira e Gilot, que passeavam, se disparou uma arma, e o pelouro dela deu em Salvador Machado, sargento-mor dos auxiliares de Beja, e lhe quebrou uma perna, de que morreu em três dias. Como era noite em que se trabucava, com o ruído do tiro saíram todos fugindo desacordados, cuidando que era bomba que ali caíra, com o que se não pôde fazer averiguação certa do caso, mas sempre se teve que foi desastre.

Duravam as baterias, e de uma e outra plataforma atiravam furiosamente. Em tanto que houve dia em que se contaram setecentos tiros, segundo me afirmaram soldados curiosos e de verdade. Domingo [dia 29] pela manhã se passou para a praça um soldado do exército, era português, deu algumas notícias do poder do inimigo, mas pouco certas. de tarde saíram a tomar língua dois soldados nossos que foram Gonçalo Vaz e outro, o inimigo os carregou com muitos, contra os quais sustentaram uma escaramuça por muito tempo, e se retiraram sem dano.

À noite começámos de ver fogos por junto de Juromenha, tivémos grande festa, entendendo que era o nosso exército. Como assim foi sem embargo de que Castilho [Stéphane Auguste de Castille] sustentava, e com apostas, que nem era o exército, nem havíamos de ser socorridos, o que dava grande escândalo a todos. O governador mandou continuar os fachos na torre.

[30] 2ª feira pela manhã se via que da linha da comunicação entre as baterias do inimigo saía formado um aproche, com que caminhava direito à estrada encoberta, pela parte do baluarte da Rainha. Este formavam de noite, e faziam o que lhe bastava para se cobrirem de alto e grosso, e de dia o engrossavam e trabalhavam cobertos.

Pela manhã veio um escravo branco e ferrado, que era tambor-mor, e cuidava que o nosso forte era quartel seu, e se veio meter nele. Este foi trazido ao governador e disse que no dia atrás tinha chegado ao exército D. Francisco de Guzmán, novo mestre de campo que vinha de Sevilha com nove companhias de infantaria, e que logo lhe mataram um moço que era o melhor sapateiro que havia na cidade.

Do quartel de S. Francisco Velho se passou para cá outro castelhano bem fardado, mas ao meu ver e ao de todos, falto de juízo. Outro se tomou para língua, de todos soubemos que entre os Duques de S. Germán e o de Osuna houvera diferenças e que chegaram [a] vir à espada, e foi porque o de Osuna disse que era ruim guerra atirar às casas da vila, que queria ganhar, e que rompesse a muralha e entrasse a praça, que a isso vinha; sobre estas tiveram outras razões, e a final a de Osuna foi que em Espanha, depois de El-Rei, só ele era e ninguém lhe precedia. Na noite deste dia trabucou o inimigo e lançou sete bombas, com o que arruinou quatro moradas de casas.

(continua)



Cerco e tomada de Olivença (5ª parte - de 1 a 8 de Maio de 1657)

Por Jorge P. de Freitas


Maio 1 - Vendo o governador que o inimigo caminhava para nós, mandou fazer no parapeito e segundo friso da estrada encoberta duas cortaduras, com as quais deixava cortado o ângulo dela por aquela parte, e mais atrás daquelas mandou fazer outras. Vendo também que havia na praça moradores necessitados que não tinham que comer, lhes mandou dar racção como aos soldados, a cento e sessenta e cinco deles.

2 - Quarta-feira trabucou o inimigo de noite e de dia e lançou grande quantidade de bombas, quatro delas arruinaram quatro moradas de casas em que caíram; entre estas deu uma em casa de Francisco de Magalhães Galego, e fez uma disforme ruína, e lhe queimou todo o móvel de sua casa, que era muito e bom.

Pelas duas horas da tarde mandou o governador fazer uma surtida ao inimigo naquele novo aproche com que vinha caminhando. Foi por cabo o alferes reformado João Domingos, e levou trinta infantes e alguns aventureiros, da cavalaria foram doze cavalos, e por cabo o furriel Domingos Pereira. Saíram pela estrada e com toda a fúria se arrojaram ao trincheirão que estava ainda tão singelo, que os cavalos passaram todos da outra parte.

Estava o inimigo bem descuidado deste dano, e quando advertiu nele já não teve tempo para mais que fugir, o que não puderam fazer mais que até dez; os demais todos morreram e com eles o sargento-mor Palacios, cabo de tanto porte que ainda o dia que saímos rendidos vi que os castelhanos choravam a perda deste soldado. Só ele se pôs em defesa com mais dois, que também morreram. E o capitão e oficiais da companhia que ali guarnecia, que tinha 75 soldados, deles trouxeram um para língua, que nos informou de tudo, e ao depois o soubemos de outros, que [se] passou assim. Os nossos vieram sem dano, só o alferes que foi cabo trouxe três feridas, mas de pouco porte, e o sargento Castelão uma picada em um braço [picada: ferida provocada por um pique].

O sentimento obrigou ao inimigo a se despicar, e o quis fazer dando-nos um assalto na noite deste dia. Tinha já dado meia-noite, quando pela parte do baluarte da Rainha avançou com um grosso de infantaria, entre espanhóis e estrangeiros, e para melhor os obrigar trazia por detrás deles alguma cavalaria. Chegaram a pegar nas estacas e a atirar com pedras; ao depois de gastar, de parte a parte, os tiros e granadas que ali havia, chegou a durar a briga sem tiros muito tempo. Desta parte lhe tomaram os nossos algumas picas [piques] e chuços, em que lhe pegavam e tiravam das mãos. Durou o combate por esta parte duas horas, em que de ambas partes se pelejou furiosamente.

Activou-se o inimigo e retirou mortos e feridos, e só ficaram bem poucos, que por ser mui perto de nós deixaram muitas armas no campo. Quis refazer-se para segunda, mas os seus soldados o não quiseram fazer, sem embargo dos gritos, ameaças e afrontas que lhes diziam.

Logo que se retirou de todo, se deu pelo muro uma salva, e viva[s] a Sua Majestade, que Deus guarde, com que o inimigo tornou a avançar pela parte de São Lázaro, aonde me eu achei. Saiu da sua linha e quartel do olival de João Cabelos e com grande algazarra veio para nós, mas tão devagar que parecia os traziam ao Inferno, e com partirem muitos, e por detrás deles um batalhão de cavalaria, chegaram a nós já poucos, ainda que os oficiais bem brazonavam. Eu vi uma só manga de mosqueteiros e o batalhão. Outros dizem que da outra banda vinha outra manga. Chegaram perto da estacada coisa de dez passos, e naquela distância continuaram para baixo até ao Ferragial do Azoche. Receberão a carga de tão perto, e ao depois muitos tiros, com o que se retirou, e retirou os mortos, se bem naquela noite todo[s] os sentimos vir entre o trigo e carregar deles, de sorte que até as selas e freios dos cavalos retiraram. Esta avançada durou menos de meia hora.

3 - Quinta-feira intentou o Du Four contraminar o muro da estacada coberta pela parte do aproche, e tendo rota a parede não pôde obrar coisa alguma, porque a terra o não consentia por ser solta e movida de poucos dias, e assim tornou a mandar tapar o buraco.

O sargento-mor Gil Lourenço Cabeça saiu com gente da terra a cortar trigos para faxinas, e para o que não bastaram se cortou arvoredo dos quintais e hortas de dentro da vila. O inimigo chegou assim o aproche à escarga da estrada encoberta. Mandou o governador fazer uma cortadura no ângulo da estrada encoberta, por dentro do fosso, para que o que carretavam a faxina os meninos e mulheres, que eu vi conduzir, por que os homens não perdessem de trabalhar.

Neste dia, logo à noite, intentou o inimigo outro assalto por donde o primeiro [tinha sido feito], mas não chegou perto, só tratou de retirar os mortos que lhe tinham ficado ali no dia atrás.

[4 de Maio] 6ª feira, manhã, pelas dez horas do dia foi visto o nosso exército, marchava para [a] praça, fez caminho direito ao Castelo Velho, que é um outeiro que está um quarto de légua da vila. O inimigo queimou as barracas do quartel de São Francisco o Velho e marchou com todo o poder para o quartel do olival de João Cabelos, que era então o da Corte, e ficava fronteiro àquela parte por onde marchava o nosso exército. Deste quartel mandou pôr duas peças pequenas para o outro de Vale das Éguas, aonde tinha feito um fortezinho no meio da sua linha exterior, e com a infantaria e cavalaria guarneceu a sua linha desde Ladra até o ribeiro de Figueira, repartindo a infantaria em esquadrões, que arrimava singelos à linha, e a cavalaria em batalhões singelos em três esquadrões.

Nesta forma esperou o inimigo os nossos dentro da sua linha; era esta uma trincheira feita de terra e faxina, de altura bastante para se poder pelejar detrás dela, e de grossura ordinária, como os quartéis da campanha. Pela parte de fora tinha um fosso ou sanja de largura ao parecer de cinco palmos, e altura de pouco mais; isto tinha pela parte, que eu as vi quando vim rendido; as outras partes deviam ser como esta, porque da praça lhe não vimos maior vulto por outras partes do que por aquela.

[5] Sábado pelo meio-dia marchou o nosso exército direito à praça pela banda de Castelo Velho; e porque o inimigo tinha guarnecido a atalaia daquele outeiro com vinte cinco mosqueteiros, mandou um troço de mosquetaria que avançassem a ela, o que fizeram com valor e entraram a atalaia e forte, e mataram só três dos que estavam à defesa e aos mais deram quartel.

Daí foi o nosso exército para o sítio da Carvoeira, que dista desse outros dois tiros de mosquete, aonde o inimigo tinha outra atalaia guarnecida; e os que estavam à defesa dela pediram que, para satisfação dos seus, lhe dessem lugar a que dessem duas cargas sem bala e que eles estavam rendidos, o que se lhes concedeu, segundo me informaram, e eram outros vinte cinco mosqueteiros; guarneceu o nosso exército estas atalaias.

Logo que o nosso exército chegou a Amora, se pôs em forma de batalha, e foi uma formosa vista; e estando nesta forma, e ao parecer que querendo acometer, começou de chover água grossa e continuou até noite; neste tempo se afastou pouco atrás o nosso exército, e se meteu no Vale da Amoreira, e aí se aquartelou. Do baluarte de cima do Calvário se atirou ao inimigo, ao quartel de João Cabelos, e deu na pólvora que logo ardeu e foi grande quantidade dela que se queimou, e com ela voaram mais de trinta homens, excepto os que ficaram tostados.

[6] Com a grande chuva esteve a guerra em calmaria o dia de domingo, até que pela tarde atirou o inimigo algumas peças ao nosso exército desde o olival de João Cabelos, e com as peças que tinha levado para Vale das Éguas atirava à vila. Eram as balas umas de dez libras, e as duas de sete; do nosso campo se lhe atiravam também com outras peças, mas a chuva tornou a continuar como até então.

7 - Ainda segunda-feira chovia como dantes, e os nossos tratavam e ir fazendo o seu quartel no sítio referido; e em tanto tornou o inimigo a guarnecer e trabalhar nos seus aproches, e esforçava as cargas de mosquetaria que deles dava contra a praça. Os tiros de artilharia de campo a campo continuavam. Este dia se passou para a praça um soldado castelhano, e por noite teve o inimigo arma [ou seja, houve uma situação de alerta] pela parte [do baluarte] da Rainha.

[8] - Terça-feira pela dez horas do dia saiu a cavalaria do inimigo do quartel de Vale Mimoso e marchou por dentro da sua linha para o de João Cabelos, e foi sair pelo ribeiro de Ramapalhos direito a Janela Ladra. Já fora da linha foi caminho direito às Calçadas, e daí se formou em batalha ao longo do ribeiro abaixo, algum tanto afastado dele, e levou consigo uma pouca de mosquetaria, que formou junto do batalhão do corno direito, e assim fez frente para a nossa gente. Os nossos destoutra parte so ribeiro se formaram, e assim estiveram grande tempo sem haver mais que uma bem travada escaramuça entre os batedores, com o que se recolheu o inimigo às suas linhas.

Pela tarde avançaram dois batalhões ao rastilho da porta do Calvário, foram rebatidos e com perda de dois cavalos que logo ficaram, afora os que levaram feridos. Lançaram fama que minavam pela parte do seu ataque, o que se achou pelo contrário. Neste dia choveu muita água, o mesmo fez quinta-feira, que passou sem cousa de que se deva falar. [A narrativa apresenta aqui alguma confusão: como veremos na próxima parte, a quinta-feira seguinte foi dia de azáfama - o autor talvez tenha querido escrever "quarta-feira", mas mesmo nesse dia registou um episódio curioso, como teremos ocasião de ver.]

(continua)
 
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