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Beladona
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Local: Algarve
Mensagem Enviada: Sex Out 23, 2009 22:44     Assunto : BOLETIM DA ACADEMIA GALEGA DE LÍNGUA PORTUGUESA//Outubro de 2009 Responder com Citação
 
De: <carlosluna@iol.pt>

BOLETIM DA ACADEMIA GALEGA DE LÍNGUA PORTUGUESA//Outubro de 2009

TRÊS TEXTOS (Português em Olivença//JORNADA DO ALÉM GUADIANA EM 28 FEVEREIRO
2009////
TEXTO INGLÊS DE MARÇO DE 2009//(Biografia do autor))

O PORTUGUÊS DE OLIVENÇA
A História da sobrevivência da Língua Portuguesa em Olivença terá que ser
feita um
dia.Mais do que sobrevivência, é uma História de Resistência, dados a
pressão e os
condicionalismos vários, ainda muito mal estudados.
Em 1840, trinta e nove anos após a ocupação espanhola (1801), o Português
foi mesmo
proibido
em Olivença, inclusivamente nas Igrejas. O combate contra a Língua de
Camões já vinha de
trás, todavia. Em 1805,as Actas da Câmara tinha começado a ser redigidas em
Castelhano,
o
que fizera uma vítima, digamos que um mártir: Vicente Vieira Valério. Este,
negando-se a
escrever na Língua de Cervantes, teve de ceder o lugar a outro. E acabou
por morrer à
mingua de recursos, personificando um drama cujo desenvolvimento se
processaria,
geração após geraçaõ.Assim, já em 26 de Janeiro de 1805, suspendeu-se,
naturalmente, o
uso da moeda portuguesa
em Olivença. As autoridades espanholas comunicaram então a vários ofícios,
nomeadamente
aos aguadeiros, que era obrigatório usar medidas espanholas (referiam-se a
comprimento,
peso, volume, etc.).
Claro que a Língua não tardaria a sofrer as consequências. A 20 de
Fevereiro de 1805,
foi
decidido suprimir toda e qualquer escola portuguesa, bem como o ensino do
Português. A
14
de Agosto de 1805, as actas da Câmara Municipal passaram a ser escritas
obrigatoriamente
em Castelhano, o que fez uma vítima: Vicente Vieira Valério. Este,
negando-se a escrever
na Língua de Cervantes, teve de ceder o lugar a outro. E acabou por morrer
à mingua de
recursos, personificando um drama cujo desenvolvimento se processaria,
geração após
geração.
Há notícias de oposição dos oliventinos a estas medidas. As Escolas
privadas continuaram
a ministrar ensino em Português, até que são fechadas a 19 de Maio de 1813,
com o
propósito (oficial) "de evitar qualquer sentimento patriótico lusitano" (
A.M.O.
leg/Carp
7/2-18, 19-05-1813, n.º 1324; revelado por Miguel Ángel Vallecillo Teodoro,
"Olivenza en
su História", Olivença, 1999 ).
Mas, porque eram muitos os oliventinos que queriam que os seus filhos
fossem educados na
língua materna, continuaram a existir professores particulares para o
fazer. O
"Ayuntamiento" não hesitou, e proibiram-se "as aulas particulares, sob pena
de multa de
20 Ducados", em 1820 ( A.M.O. leg/Carp 8/1-171, 7-10-1820, n.º 1704;
revelado, também,
por Miguel Ángel Vallecillo Teodoro, "Olivenza en su História", Olivença,
1999 ).
A população oliventina mantinha as velhas tradições, a vários níveis,
procurando agir
como se nada tivesse mudado. Mas tal foi sendo cada vez mais difícil, e
muita gente foi
emigrando, principalmente para as povoações portuguesas mais próximas.
Em 1840, trinta e nove anos após a ocupação espanhola ( recorde-se:
efectuada em 1801 ),
o Português foi proibido em Olivença, inclusivamente nas Igrejas. O combate
contra a
Língua de Camões já vinha de trás, todavia.

Algumas elites forma aceitando o castelhano. O Português foi-se mantendo,
teimosamente,
principalmente a nível popular. Numa deliciosa toada alentejana, que logo
as
autoridades,
vigilantes, classificaram como "chaporreo", palavra de difícil tradução
(talvez
"patois"; talvez "deturpação"), que criou complexos de inferioridade nos
utilizadores,
levando-os, cada vez mais, a usar a Língua Tradicional apenas a nível
caseiro, dentro do
aconchego do lar, em público, quase só por distracção, ou com amigos
próximos.
O hábito e o amor-próprio levavam o oliventino a, quase constantemente,
"saltar" do
castelhano para o português. De tal forma que, depois de duzentos anos de
pressão, ele é
entendido e falado por cerca de, pelo menos 35% da população, segundo
cálculos da União
Europeia (Programa Mosaic).
Como sucede, contudo, neste casos, em qualquer ponto do Globo, o Português
foi perdendo
prestígio. Não sendo utilizado nunca em documentos oficiais, na toponímia
(salvo se
traduzido e deturpado), ou em qualquer outra situação que reflectisse a
dignidade de um
idioma, manteve-se, discretamente, por vezes envergonhadamente. A Televisão
e a Rádio
vieram aumentar a pressão sobre o seu uso e compreensão.
A Ditadura Franquista acentuou a castelhanização. Agora oficialmente, o
Português era
uma Língua de quem não tinha... educação! Uma Língua de Brutos, ou, como
também se
dizia,
uma Língua Bárbara!
Não obstante, ela sobreviveu. Mesmo nas ruas, surgia e ressurgia, a cada
passo...raramente na presença da autoridades. Mesmo algumas elites
continuavam a
conhecê-la, embora numa fracção minoritária.
Não resisto a citar exemplos da tradição popular oliventina, dominada pela
terminologia alentejana:

Na Vila de Olivença
não se pode namorar!
As velhas saem ao Sol
e põem-se a criticar!

Ó minha mãe, minha mãe,
"companhêra" de "mê" pai,
eu "tamêm" sou "companhêra"
daquele cravo que ali vai!

Eu tenho uma silva em casa
que me chega à "cantarêra"
busque "mê" pai quem o sirva
que eu "nã" tenho quem me "quêra"!

Olha bem para o "mê" "pêto"
onde está o coração
vê lá se disto há "dirêto"
diz-me agora: sim ou não !

"Azêtona" pequenina
também vai ao lagar;
eu também sou pequenina
mas sou firme no amar.

Saudades, tenho saudades,
saudade das "fêticêras".
Lembrança das amizades
da terra das "olivêras".

Se eu tivesse não pedia
coisa nenhuma a "nênguém"
mas, como "nã" tenho, peço
uma filha a quem a tem.

Adeus, Largo do Calvário
por cima, por baixo não.
Por cima vão os meus olhos
por baixo, meu coração.

Textos destes poderiam multiplicar-se. Ainda, entre os idosos, há quem
conheça estas
quadras. Mas entre os jovens, poucos as conhecem. Como é possível que não
se ensine
Português aos oliventinos... começando por quadras como estas ? Começando
por ouvir
idosos declamarem-nas ?
Há alguém, em Olivença, que é um exemplo. Trata-se de uma Senhora, que
não admite
que
ponham em causa o seu amor a uma Olivença espanhola. Todavia, e para honra
e Espanha,
esta incansável senhora, Rita Asensio Rodríguez, tem dedicado a sua vida a
escrever
livros e mais livros, onde descreve os velhos costumes oliventinos, e, o
que mais nos
interessa aqui, a sua maneira de falar. Muitas vezes ela opina que se trata
de formas
únicas no mundo, pois desconhece o "alentejano". Todavia, ela faz recolha
após recolha,
e
é ela que mais sabe, hoje em dia, sobre a fala popular oliventina. O seu
último trabalho
("Apuntes para una História Popular de Olivenza", 2007), para além de
descrever inúmeras
tradições populares, algumas já desaparecidas, tem no fim uma espécie de
"pequeno
dicionário" de oliventino-espanhol.
Citar alguns exemplos é a melhor forma de justificar o tema da minha
comunicação.
Começo por termos que não foram alterados, e que são comuns ao Português
-Padrão:
Alcofa; Atrapalhado; Abóbora; Agriões; Alfazema; Bacorinho; Brincos; Bicas;
Bazófia;
Costas; Carocha; Chapéu; Coentro; Calças; Coelho; Courela; Espalhafato;
Escaravelho;
Esquecer; Ferro (de engomar); Fornalha; Grãos; Gargalo; Garfo; Ervilhas;
Lenço; Maluco;
Melão; Minhocas; Osga; Pousio; Picha; Pintassilgo; Peúgas; Poleiro; Panela;
Rola;
Roseira; Ranho; Saudade; Salsa; Turra; Tacões; Ventas (nariz); Vespa.
Sigo com termos alentejanos,ou que considerei como tais para melhor
explicar,na sua
forma
original, na sua forma actual usada em Olivença, e traduzidos, se
necessário:
Azevia/Açubia(-); Alguidári; Alface/Alfaça; Azêtona; Arrecadas/Arcadas
(grandes
brincos);
Andorinha/Andrurinha; Alarvices; Paleio/Apaleo; Asnêras; Amanhado
(arranjado,
preparado);
Alicati; Alentar/Alantar (crescer); Aventar (deitar fora, derrubar);
Vasculho/Basculho
(vassoura); Melancia/B´lancia; Barbulha (borbulha); Brócolos/Broquis;
Bebedêra/Bebedela;
Biquêra; Badana (mulher velha); Baldi; Bandalho (mal vestido);
Barranhola/Barranhali
(Banheira); Púcaro/Búcaro; Boleta (Bolota); Caliche (Caliça); Cuitadinho;
Descarada/Cascarada (!); Corremaça (correria); Cueiros/Culêros; Chico
(Francisco);
Descasqueado (Limpo); Dôtorice (jactância); Embatucado (sem palavras);
Escandalêra;
Engadanhado (impedido de usar os dedos por causa do frio); Empolêrar-se;
Esturricar;
Escancarar(abrir totalmente); Ajoelhar-se/Esvoelhar-se; Escavacada/Escavada
(!);
Entrudo;
Enciêradas (gretadas de frio); Janela/Esnela; Centopeia/Entopeia; Falhupas
(chiapas de
lume); Esfregão/Fregón; Fartadela; Feij
ão-frade/Fradinho; Fanhoso; Fedorento/Fudurento; Fêtecêra; Farinhêra mole;
Ferrugento/Furrugento; Fatêxa; Garganêro (açambarcador, egoísta); Galiquêra
ou Caliquêra
(doença venérea); Libória (tonta); Lençoli/Lançoli; Leque/Lecre;
Mangação/Mangaçón
(troça); Melhoras (Boas melhoras); Monte/Monti (Herdade);
Mexeriquêra/Mixiriquêra;
Mascarra (Sujidade, Amorenado); Mondar (actividade agrícola); Nódoas/Nodas;
Pantanêro/Patamêro (lama); Cair de Pantanas (cair de costas);
Pelintra/Pilintra;
Passarola/Passarinha/Passarilha (Púbis e vulva); Piali (Poial);
Reboliço/Raboliço;
Remela/Ramela; Repesa (arrependida); Ralhar/Rayari; Rabujento/Rabulhento;
Ceroulas/Cirôlas; Chocalhos/Sacayos; Surrelfa; Saboria (Sensaboria);
Cenoura/Cinôra;
Sabola (Cebola); Tanjarina; Devagarinho/Vagarito; Velhici; Varais dos
òculos/Varales dos
ócalus; Sarrabulho (confusão, desorganização)
Lamento ter-me alongado, mas talvez assim tenha transmitido algo de
concreto que de
outra
forma não seria possível. Ouviram falar "alentejano", ou oliventino... como
queiram; e
esta senhora, Rita Asencio Rodríguez, tem mais três ou quatro livros mais
antigos
publicados dede há trinta anos.
Como se pode deixar perder tudo isto? A História não nos perdoaria.
Entretanto... e retomando a História...nas décadas de 1940, 1950, e 1960,
era
raríssimo, mesmo impossível em alguns casos,
encontrar professores, polícias, funcionários em geral, que fossem filhos
da terra
oliventina, na própria Olivença. Colonizadores inconscientes, peões numa
política geral
de destruição das diferenças por toda a Espanha.
Se há ironias na História, esta pode ser uma delas. Alguns desses cidadãos
"importados",
com muito menos complexos que os naturais porque não tinham, quaisquer
conflitos de
identidade, ou os seus filhos, puseram-se a estudar os aspectos "curiosos",
"específicos", da cultura oliventina! "Oliventinizados", por vezes até,
ainda que
ligeiramente, em termos linguísticos, acabaram por produzir trabalhos de
valor sobre a
cultura da sua Nova terra, que podem chamar para sempre, e sem
contestações, de Terra
Mãe, por adopção, por paixão, ou já por nascimento.
A Democracia veio abrir novas perspectivas, ainda que os fantasmas não
desaparecessem
de todo. Alguns cursos de Português foram surgindo, com maior ou menor
sucesso. Por
vezes
ao sabor de questões políticas, como durante a Década de 1990 por causa dos
avanços e
recuos no atribulado processo que levou à construção de uma nova Ponte da
Ajuda o
Guadiana, entre Elvas e Olivença.
A situação do Português em Olivença foi alvo de vários estudos, com
destaque para
dois:Maria de Fátima Resende
Matias, "A AGONIA DO PORTUGUÊS EM OLIVENÇA", 2001 ,Revista de Filologia
Românica, vol.
18, 201, e Manuel Jesus Sánchez Fernàndez, "PORTUGUÊS DE ESPANHA. EXEMPLO:
O DE
OLIVENÇA", 2004 . O Português estava, e está, em risco. Está "em agonia",
diz um dos
estudos.
É verdade que, em 1999/2000 a Embaixada de Portugal em Madrid, e o
Instituto
Camões, passaram a apoiar o apoiar o ensino do português no Ensino Primário
em todas as
Escolas de Olivença. Incluindo as Aldeias. Apenas Táliga, antiga aldeia de
Olivença
transformada no Século XIX em município independente, está ainda de fora
deste projecto,
para o qual foram destacados, primeiro três, depois quatro professores
portugueses.
Diga-se ser urgente acudir a Táliga, onde só 10% da população ainda tem
algo a ver com a
Língua de Camões. Urgentíssimo!
Está dado um primeiro e importante passo. O Estado Português deverá
tentar
influenciar
a tomada de outras medidas, dada até a sua posição sobre o Direito de
Soberania sobre
Olivença: o ensino da História (que não é feito em parte nenhuma em
Olivença), por
exemplo: a utilização prática da Língua, em documentos oficiais, toponímia,
etc.; a
continuação do Estudo do Português até níveis de ensino mais avançados; e
tantas coisas
mais que se poderiam referir.
E, já agora, deixe-se continuar o Ensino do Português no Secundário, como
sucede em Badajoz e noutros locais, e faça-se um estudo do
Português-Alentejano falado
em
Olivença, e ligue-se o mesmo ao Português-Padrão ensinado nas Escolas, de
modo a fazer a
ligação entre as gerações e produzir uma normal continuidade que deveria
naturalmente
ter
ocorrido. Assim se corrigirá a distorção introduzida pela pressão do
Castelhano.
O ano de 2008 assistiu a dois avanços notáveis no que toca à lusofonia de
Olivença (e
Táliga). Em Março, mas só conhecida em Abril, surgiu a Associação
"Além-Guadiana",
associação
sem fins lucrativos que nasceu com o objectivo de fomentar a cultura
portuguesa em Olivença. Em comunicado, a associação explicou que a
iniciativa partiu de
um
conjunto de oliventinos consciente da grande riqueza do património da
sua terra. Citando, «"A cidade das duas culturas, como habitualmente é
definida
Olivença, constitui um exemplo único na península Ibérica pela sua
história (partilhada entre Portugal e Espanha) e um lugar onde
convivem e se mesclam com naturalidade elementos de ambas culturas"».
O âmbito de actuação da associação são os concelhos de Olivença (que
inclui as aldeias de São Jorge da Lor, São Bento da Contenda, Vila
Real, São Domingos de Gusmão, São Rafael e São Francisco) e Táliga.
Portugueses até 1801, constituíram o último território a ser
incorporado em Espanha. Citando de novo, «Os dois séculos significaram uma
contínua
contribuição cultural hispana sobre o substrato luso, dando lugar a
uma riquíssima cultura de síntese que aflora nas suas ruas e gentes.»
A Associação Além Guadiana considera, todavia, e voltando a citar, «que
muitos
componentes da cultura
portuguesa se estão a perder, como no caso da língua, maioritária até
os anos cinquenta e hoje em risco de desaparecer. Segundo os sócios, a
cultura portuguesa em Olivença constitui um tesoiro que urge conservar.
A denominação Além Guadiana expressa um olhar mútuo dos dois lados do
rio, com a cultura como nexo comum».
A associação criou um espaço
virtual no endereço seguinte: http://alemguadiana.blogs.sapo.pt.. E, mais
tarde, deu
mais
um passo em frente,
ao publicar a sua
página web oficial, disponível na rede, no endereço
www.alemguadiana.com., desde 27 de Setembro de 2008.
Segundo os seus associados, «este espaço virtual
pretende ser um espaço de apresentação, bem como um veículo de difusão
das suas actividades».
Como se o que atrás se expõe não bastasse, em 11 de Dezembro do mesmo ano
de 2008, O
Conselho da Europa,
reunido em Estrasburgo, através do seu Comité de "Especialistas", referiu,
e pela
primeira vez, a situação da Língua Portuguesa em Olivença e Táliga. O
Comité começa por
declarar que recebeu,principalmente, por parte da Associação (oliventina)
Além-Guadiana,
informações pouco satisfatórias sobre a situação actual do Português na
região. Acentua
ser do seu conhecimento ser a Língua Lusa o idioma da região desde o Século
XIII, e que
não lhe
parece correcto que o Português seja ensinado no território dos dois
Concelhos, no que

pode ser interpretado como um apelo, no mínimo, a uma situação de
co-oficialidade das
línguas castelhana e portuguesa.
A situação parece, pois, bem promissora.
É com alguma espectativa que se aguardam reacções de alguns intelectuais,
órgãos de
informação, e, por que não, entidades estatais portugueses, perante esta
chamada de
atenção (digamos assim) para este problema que respeita a toda a Lusofonia
(tão
defendida
em diacursos oficiais e politicamente correctos), provinda de uma
Instituição europeia e
supra-estatatal. O silêncio, se possível, nunca será desculpável...
Carlos Eduardo da Cruz Luna
Estremoz, 04 de Janeiro de 2009

----------------------------

A JORNADA DO PORTUGUÊS DE OLIVENÇA DO DIA 28 DE
FEVEREIRO DE 2009, UM ESTRONDOSO ÊXITO,

O dia amanheceu sem nuvens significativas. O Sol pareceu querer
saudar o evento. E não
era para menos!
Neste dia 28 de Fevereiro de 2009, e pela primeira vez desde 1801,
a Língua Portuguesa
manifestava-se livremente em Olivença. Mais do que isso, com a "cobertura"
das
autoridades espanholas máximas a nível local e regional. E, talvez
ainda (!) mais
importante do que tudo isso, graças à iniciativa, ao esforço, à
coragem de uma associação
oliventina, a Além-Guadiana.
Não por acaso, jornais e televisões estavam representados. E
talvez por acaso, pois
outra razão seria insustentável, não estavam órgãos de comunicação
portugueses,
empenhados com outras realidades informativas. De facto, decorria o
Congresso do Partido
do Governo em Lisboa.
A Jornada do Português Oliventino decorreu na Capela do vetusto
Convento português de
São João de Deus. Num clima de alguma emoção. Estava-se a fazer
História... e quase 200
pessoas foram testemunhas disso, entre as quais o arqueólogo Cláudio
Torres, o "herói" do
mirandês Amadeu Ferreira, e... bem... fiquemos por aqui!
Falou primeiro o Presidente da Junta da Extremadura espanhola,
Guillermo Fernández
Vara. Curiosamente, um oliventino. Foi comovente ouvi-lo confessar
que, na sua casa
paterna, o Português era a língua dos afectos. Uma herança que ele
ainda conserva, apesar
de já ser bem crescidinho... e Presidente duma região espanhola.
De certa forma, estava dado o mote. O Presidente da Câmara de
Olivença, Manuel Cayado,
falou em seguida, realçando o amor pela língua portuguesa, e
acentuando o papel de
Olivença como ponto de encontro entre as culturas de Portugal e Espanha.
Joaquín Fuentes Becerra, presidente da Associação, fez então uma
breve intervenção, em
que se destacou a insistência no aspecto cultural da Jornada.
Juan Carrasco González, um conhecido catedrático, falou das
localidades extremenhas,
quase todas fronteiriças, onde se fala português, com destaque para
Olivença, e defendeu
que tal característica se deveria conservar.
Usou depois da palavra Eduardo Ruíz Viéytez, director do Instituto
dos Direitos
Humanos e Consultor do Conselho da Europa, vindo de Navarra, embora
nascido no País
Basco, que defendeu as línguas
minoritárias e explicitou a política do Conselho da Europa em relação
às mesmas. Informou
a assistência sobre o ocorrido com o Português de Olivença. De facto,
o Conselho da
Europa já havia pedido informações ao Estado Espanhol sobre este desde
2005, sem que
Madrid desse resposta. Em 2008, graças à Associação Além-Guadiana,
fora possível conhecer
detalhes, com base nos quais o Conselho fizera recomendações críticas.
Seguiu-se Lígia Freire Borges, do Instituto Camões, que destacou o
papel da Língua
Portuguesa no mundo, com assinalável ênfase e convicção. Tal discurso
foi extremamente
importante, já que, tradicionalmente, em Olivença, se procurava (e
ainda há quem procure)
menorizar o Português face ao "poderio planetário" do espanhol/castelhano.
Uma pequena mesa redonda antecedeu o Almoço. Foi a vez de ouvir a
voz de alguns
oliventinos, em Português, bem alentejano no vocabulário e no sotaque,
em intervenções
comoventes, em que não faltaram críticas e denúncias de situações de
repressão
linguística não muito longe no tempo. Entre eles, Servando Rodríguez Franco,
de São Jorge
de Alôr (Lôr), professor de Português.
À tarde, falaram Domingo Frade Gaspar (pela fala galega, nascido
na raia extremenha) e
José Gargallo Gil (de Valência, a leccionar em Barcelona), ambos
professores universitários, que continuaram a elogiar políticas de
recuperação e
conservação de línguas minoritárias. O segundo fez mesmo o elogio da
existência de
fronteiras e do de seu estatuto de lugar de encontro e de compreensão
de culturas
diferentes, embora não como barreiras intransponíveis.
Seguiu-se Manuela Barros Ferreira, da Universidade de Lisboa, que relatou
a
experiência significativa de recuperação, quase milagrosa, do
Mirandês, a partir de uma
muito pequena comunidade de falantes, convencidos, afinal erradamente,
de que aquela
língua tinha chegado ao
fim. O exemplo foi muito atentamente escutado pelos membros do
Além-Guadiana.
Falou finalmente o Presidente da Câmara Municipal de Barrancos, a
propósito dos
projectos de salvaguardar o dialecto barranquenho e de o levar à
"oficialização".
Queixou-se do estado de abandono em que se sentia o povo de Barrancos
face a Lisboa.
No final, foi projectado um curto filme sobre o Português
oliventino, realizado por
Mila Gritos. Nele surgiam
oliventinos a contar a história de cada um, sempre em Português, explicando
os
preconceitos que rodeavam ainda o uso da Língua de Camões e contando
histórias
pitorescas. A finalizar o "documentário", uma turma de jovens alunos
de uma escola numa
aula de Português
pretendia mostrar para a câmara os caminhos do futuro.
Deu por encerrada a sessão Manuel de Jesus Sanchez Fernandez, da
Associação
Além-Guadiana, que ironizou um bocado com as características
alentejanas do Português de
Olivença, comparando-o com o pseudo superior Português de Lisboa.
A noite já tinha caído quando, e não sem muitos cumprimentos e
alegres trocas de
impressões finais, os assistentes e os promotores da Jornada
abandonaram o local. Com a
convicção de que tinham assistido a algo notável.
Estremoz, 28 de Fevereiro de 2009
Carlos Eduardo da Cruz Luna

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«SE A ESPANHA QUER GIBRALTAR, QUANDO PLANEIA (TENCIONA) DESISTIR DE
(ABANDONAR) OLIVENÇA?
Daniel Hanan// TRADUÇÃO DE CARLOS LUNA
http://blogs.telegraph.co.uk/daniel_hannan/blog/20 09/03/13/if_spain_wants_gibraltar.
..
E se tivesse sido de outra maneira[ao contrário]? E se a Espanha tivesse
tomado [se
tivesse "servido"] um pedaço de território de alguém, forçado a nação
derrotada a cedê-lo
num tratado subsequente, e o mantivesse ligado a si? Comportar-se-ia Madrid
como quer que
a Grã-Bretanha se comporte em relação a Gibraltar?("Ni pensarlo!")
Como é que eu posso estar tão certo disso? Exactamente porque existe um
caso assim. Em
1801, a França e a Espanha, então aliadas, excigiram que Portugal
abandonasse a sua
amizade tradicional com a Inglaterra e fechasse os seus portos aos navios
britânicos. Os
portugueses recusaram firmemente, na sequência do que Bonaparte e os
seus"confederados"
espanhóis marcharam sobre o pequeno reino. Portugal foi vencido, e, pelo
Tratdo de
Badajoz, obrigado a abandonar a cidade de Olivença, na margem esquerda do
Guadiana.
Quando "Boney"(Bonaparte) foi finalmente vencido, as Potências europeias
reuniram-se
no Congresso de Viena de Áustria para estabeldecer um mapa lógico das
fronteiras
europeias. O Tratado daí saído exigiu um regresso à fronteira
hispano-portuguesa (ou, se
se preferir, Luso-espanhola) anterior a 1801. A Espanha, após alguma
hesitação,
finalmente assinou o mesmo em 1817. Mas nada fez para devolver Olivença.
Pelo contrário,
trabalhou arduamente para extripar a cultura portuguesa na região, primeiro
proibindo o
ensini do Português, depois banindo abertamente o uso da língua.
Portugal nunca deixou de reclamar Olivença, apesar de não se ter
movimentado para
forçar esse resultado (a devolução)(ameaçou hipoteticamente com a ideia de
arrebatar
[ocupar] a cidade durante a Guerra Civil de Espanha, mas finalmente recuou).
Embora os
mapas portugueses continuem a mostrar uma fronteira por marcar [por traçar]
em Olivença,
a disputa não tem sido colocada na ordem do dia no contexto das excelentes
relações entre
Lisboa e Madrid.
Agora vamos analisar os paralelismos com Gibraltar. Gibraltar foi cedida à
Grã-Bretanha pelo Tratdo de Utrecht (1713), tal como Olivença foi cedida à
Espanha pelo
Tratado de Badajoz (1801). Em ambos os casos, o país derrotado pode reclamar
com razões
que assinou (qualquer dos tratados) debaixo de coacção, mas é isto que
acontece sempre em
acordos de paz.
A Espanha protesta que algumas das disposições do Tratdo de Utrecht foram
violadas;
que a Grã-Bretanha expandiu a fronteira para além do que fora estipulado
primitivamente;
que implementou uma legiislação de auto-determinação local em Gibraltar que
abertamente é
incompatível com a jurisdição britânica especificada pelo Tratdo; e (ainda
que este
aspecto seja raramente citado) que fracassou por não conseguir evitar a
instalação de
Judeus e Muçulmanos no Rochedo. Com quanta muito mais força pode Portugal
argumentar que
o Tratado de Badajoz foi "extinto". Foi anulado em 1807 quando, em violação
do que nele
se estipulava, as tropas francesas e espanholas marcharam por Portugal
adentro na Guerra
Peninsular. Alguns anos mais tarde, foi "suplantado"(ultrapassado) pelo
Tratado de Viena.
Certamante, a Espanha pode razoavelmente objectar que, apesar dos pequenos
detalhes
legais, a população de Olivença é leal à Coroa Espanhola. Ainda que o
problema nunca
tenha passado pelo "teste" de um referendo, parece com certeza que a maioria
doa
residenteas se sentem felizes como estão. A língua portuguesa quase morreu
exceto entre
os mais velhos. A cidade (Olivenza em espanhol) é a sede de um dos mais
importantes
festrivais tauromáquicos da época, atrai raças (de touros?) e "matadores"
muito para além
dos sonhos de qualquer "pueblo" de tamanho similar. A lei portuguesa
significaria o fim
da Tourada de estilo espanhol, e um regresso à iobscuridade provincial
(provinciana).
Tenho a certeza que os meus leitores entendem aonde tudo isto vai levar.
Este "blog"
sempre fez da causa da auto-determinação a sua própria causa. A reclasmação
de direito a
Olivença (e Ceuta e Melilla), por parte de Espanha, assenta no argumento
básico
(rudimentar) de que as populações lá residentes querem ser espanholas. Mas o
mesmo
princípio certamente se aplica a Gibraltar, cujos habitantes, em 2002,
votaram (17 900
votos contra 187 !!!) no sentido de permanecer debaixo de soberania
britânica.
A Grã-Bretanha, a propósito, tem todo o direito a estabelecer conexões
entre os dois
litígios (Olivença e Gibraltar). A única razão por que os portugueses
perderam Olivença
foi porque honraram os termos da sua aliança connosco (britânicos). Eles são
os nossos
mais antigos e confiáveis aliados, tendo lutado ao nosso lado durante 700
anos - mais
recentemente, com custos terríveis, quando entraram na Primeira Guerra
Mundial por causa
da nossa segunrança. O nosso Tratado de aliança e amizade de 1810
explicitamente
compromete a Grã-Bretamha no sentido de "trabalhar" para a devolução de
Olivença a
Portugal.
A minha verdadeira intenção, todavia, é a de defender que estes problemas
não devem
prejudicar as boas relações entre os "litigiantes" rivais. Enquanto Portugal
não mostra
intenção de renunciar à sua reclamação formal (legal) em relação a Olivença,
aceita que,
enquanto as populações locais quiserem permanecer espanholas, não há forma
de colocar o
tema na ordem do dia. Não será muito de esperar que a Espanha tome um
atitude semelhante
vis-a-vis" Gibraltar.
Uma vez que este texto certamente atrairá alguns comentários algo
excêntricos de
espanhóis, devo clarificar previamente, para que fique registado, que não é
provável que
estes encontrem facilmente um hispanófilo mais convicto de que eu. Eu gosto
de tudo o que
respeita o vosso país: o seu povo, os seus festivais (festas), a sua
cozinha, a sua
música, a sua literatura, a sua "fiesta nacional". Amanhã à noite,
encontrar-me-ão no
"Sadler´s Wells", elevado até um lugar mais nobre e mais sublime pela voz de
Estrlla
Morente. Acreditem em mim, "señores", nada tenho de pessoal contra vós: o
problema é que
não podem pretender defender dois pesos e duas medidas (não se pode ter as
duas:Olivença
e Gibraltar).
-------------------
BIOGRAFIA DO AUTOR
Sou Professor de História, há 32 anos, do Ensino Secundário, quase sempre em
Estremoz,
tenho 51 anos, sou licenciado (em História). A minha família é de Estremoz,
eu próprio só
acidentalmente nasci em Lisboa. Sempre fui um entusiasta de grandes
causas... grandes...
pelo menos na minha perspectiva. Sou um pouco sonhador, mas sigo o princípio
do Poeta
Aleixo: "Que importa perder a vida / na luta contra a traição,/ se a razão,
mesmo
vencida,/não deixa de ser razão". Sou casado e sem razões de queixa, tenho
dois filhos
(uma e um). Tinha eu 14 anos quando comecei a duvidar do Regime em que se
vivia em
Portugal (1970). Contribuí com alguma actividade anti-salazarista/marcelista
para
incomodar o "regime". Corri alguns riscos de prisão, claro. O 25 de Abril
apanhou-me com
18 anos e uma vontade imensa de mudar o Mundo. Militei no M.E.S.. Tirei o
Curso de
História sendo já Professor de História. Continuo a querer mudar o Mundo, e
tenho uma
perspectiva de Esquerda sobre a maioria do
s problemas do mesmo Mundo.
Tenho escrito sobre muitas coisas, normalmente batendo-me por causas que
considero
justas, desde a liberdade para a Birmânia até aos Direitos do Povo Curdo ou
a
independência do Sahará Ocidental, desde a ecologia aaté ao desenvolvimento
SUSTENTADO de
Portugal... e que não seja feito CONTRA ninguém. Não gosto do pessimismo em
que vivemos,
não porque ele por vezes não tenha razão para existir, mas porque acredito
que só NÓS,
Portugueses, nos podemos mudar a nós próprios. Daí que, embora goste da
Literatura de
Saramago, considero um disparate as suas idéias sobre a integração de
Portugal em Espanha
( ou em qualquer outro País ), embora não seja contra a ideia de a
Humanidade se federar
TODA e de até surgirem uniões de Países, equilibradas, de que Portugal
poderá fazer parte.
Escrevi um livro ("Nos Caminhos de Olivença"), em que, para além da
documentação que
habitualmente acompanha livros sobre este tema, juntei uma descrição
completa (com
fotografias) da Região, que percorri, aldeia a aldeia, "monte"(herdade) a
"monte". Só
consegui fazer edições pequenas, "de autor". Sou regionalista alentejano.
Vou quase
semanalmente a Olivença, onde tenho muitos amigos ( e alguns não-amigos),
onde procuro
continuar a estudar a Região, e apoiar iniciativas visando a recuperação das
antigas
História e Língua. Escrevo sobre tudo e mais alguma coisa. Domino bem o
Inglês, o
Francês, o Castelhano (com algumas limitações), o alemão (com MUITAS
limitações), o
italiano (com limitações maiores ainda). Percebo algo de Catalão. Mas... o
que domino
melhor é o Português, em especial a variante alentejana. Enfim, vou muito a
Congressos e
Colóquios, como interveniente. Até faço poesia, às vezes. Adoro animais...
Assim de repente, eis o que lhe posso dizer
 
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