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Beladona
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Local: Algarve
Mensagem Enviada: Sex Fev 01, 2019 21:14     Assunto : O Regic√≠dio do Rei D. Carlos e do Pr√≠ncipe Real D. Lu√≠s Filipe Responder com Citação
 
O Regic√≠dio de 1 de Fevereiro de 1908, ocorrido na Pra√ßa do Com√©rcio (na √©poca mais conhecida por Terreiro do Pa√ßo) em Lisboa, marcou profundamente a Hist√≥ria de Portugal, uma vez que dele resultou a morte do rei D. Carlos e do seu filho e herdeiro, o Pr√≠ncipe Real D. Lu√≠s Filipe de Bragan√ßa, marcando o fim da √ļltima tentativa s√©ria de reforma da Monarquia Constitucional e consequentemente, uma nova escalada de viol√™ncia na vida p√ļblica do Pa√≠s.

in diversas fontes da net.

O atentado foi uma consequ√™ncia do clima de crescente tens√£o que perturbava o cen√°rio pol√≠tico portugu√™s. Dois factores foram primordiais: em primeiro lugar o caminho desde cedo tra√ßado pelo Partido Republicano Portugu√™s como solu√ß√£o para a eros√£o do sistema partid√°rio vigente e em segundo lugar, a tentativa por parte do rei D. Carlos como √°rbitro do sistema pol√≠tico, de solucionar os problemas desse mesmo sistema, apoiando o Partido Regenerador Liberal de Jo√£o Franco que viria a instaurar uma ditadura. Desde a sua funda√ß√£o que o objectivo prim√°rio do Partido Republicano Portugu√™s era o da substitui√ß√£o do regime. Esta atitude teve a sua quota parte de responsabilidade no despoletar deste acontecimento mas, os √Ęnimos foram definitivamente acirrados pelo estabelecimento de uma ditadura por parte de Jo√£o Franco com o total apoio do rei e respectiva suspens√£o da Carta Constitucional, em 1907.

O progressivo desgaste do sistema pol√≠tico portugu√™s vigente desde a Regenera√ß√£o, em parte devido √† eros√£o pol√≠tica originada pela altern√Ęncia de dois partidos no Poder: o Progressista e o Regenerador, agravou-se nos primeiros anos do S√©culo XX com o surgimento de novos partidos sa√≠dos directamente daqueles. Em 1901 Jo√£o Franco, apoiado por 25 deputados abandonou o Partido Regenerador, criando o Partido Regenerador Liberal. Em 1905 surge o da Dissid√™ncia Progressista, fundado por Jos√© Maria de Alpoim, que entrou em ruptura com o partido Progressista do qual se separou com mais seis deputados eleitos pelo mesmo partido. √Ä intensa rivalidade entre os partidos agravada por √≥dios pessoais, juntou-se a atitude e ac√ß√Ķes cr√≠ticas do Partido Republicano, contribuindo para o descr√©dito do regime j√° de si bastante desacreditado devido √†s dividas da Casa Real.

Era esta a conjuntura quando D. Carlos se decidiu finalmente, a ter uma intervenção activa no jogo político, escolhendo a personalidade de João Franco para a concretização do sempre falhado programa de vida nova. Este, dissidente do Partido Regenerador, solicitou ao Rei o encerramento do Parlamento para poder implementar uma série de medidas com vista à moralização da vida política. Tal pedido já havia sido antes feito ao monarca pelos líderes dos dois partidos tradicionais, mas este sempre recusara atendendo ao princípio que o rei reina mas não governa. Agora no entanto, D. Carlos achou chegado o momento de intervir, depositando a sua confiança no homem que julgava à altura e encerrou o parlamento.

√Č evidente que o novo governo n√£o podia ser bem recebido pelos que dele n√£o beneficiariam pelo que se acirrou toda a oposi√ß√£o desde os partidos mon√°rquicos aos republicanos. Estes, aos quais um renovar do sistema politico mon√°rquico retiraria protagonismo ou mesmo raz√£o de ser, v√£o assumir uma atitude maquiav√©lica: Como ent√£o dizia Brito Camacho relativamente a Jo√£o Franco, "havemos de obrig√°-lo a transig√™ncias que rebaixam ou √†s viol√™ncias que comprometem". Foram eficazes os ataques pessoais, tanto a D. Carlos como a Jo√£o Franco, tanto da parte daqueles, como dos dissidentes progressistas com os quais se entenderam. V√£o aproveitar a quest√£o dos adiantamentos logo em Novembro de 1906, visando principalmente um ataque √† figura do monarca. Mobilizam-se particularmente com a quest√£o da greve acad√©mica de 1907. O regic√≠dio foi uma mera consequ√™ncia indirecta dessa estrat√©gia.

J√° marcadas novas elei√ß√Ķes, e prevendo-se um resultado favor√°vel ao partido no poder como era costume, decidiram-se os republicanos e os dissidentes pela for√ßa, estes apoiaram indirecta ou directamente organiza√ß√Ķes secretas como a Carbon√°ria ou a Ma√ßonaria. Esta tentativa de golpe de estado fracassa, devido √† inconfid√™ncia de um conspirador. A 28 de Janeiro de 1908 s√£o presos v√°rios l√≠deres republicanos, naquele que ficou conhecido como o Golpe do Elevador da Biblioteca. Afonso Costa e Francisco Correia de Her√©dia, o Visconde de Ribeira Brava, s√£o apanhados de armas na m√£o no dito elevador conjuntamente com outros conspiradores, quando tentavam chegar √† C√Ęmara Municipal.

Ant√≥nio Jos√© de Almeida, o dirigente Carbon√°rio Luz Almeida, o jornalista Jo√£o Chagas, Jo√£o Pinto dos Santos, e √Ālvaro Poppe contavam-se entre os noventa e tr√™s conspiradores presos. Jos√© Maria de Alpoim consegue fugir para Espanha. Alguns grupos de civis armados desconhecedores do falhan√ßo, ainda fizeram tumultos pela cidade.

Em resposta a este golpe, e como reflexo de um endurecer de postura por parte do regime at√© a√≠ dominado por um fair play que permitia aos republicanos interven√ß√Ķes livres, o governo apresenta ao rei o Decreto de 30 de Janeiro de 1908. Este previa o ex√≠lio para o estrangeiro ou a expuls√£o para as col√≥nias sem julgamento, de indiv√≠duos que fossem pronunciados em tribunal por atentado h√° ordem p√ļblica e tem sido durante muito tempo considerado como a principal causa para o regic√≠dio. Conta-se que ao assin√°-lo o rei declarou: ‚ÄĚAssino a minha senten√ßa de morte, mas os senhores assim o quiseram.‚ÄĚ √Č de notar no entanto, que o decreto assinado a 30 de Janeiro, s√≥ foi publicado a 1 de Fevereiro, e os preparativos para o atentado datam com certeza de antes dessa data: atente-se ao testamento feito pelo regicida Bu√≠√ßa, datado de 28 de Janeiro.

O Rei, a Rainha e o Príncipe Real encontravam-se então em Vila Viçosa no Alentejo, onde costumavam passar uma temporada de caça no Inverno. O infante D. Manuel havia regressado dias antes por causa dos seus estudos como aspirante na marinha. Os acontecimentos acima descritos levaram D. Carlos a antecipar o regresso a Lisboa, tomando o comboio, na estação de Vila Viçosa, na manhã do dia 1 de Fevereiro.

Com cuidado para que a sua já preocupada mãe não se aperceba, o Príncipe real arma-se com o seu revólver de oficial do exército. Durante o caminho o comboio sofre um ligeiro descarrilamento junto ao nó ferroviário de Casa Branca. Isto provocou um atraso de quase uma hora. A comitiva régia chegou ao Barreiro ao final da tarde, onde tomou o vapor "D. Luís", com destino ao Terreiro do Paço, em Lisboa, onde desembarcaram na Estação Fluvial Sul e Sueste, por volta das 5 horas da tarde, onde eram esperados por vários membros do governo incluindo João Franco, além dos infantes D. Manuel e D. Afonso o irmão do rei. Apesar do clima de grande tensão, o monarca optou por seguir em carruagem aberta, envergando o uniforme de Generalíssimo para demonstrar normalidade. A escolta resumia-se aos batedores protocolares e a um oficial a cavalo, Francisco Figueira Freire, ao lado da carruagem do rei.

H√° pouca gente no Terreiro do Pa√ßo. Quando a carruagem circulava junto ao lado ocidental da pra√ßa ouve-se um tiro e desencadeia-se o tiroteio. Um homem de barbas, passada a carruagem, dirige-se para o meio da rua, leva √† cara a carabina que tinha escondida sob a sua capa, p√Ķe o joelho no ch√£o e faz pontaria. O tiro atravessou o pesco√ßo do Rei, matando-o imediatamente. Come√ßa a fuzilaria: outros atiradores, em diversos pontos da pra√ßa atiram sobre a carruagem, que fica crivada de balas.

Os populares desatam a correr em p√Ęnico. O condutor, Bento Caparica √© atingido numa m√£o. Com uma precis√£o e um sangue frio mortais, o primeiro atirador, mais tarde identificado como Manuel Bu√≠√ßa, professor prim√°rio expulso do Ex√©rcito, volta a disparar. O seu segundo tiro vara o ombro do rei, cujo corpo descai para a direita, ficando de costas para o lado esquerdo da carruagem. Aproveitando isto, surge a correr de debaixo das arcadas um segundo regicida, Alfredo Costa, empregado do com√©rcio e editor de obras de esc√Ęndalo, que pondo o p√© sobre o estribo da carruagem se ergue √† altura dos passageiros e dispara sobre o rei j√° tombado.

A rainha j√° de p√©, fustiga-o com a √ļnica arma de que dispunha: um ramo de flores, gritando ‚ÄúInfames! Infames!‚ÄĚ O criminoso volta-se para o pr√≠ncipe D. Lu√≠s Filipe que se levanta e saca do rev√≥lver do bolso do sobretudo, mas √© atingido no peito. A bala, de pequeno calibre, n√£o penetra o esterno (segundo outros relatos atravessa-lhe um pulm√£o, mas n√£o era uma ferida mortal) e o Pr√≠ncipe sem hesitar, aproveitando porventura a distrac√ß√£o fornecida pela actua√ß√£o inesperada da rainha sua m√£e, desfecha quatro tiros r√°pidos sobre o atacante, que tomba da carruagem. Mas ao levantar-se D. Lu√≠s Filipe fica na linha de tiro e o assassino da carabina atira a matar: uma bala de grosso calibre atinge-o na face esquerda, saindo pela nuca. D. Manuel v√™ o seu irm√£o j√° tombado e tenta estancar-lhe o sangue com um len√ßo, que logo fica ensopado.

A fuzilaria continua. D. Amélia permanece de pé, gritando por ajuda. Buíça volta a fazer pontaria (sobre o infante? sobre a rainha?) mas é impedido de disparar sobre a carruagem pela intervenção de Henrique da Silva Valente, simples soldado de Infantaria 12 que passava no local, e que se lança sobre ele de mãos nuas. Na breve luta que se segue o soldado é atingido numa perna mas a sua intervenção é providencial.

Tendo voltado o seu cavalo, o oficial Francisco Figueira carrega primeiro sobre o Costa, que ferido pelo pr√≠ncipe √© atingido por um golpe de sabre e preso pela pol√≠cia, e de seguida dirige-se a Bu√≠√ßa. Este ainda o consegue atingir numa perna com a sua √ļltima bala e tenta fugir, mas Figueira alcan√ßa-o e imobiliza-o com uma estocada.

Com os regicidas imobilizados, o zelo excessivo dos pol√≠cias presentes levou a que acabassem abatidos no local, o que dificultou as posteriores investiga√ß√Ķes sobre o atentado. Segundo alguns relatos, Alfredo Costa j√° estaria moribundo, mas sabe-se que Manuel Bu√≠√ßa mesmo ferido, resistiu √† sua apreens√£o pela pol√≠cia. Tamb√©m v√≠tima da pol√≠cia foi um transeunte inocente, Sabino Costa, empregado de ourivesaria e mon√°rquico, provavelmente confundido com outro regicida oculto na multid√£o. De facto, o condutor a golpes de chicote, fez arrancar a carruagem, virando a esquina para a rua do Arsenal, procurando a√≠ ref√ļgio. √Č nessa altura que um atirador desconhecido ainda consegue atingir D. Manuel num bra√ßo (segundo outras vers√Ķes, o tiro de rasp√£o atingiu-o ainda antes de a carruagem virar para a rua do Arsenal, mas esse tiro j√° n√£o podia partir dos dois regicidas mencionados, j√° a bra√ßos com a pol√≠cia). A carruagem entra no Arsenal da Marinha, onde se verifica o √≥bito do Rei e o do Herdeiro do Trono. Quando o Infante D. Afonso, que havia come√ßado a correr desde o seu carro no fim do cortejo chegou ao Arsenal, teve como primeiro instinto acusar Jo√£o Franco como respons√°vel pela trag√©dia. A m√£e de D. Carlos, a rainha D. Maria Pia, foi chamada ao Arsenal, onde encontrando-se com D. Am√©lia lhe diz desolada: ‚ÄúMataram-me o meu filho.‚ÄĚ, ao que esta respondeu: ‚ÄúE o meu tamb√©m.‚ÄĚ

Julgando que se tratava de um novo golpe de estado, a população de Lisboa refugia-se nas suas casas e a cidade fica deserta. Mas as tropas permanecem nos quartéis e a situação permanece calma: o atentado não foi um sinal para o golpe que já havia sido frustrado, antes o acto de quem ainda tinha armas na mão, porventura influenciados pela repressão que se previa da parte do governo. À noite as rainhas e o novo rei foram escoltados para o palácio das Necessidades, pois temia-se novo atentado. Depois veio a tarefa macabra de levar os corpos para o palácio, o que foi feito sentando-os em duas carruagens, como se fossem vivos, a cabeça de D. Luís Filipe tombando sobre o ombro do seu tio, o infante D. Afonso de Bragança, Duque do Porto, agora o novo Príncipe Real. Não foram efectuadas autópsias, sendo os corpos embalsamados sob a supervisão do médico da Casa Real, Tomás de Melo Breyner, tarefa penosa não só pela proximidade às vitimas como também pelo estrago feito pelas balas.

Os jornais de todo o mundo publicaram desenhos representativos do atentado, baseadas nas descri√ß√Ķes com elementos mais ou menos fantasiosos, mas sendo sempre presente a imagem de D. Am√©lia de p√© indiferente ao perigo, fustigando os assassinos com um fr√°gil ramo de flores. Em Londres, os jornais exibiam fotos das campas dos regicidas cobertas de flores com a legenda ‚ÄúLisbon‚Äôs shame!‚ÄĚ. √Č preciso n√£o esquecer para al√©m do pr√≥prio car√°cter do acto, que se tratava de uma Europa √† altura maioritariamente mon√°rquica. No entanto, no pr√≥prio pa√≠s a reac√ß√£o n√£o foi a esperada, valendo do rei de Inglaterra Eduardo VII, amigo de D. Carlos e do Pr√≠ncipe D. Luis Filipe a frase: ‚ÄúMatam dois cavaleiros da Ordem da Jarreteira na rua como c√£es e l√° no pa√≠s deles ningu√©m se importa!‚ÄĚ

Ap√≥s o atentado, pediu a demiss√£o o Governo de Jo√£o Franco que n√£o impedira a morte do Rei. De facto, √† imprevid√™ncia do chefe de governo cabe a maior parte das responsabilidades pela falta de uma escolta adequada, ainda mais tendo em conta o contexto de um golpe falhado, quando civis armados ainda andariam pela cidade. Jo√£o Franco sabia-se alvo de atentados planeados, mas nunca desconfiou que o √≥dio visava tamb√©m o rei. Presidindo ao Conselho de Estado na tarde de dia 2, com o bra√ßo ao peito e envergando o seu uniforme de aspirante da marinha, o novo rei D. Manuel II confessou a sua inexperi√™ncia e falta de prepara√ß√£o e pediu orienta√ß√£o ao conselho. Este votou a demiss√£o de Jo√£o Franco e a forma√ß√£o de um governo de coliga√ß√£o a que se chamou o Governo "de Acalma√ß√£o", presidido pelo independente contra-almirante Ferreira do Amaral. Este minist√©rio inclu√≠a membros dos partidos Regenerador e Progressista al√©m de independentes, e visava fazer o pa√≠s voltar √† normalidade parlamentar, acabando-se o governo em ditadura. De facto abandonou-se completamente a posi√ß√£o de for√ßa seguida por D. Carlos e pelo seu √ļltimo minist√©rio: anularam-se as medidas ditatoriais anteriormente publicadas, soltaram-se os presos pol√≠ticos, amnistiaram-se os marinheiros que se haviam revoltado em 1906, e consentiu-se que se fizessem com√≠cios republicanos em que se fazia a apologia do atentado e se considerava os assassinos como benem√©ritos da P√°tria. Outro facto permitido foi a romagem de cerca de vinte e duas mil pessoas √†s sepulturas dos regicidas. O evento fora organizado pela Associa√ß√£o do Registo Civil, que fornecia as flores e dava al√©m de 500 r√©is a cada pessoa, 200 r√©is a cada crian√ßa que aparecesse junto das campas.

Esteve presente na reuni√£o do Conselho de Estado que votou estas decis√Ķes e do qual fazia parte, o Marqu√™s de Soveral, embaixador de Portugal em Inglaterra, e que por acaso se encontrava em Portugal √† altura. Pr√≥ximo da fam√≠lia real, tamb√©m votou pela demiss√£o de Jo√£o Franco e pelo estabelecimento do Governo de Acalma√ß√£o. Quando, pouco tempo depois, reassumiu as suas fun√ß√Ķes de embaixador e se encontrou com o rei da Gr√£-Bretanha Eduardo VII, tamb√©m este seu amigo pessoal, o monarca brit√Ęnico brindou-o com as palavras: ‚ÄúEnt√£o que raio de pa√≠s √© esse em que se mata um rei e um pr√≠ncipe e a primeira coisa que se faz √© demitir o minist√©rio? A revolu√ß√£o triunfou n√£o √© verdade?" ‚ÄĚFoi s√≥ ent√£o", diria mais tarde o marqu√™s de Soveral ‚Äúque compreendi o erro que tinhamos cometido.‚ÄĚ

De facto, ao demitir-se o minist√©rio o regime deu aos republicanos o argumento de que s√≥ eles √© que tinham acabado com a ditadura. Depois da hesita√ß√£o inicial, em que se chegou a propor um pacto de colabora√ß√£o com o regime, cedo voltaram √† carga, decidindo em congresso o derrube pela for√ßa do regime: Congresso de Set√ļbal, 24 a 25 de Abril de 1909. Esta hesita√ß√£o deveu-se aos pr√≥prios conceitos do partido. Aos republicanos mais distintos, alguns dos quais ficaram verdadeiramente chocados pelo crime, o regic√≠dio n√£o interessava a menos que fosse acompanhado pelo triunfar da revolu√ß√£o. Temiam a reac√ß√£o do povo rural mais conservador e, estavam cientes do desagrado da Inglaterra para com qualquer atentado √† pessoa f√≠sica do rei. No entanto, n√£o podiam virar as costas aos seus apoiantes, o povo mi√ļdo da cidade de Lisboa, j√° exacerbado pela propaganda republicana no seu √≥dio ao regime.

Condenavam o acto mas, como se fosse por obriga√ß√£o enquanto piscavam o olho ao povo que lhes enchia os com√≠cios e se filiava no partido. Foi isto, mais o idolatrar dos regicidas e o recurso √† viol√™ncia depois da Proclama√ß√£o da Rep√ļblica, que fez incidir sobre o partido as suspeitas posteriores da autoria do crime. Independentemente da quest√£o de autoria moral, o certo √© que, face √† fraca reac√ß√£o, ou mesmo a falta dela, por parte do regime, os republicanos organizaram-se nos seus prop√≥sitos de o derrubar pela for√ßa, o que viriam a conseguir pela intentona seguinte, a de 5 de Outubro de 1910. √Č de notar que por esta altura, e n√£o tendo nem voltado ao expediente da ditadura, nem evitado as suas costumeiras divis√Ķes, os pol√≠ticos mon√°rquicos j√° haviam percebido o seu erro: como consequ√™ncia deste √ļltimo golpe, o governo deu ao rei para assinar um decreto de suspens√£o de garantias, para poder lidar firmemente com os agitadores. Infelizmente para a monarquia, essa ac√ß√£o foi invalidada pela vit√≥ria republicana no golpe. A Primeira Rep√ļblica, divida entre esquerda e direita, conservadores e progressistas, seculares e religiosos, mostrou-se igualmente ingovern√°vel. Em 1912 Henrique Mitchell de Paiva Couceiro atacou Chaves e em 1919 liderou uma tentativa armada de reinstaurar a Monarquia que ficou conhecida por Monarquia do Norte, ambas derrotadas. Movimentos mon√°rquicos e conservadores, tais como Cruzada Nun'√Ālvares e Integralismo Lusitano, inspirados em Mussolini e na Marcha sobre Roma, participaram no Golpe de 28 de Maio de 1926 que, levou √† implanta√ß√£o de uma ditadura militar, e tamb√©m ajudaram na forma√ß√£o ideol√≥gica do Estado Novo.

Lan√ßou-se um rigoroso inqu√©rito aos acontecimentos, primeiro presidido pelos ju√≠zes Alves Ferreira e depois por Jos√© da Silva Monteiro e dr. Almeida de Azevedo que ao longo dos dois anos seguintes veio a apurar que o atentado, fora cometido por membros da Carbon√°ria, que pretendia enfraquecer a Monarquia. O processo de investiga√ß√£o estava conclu√≠do nas v√©speras do 5 de Outubro, e o come√ßo do processo judicial estava marcado para 25 do mesmo m√™s. Entretanto, tinham sido descobertos mais suspeitos do assassinato como Alberto Costa, Aquilino Ribeiro, Virg√≠lio de S√°, Domingos Fernandes e outros. Alguns dos elementos estavam refugiados no Brasil e em Fran√ßa, e dois pelo menos foram mortos pela Carbon√°ria. Todo este esfor√ßo acabou por ser em v√£o: logo a seguir √† Proclama√ß√£o da Rep√ļblica, o Juiz Almeida e Azevedo entregou o referido processo ao Dr. Jos√© Barbosa, membro do Governo provis√≥rio que o levou a Afonso Costa, Ministro da Justi√ßa do Governo Provis√≥rio, e depois disso perdeu-se o rasto ao documento.

Sabe-se que D. Manuel II no exílio, recebeu uma cópia, facultada por um dos juízes, Almeida de Azevedo, mas essa também desapareceu em consequência de um roubo à sua residência ocorrido pouco tempo antes da sua morte em 1932.

Dos factos conhecidos n√£o se considera geralmente o assass√≠nio do rei como a execu√ß√£o de qualquer decis√£o vinda dos republicanos, dos ma√ßons e da dissid√™ncia progressista, enquanto grupos. O que n√£o quer dizer que os mesmos grupos n√£o tenham a sua quota parte de responsabilidade neste crime. Admitiram como hip√≥tese eventual esta consequ√™ncia e n√£o se importaram que esta se concretizasse. Isto porque se os regicidas actuaram por sua pr√≥pria iniciativa, apenas se encontraram nessa posi√ß√£o pela iniciativa daqueles que os mobilizaram e armaram para outros fins. Certo √© que os dois abatidos no local n√£o eram nem os √ļnicos a√≠ presentes, nem os √ļnicos implicados, como se fez crer na altura. Estudos recentes vieram trazer luz sobre os respons√°veis e a sua motiva√ß√£o, embora muito ainda esteja envolto em d√ļvida. Quatro autores s√£o a base principal sobre os factos que se apuraram: Raul Brand√£o, Ant√≥nio de Albuquerque, Aquilino Ribeiro e Jos√© Maria Nunes. Destes, os dois primeiros n√£o estavam envolvidos no atentado, tendo recolhido depoimentos de terceiros. Raul Brand√£o falou com v√°rias pessoas pr√≥ximas √† trama, e extraiu do l√≠der dos dissidentes, Jos√© Maria Alpoim, a confiss√£o: ‚ÄúS√≥ h√° duas pessoas em Portugal que sabem tudo, eu e outra(...) S√≥ eu e outro sabemos em que casa foi a reuni√£o, quem a presidiu e quem trocou ao Bu√≠√ßa o rev√≥lver pela carabina.‚ÄĚ Ant√≥nio de Albuquerque, que estava exilado em Espanha ap√≥s a publica√ß√£o do seu romance difamat√≥rio para a fam√≠lia real "O Marqu√™s da Bacalhoa", recebeu o testemunho de Fabr√≠cio de Lemos, um dos regicidas presentes no Terreiro do Pa√ßo, e transcreveu-o no seu livro "A execu√ß√£o do Rei Carlos". Aquilino Ribeiro, embora n√£o tenha participado directamente, esteve envolvido e conhecia o plano e os assassinos, como deixou testemunho na sua obra "Um escritor confessa-se." Jos√© Maria Nunes era tamb√©m um dos regicidas e deixou o seu testemunho, tendencialmente auto elogioso mas no geral cred√≠vel no escrito: "E para qu√™?"

Destes quatro testemunhos, só Aquilino é que refere o plano de emboscar a família real como tendo sido adoptado na ocasião, derivado do plano de assassinar João Franco, e tomado no local. Do testemunho dos outros pode-se presumir que o plano teve lugar algures em fins de 1907. Nesta altura, José Maria Alpoim associa-se à Carbonária o que leva, consecutiva e complementarmente, a um plano de aquisição de armas, o plano para um levantamento revolucionário, um plano para assassinar o primeiro ministro e outro para assassinar o Rei.

Estes planos, segundo o testemunho de José Maria Nunes, teriam sido abordado pela primeira vez em Paris no Hotel Brébant, no Boulevar Poissóniere, entre 2 políticos portugueses e alguns revolucionários franceses. O regicida não nomeia esses políticos, nem nunca se foi capaz de identificá-los, mas os revolucionários franceses provavelmente pertenceriam ao movimento anarquista internacional, dado que o embaixador português em Paris chegou a avisar que se preparava um plano contra a família real portuguesa vindo desses sectores.

Os Dissidentes foram os principais financiadores, tendo a Carbonária fornecido os homens. Sabe-se que as armas usadas no regicídio foram levantadas do armeiro Gonçalo Heitor Freire (republicano e maçon) pelo Visconde da Ribeira Brava, um dos principais membros dos dissidentes.

Aquando do fracasso da intentona do Elevador da Biblioteca, estas armas, guardadas nos Armazéns Leal, foram com sucesso transportadas para casa do dito visconde, onde ficaram escondidas. No rescaldo do fracasso e reacção do governo, sabe-se que um grupo de 18 homens se reuniu num velho casarão de Xabregas, dia 30 ou 31 (os testemunhos são contraditórios quanto à data precisa) onde se decidiu pelo assassinato da família real.

Pelo depoimento dos dois j√° citados regicidas sabemos a identidade de 8 dos 18 membros. Destes, todos os 8 ou apenas 5 constitu√≠am o primeiro grupo, posicionado no Terreiro do Pa√ßo: Alfredo Costa, Manuel Bu√≠√ßa, Jos√© Maria Nunes, Fabr√≠cio de Lemos, Ximenes, Joaquim Monteiro, Adelino Marques e Domingos Ribeiro. O segundo grupo tomaria posi√ß√£o em Santos e o terceiro em Alc√Ęntara, cobrindo assim todo o caminho at√© ao Pa√ßo das Necessidades. Os atacantes n√£o esperavam sobreviver ao atentado: Manuel Bu√≠√ßa j√° havia feito o seu testamento e Alfredo Costa fez quest√£o de pagar uma d√≠vida a um amigo. Mesmo assim, a maior parte do primeiro grupo conseguiu fugir e esconder-se na multid√£o, e os outros grupos n√£o tiveram qualquer interven√ß√£o.

Pelo conjunto dos relatos pode-se concluir que o plano para matar o rei j√° existia previamente, n√£o de forma independente, mas como parte do plano geral da revolta. No entanto, existe um factor curioso, provocado pelo descarrilamento da carruagem real ocorrido durante a viagem para Lisboa, referido acima. No dia do atentado, pouco depois das 4 da tarde, a 300 Km da capital em P√¨nzio perto da Guarda, dois criados de Jos√© Maria Alpoim, regressando de carro depois de terem transportado o seu patr√£o para e ex√≠lio em Salamanca, ficam sem gasolina e s√£o for√ßados a parar. Numa taberna local, e perante v√°rias testemunhas, afirmam que √†quela hora j√° n√£o havia rei em Portugal, pois j√° tinha sido morto. Como poderiam saber? Tal seria verdade se o comboio n√£o tivesse descarrilado. At√© que ponto estava o plano j√° estruturado antes do golpe do elevador como plano de recurso e at√© que ponto estava Jos√© Maria Alpoim envolvido nisso? Estas quest√Ķes permanecem sem resposta. Embora os dois regicidas ca√≠dos tenham ficado com as maiores responsabilidades na altura, o envolvimento dos dissidentes n√£o ficou esquecido. Mal grado a sua auto-promo√ß√£o depois da implanta√ß√£o da Rep√ļblica, n√£o se conseguiram livrar do efeito negativo que a suspeita de envolvimento no regic√≠dio lhes transmitiu, e que se nota pela alcunha de Bu√≠ssidentes com que foram apodados. Jos√© Maria Alpoim e o visconde da Ribeira Brava n√£o conseguiram singrar no novo regime. O primeiro nunca passou de adjunto do procurador e o ex-visconde foi governador civil de Lisboa mas acabou v√≠tima da "leva da morte" de Outubro de 1918.

Conclus√£o:

Em retrospectiva, o regic√≠dio √© geralmente considerado como o fim efectivo do regime mon√°rquico constitucional, sendo o golpe de 5 de Outubro de 1910 apenas a sua confirma√ß√£o. Esta vis√£o √© exagerada, e possivelmente foi alimentada pelos longos anos do Estado Novo, que era adverso ao parlamentarismo (mon√°rquico ou republicano), que era tachado como decadente e ineficaz. Embora o acto do Regic√≠dio tenha removido de cena um estadista de import√Ęncia que estava em posi√ß√£o de encorajar o revitalizar do regime, e com ele o seu promissor sucessor, a quest√£o n√£o ficou de imediato resolvida. O regime mon√°rquico constitucional continuou a funcionar por mais 33 meses, sofrendo de agita√ß√Ķes e carecendo de reforma, √© certo, mas n√£o mais do que anteriormente, e decerto num grau de agita√ß√£o muito menor do que a pr√≥pria Primeira Republica viria a conhecer. √Č ineg√°vel, no entanto, que a fraca e permissiva atitude do governo de acalma√ß√£o funcionou como um forte incentivo para o Partido Republicano no sentido de tentar outro golpe pela for√ßa. Ainda assim, mais do que decidir, o regic√≠dio adiou a quest√£o para uma nova oportunidade. Esta viria com certeza para o regime, no rescaldo de uma nova intentona republicana falhada, mas como se viu, o golpe seguinte acabou por ser vitorioso, se bem que √† justa. A vis√£o do determinismo do crime, tal como a da inevitabilidade do golpe, pode ser produto da costumeira propaganda retroactiva com que os novos regimes, sobretudo os que se imp√Ķem pela for√ßa, usam para justificar a sua exist√™ncia: os vencedores escrevem a Hist√≥ria.

Pode-se considerar portanto o regic√≠dio de duas maneiras: ou um acontecimento natural no percurso decadente do regime mon√°rquico, que acabaria por cair de qualquer maneira, tendo o atentado apenas apressado a sua conclus√£o, ou como o ponto de viragem que impediu a reforma e sobreviv√™ncia desse regime. Neste √ļltimo caso, o atentado foi, para o Partido Republicano, embora este n√£o tenha sido por ele directamente respons√°vel, um passo decisivo. Pode ter sido eficaz, mas ensanguentou a futura vida da Rep√ļblica, produziu novos magnic√≠dios, e em √ļltima an√°lise abriu a caixa de Pandora da viol√™ncia como arma pol√≠tica que viria a minar e a condenar o novo regime.

 
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antoniomsousa
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Mensagem Enviada: Qua Abr 24, 2019 13:05     Assunto : Responder com Citação
 
Portugal morreu em 5 de outubro de 1910
 
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