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Beladona
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Local: Algarve
Mensagem Enviada: Sáb Mai 11, 2019 20:21     Assunto : Dom Jo√£o VI Responder com Citação
 
Trago hoje o que foi o nosso Rei D. João VI de seu nome completo: João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança).

in diversas fontes da net.

Este Rei nasceu em Lisboa a 13 de Maio de 1767 e morreu também em Lisboa a 10 de Março de 1826, cognominado de O Clemente, foi Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves de 1816 a 1822 de facto, e desde 1822 até 1825, de jure. Desde 1825 foi Rei de Portugal até à sua morte em 1826. Pelo Tratado do Rio de Janeiro de 1825 que reconhecia a independência do Brasil do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, também foi o imperador titular do Brasil embora tenha sido o seu filho D. Pedro o imperador do Brasil de facto.

Um dos √ļltimos representantes do absolutismo, D. Jo√£o viveu num per√≠odo tumultuado e o seu reinado nunca conheceu uma paz duradoura. Ora era a situa√ß√£o portuguesa ou europeia a degenerar, ora era a brasileira. N√£o esperara vir a ser Rei; s√≥ ascendeu √† posi√ß√£o de herdeiro da Coroa pela morte do seu irm√£o mais velho D. Jos√©. Assumiu a reg√™ncia quando a sua m√£e Dona Maria I, foi declarada mentalmente incapaz. Teve de lidar com a constante inger√™ncia nos assuntos do reino de na√ß√Ķes mais poderosas notadamente a Espanha, Fran√ßa e Inglaterra.

Obrigado a fugir de Portugal quando as tropas napoleónicas invadiram o país, chegando à colónia enfrentou revoltas liberais que reflectiam eventos similares na metrópole e foi compelido a retornar à Europa a meio de novos conflitos.

Perdeu o Brasil quando o seu filho D. Pedro I proclamou a independ√™ncia e viu o seu outro filho D. Miguel, rebelar-se buscando dep√ī-lo. Foi finalmente provado h√° pouco tempo que morreu envenenado.

O seu casamento foi da mesma forma acidentado e a esposa Dona Carlota Joaquina, repetidas vezes conspirou contra o marido em favor de interesses pessoais ou de Espanha o seu país natal.

N√£o obstante as atribula√ß√Ķes, deixou uma marca duradoura especialmente no Brasil, criando in√ļmeras institui√ß√Ķes e servi√ßos que sedimentaram a autonomia nacional, sendo considerado por muitos pesquisadores o verdadeiro mentor do moderno Estado brasileiro. Apesar disso, √© at√© hoje um dos personagens mais caricatos da hist√≥ria luso-brasileira, sendo acusado de indol√™ncia, falta de tino pol√≠tico e constante indecis√£o, sem falar da sua pessoa, retratada ami√ļde como grotesca, o que segundo a historiografia mais recente, na maior parte dos casos √© uma imagem injusta.

Em 1785 o seu casamento foi arranjado com a Infanta Dona Carlota Joaquina, filha do futuro Rei D. Carlos IV de Espanha (na √©poca, ainda era o herdeiro do trono) e de Dona Maria Lu√≠sa de Parma. Por raz√Ķes pol√≠ticas, temendo uma nova Uni√£o Ib√©rica, parte da corte portuguesa n√£o via o casamento com uma princesa espanhola com bons olhos. Apesar da sua pouca idade, D. Carlota era considerada uma menina muito vivaz e de educa√ß√£o refinada. N√£o obstante, teve de suportar quatro dias de testes diante dos embaixadores portugueses antes que o casamento se confirmasse. Tamb√©m, sendo parentes e pela pouca idade da infanta, os noivos precisaram de uma dispensa papal para poderem unir-se. Ap√≥s a confirma√ß√£o, a outorga das capitula√ß√Ķes matrimoniais foi assinada na sala do trono da corte espanhola, cercada de grande pompa e com a participa√ß√£o dos grandes de ambos os reinos, seguindo-se imediatamente o esponsal realizado por procura√ß√£o. D. Jo√£o foi representando pelo pr√≥prio pai da noiva. √Ä noite foi oferecido um banquete para mais de dois mil convidados.

A Infanta foi recebida no Paço de Vila Viçosa no início de Maio e a 9 de Junho o casal recebeu as bênçãos nupciais na capela do Paço. O casamento ocorreu ao mesmo tempo que o da sua irmã, Dona Mariana Vitória destinada ao infante D. Gabriel também da casa real espanhola.

A assídua correspondência de D. João com Dona Mariana na época revela que a falta da irmã lhe pesava e comparando-a com a sua jovem esposa dizia: "Ela é muito esperta e tem muito juízo, só o que tem é ser ainda muito pequena e eu gosto muito dela, mas por isso não te deixo de ter amor igual". Por outro lado, o temperamento da menina era pouco dado à docilidade, exigindo por vezes a intervenção da própria rainha Dona Maria. Além disso, ele com dezoito anos e ela com apenas dez, a diferença de idade entre ambos incomodava-o e punha-o em ansiedade. Pela excessiva juventude da esposa, o casamento ainda não se consumara e dizia: "Cá há-de chegar o tempo em que eu hei-de brincar muito com a Infanta. Se for por este andar julgo que nem daqui a seis anos. Bem pouco mais crescida está de quando veio". De facto, a consumação teve de esperar até ao dia 5 de Abril de 1790. Em 1793 nascia Dona Maria Teresa, a primeira dos nove filhos que teriam.

Entretanto a sua vida relativamente pacata sofreu uma reviravolta em 11 de Setembro de 1788, quando seu irmão mais velho, D. José faleceu. Assim D. João passava a ser o herdeiro da Coroa.

Em D. Jos√© o povo depositava grandes esperan√ßas e era tido como um pr√≠ncipe alinhado aos ideais progressistas do iluminismo, mas era criticado pelos religiosos j√° que parecia inclinar-se para a orienta√ß√£o pol√≠tica anticlerical do Marqu√™s de Pombal. Em contrapartida, a imagem de D. Jo√£o enquanto seu irm√£o viveu era oposta. A sua religiosidade era not√≥ria e teria-se mostrado favor√°vel √† pr√°tica do regime absolutista. A crise sucess√≥ria agravou-se quando no ano seguinte, D. Jo√£o ficou gravemente enfermo e temeu-se pela sua vida. Recuperado, em 1791 caiu doente outra vez, "deitando sangue pela boca e pelos intestinos" conforme anota√ß√Ķes deixadas pelo capel√£o do marqu√™s de Marialva, acrescentando que o seu √Ęnimo estava sempre abatido. Formara-se desta forma um clima de tens√£o e incertezas sobre o seu futuro.

Além disso, a Rainha dava crescentes sinais de desequilíbrio mental. A 10 de Fevereiro de 1792 em documento assinado por dezassete médicos, a Rainha foi declarada incapaz de gerir o reino, não havendo previsão de melhoras no seu quadro. D. João mostrou-se relutante em assumir decididamente as rédeas do poder, rejeitando a ideia de uma regência formalizada, abrindo assim caminho para elementos da nobreza formarem uma corrente que pretendia governar de facto o reino através de um Conselho. Circularam rumores de que D. João exibia sintomas da mesma insanidade, especulando-se se ele também se veria impedido de reinar. De acordo com antigas leis que norteavam a instituição regencial, caso o regente viesse a falecer ou a ser impedido por qualquer motivo e tendo filhos menores de quatorze anos - situação em que se encontraria D. João - o governo seria exercido pelos tutores dos infantes ou, se estes não tivessem sido nomeados formalmente, pela esposa do regente - uma espanhola. Complicava-se entre temores, suspeitas e intrigas, todo o quadro institucional da nação.

Ao mesmo tempo, sentiam-se os reflexos da Revolu√ß√£o Francesa, que causaram perplexidade e horror entre as casas reinantes europeias. A execu√ß√£o do Rei franc√™s Lu√≠s XVI a 21 de Janeiro de 1793 pelas for√ßas revolucion√°rias precipitou uma resposta internacional. Assim, a 15 de Julho foi assinada uma conven√ß√£o entre Espanha e Portugal e a 26 de Setembro Portugal aliou-se √† Inglaterra, ambos os tratados visando aux√≠lio m√ļtuo para o combate aos franceses e levando os portugueses no ano seguinte √†s campanhas do Rossilh√£o e da Catalunha (1793-1795) em que o pa√≠s participou com seis mil soldados e que depois de um in√≠cio bem sucedido acabou em fracasso.

Criou-se um delicado problema diplom√°tico em que Portugal n√£o podia selar a paz com a Fran√ßa sem ferir a alian√ßa com a Inglaterra, que envolvia m√ļltiplos interesses, passando assim a buscar uma neutralidade que se revelou fr√°gil e tensa.

Depois da derrota, tendo a Espanha alienado Portugal da Paz de Basil√©ia concertada com a Fran√ßa e sendo a Inglaterra poderosa demais para ser atacada directamente, o alvo da vingan√ßa francesa passou a ser Portugal. Assumindo o poder franc√™s em 1799, no mesmo ano em que D. Jo√£o foi instalado oficialmente como regente do reino (a 14 de Julho), Napole√£o Bonaparte coagiu Espanha a impor um ultimato aos portugueses, que obrigava ao rompimento com a Inglaterra e a submiss√£o do pa√≠s aos interesses franceses. Diante da negativa de D. Jo√£o, a neutralidade tornou-se invi√°vel. Em 1801 Espanha e Fran√ßa invadiram Portugal, epis√≥dio conhecido como a Guerra das Laranjas, onde se perdeu a pra√ßa de Oliven√ßa. Todos os pa√≠ses envolvidos com interesses conflitantes, faziam movimentos amb√≠guos e acordos secretos. A situa√ß√£o tornara-se cr√≠tica para Portugal que tentava manter-se fora das convuls√Ķes. Mas de todas era a parte mais fraca, foi usado como um joguete pelas outras pot√™ncias e acabaria por ser novamente invadido.

Enquanto isso, D. João teve de enfrentar o inimigo dentro de casa. A sua própria esposa fiel aos interesses espanhóis, iniciou intrigas objectivando depor o marido e tomar o poder, tentativa que entretanto acabou abortada em 1805, com o resultado da conspiradora ser exilada da corte, passando a viver no Palácio de Queluz, enquanto o regente passou a residir no Palácio de Mafra.

Em 1807 foram assinados os tratados de Tilsit, entre a Fran√ßa e R√ļssia e de Fontainebleau, entre a Fran√ßa e Espanha, onde se definiu a conquista e partilha de Portugal. O destino do reino estava tra√ßado. D. Jo√£o tentou desesperadamente ganhar tempo e at√© ao √ļltimo momento simulou uma submiss√£o volunt√°ria √† Fran√ßa, chegando a sugerir ao Rei ingl√™s a declara√ß√£o de uma guerra fict√≠cia √† Inglaterra. O Bloqueio Continental decretado por Napole√£o n√£o foi seguido em todos os seus termos e secretamente estabeleceu-se com a Inglaterra novo acordo em que Portugal receberia ajuda para uma eventual fuga da fam√≠lia real. O acordo era sumamente vantajoso para os ingleses, que, preservando de uma deposi√ß√£o certa o governo leg√≠timo, que sempre lhe fora simp√°tico, manteria a sua influ√™ncia sobre o pa√≠s, continuando a tirar grandes lucros no com√©rcio com o imp√©rio transcontinental portugu√™s.

A Portugal cabia escolher entre a obedi√™ncia √† Fran√ßa ou √† Inglaterra, mas o governo dividido entre franc√≥filos e angl√≥filos hesitava, amea√ßando Portugal de uma guerra n√£o apenas contra uma pot√™ncia, mas contra duas. Logo os eventos se precipitaram: Em Outubro de 1807 chegaram informa√ß√Ķes de que um ex√©rcito composto de franceses e espanh√≥is se aproximava, a 1 de Novembro foi conhecido na corte que Napole√£o divulgara uma not√≠cia dizendo que a Casa de Bragan√ßa em dois meses deixaria de reinar e a 6 de Novembro a esquadra inglesa entrou no porto de Lisboa com uma for√ßa de sete mil homens, com ordens de ou escoltar a fam√≠lia real para o Brasil ou, se o governo se rendesse aos franceses, atacar e conquistar a cidade. Depois de angustiada pondera√ß√£o, pressionado por todos os lados, D. Jo√£o decidiu aceitar a protec√ß√£o inglesa e partir para o Brasil.

O exército invasor comandado por Jean-Andoche Junot, iniciara o seu avanço, mas chegou às portas da capital somente a 30 de Novembro de 1807. Tendo enfrentado várias dificuldades no caminho, esta milícia estava alquebrada e faminta, as suas fardas estavam em farrapos e os soldados, na sua maioria novatos inexperientes, mal conseguiam carregar as suas armas. Alan Manchester descreveu-os dizendo que "sem cavalaria, artilharia, cartuchos, sapatos ou comida, cambaleando de fadiga, a tropa mais parecia a evacuação de um hospital do que um exército marchando triunfalmente para a conquista de um reino" e por isso acredita-se que uma resistência poderia ter sido bem sucedida, mas o governo não estava a par da situação do inimigo e de qualquer modo já era tarde para eles.

D. João, acompanhado de toda a família real e grande séquito de nobres, prelados, funcionários do Estado e criados, bem como volumosa bagagem onde se incluía valioso acervo de arte, os arquivos do Estado e o tesouro real já partira, deixando o país sob uma regência conhecida como Conselho de Regência de 1807.

A ideia de uma mudan√ßa da sede da corte para a Am√©rica como acto geopol√≠tico j√° existia em Portugal h√° muito tempo e de facto alguns meses antes j√° haviam sido feitos alguns preparativos para a eventualidade, mas neste momento a fuga teve de ser realizada √†s pressas, debaixo de chuva que deixaram as ruas um lama√ßal e causou enorme tumulto em Lisboa, no meio de uma popula√ß√£o entre at√≥nita e revoltada que n√£o podia acreditar que o seu pr√≠ncipe a abandonava. Na confus√£o foram esquecidas no cais in√ļmeras outras malas e pertences, os caixotes com toda a prataria das igrejas, que foi confiscada e fundida pelos franceses, e o precioso acervo de sessenta mil volumes da Biblioteca Real, que foi salvo e enviado para o Brasil mais tarde No relato de Jos√© Ac√ļrsio das Neves, a partida causou profunda como√ß√£o no pr√≠ncipe regente:

"Queria falar e n√£o podia; queria mover-se e convulso, n√£o acertava a dar um passo; caminhava sobre um abismo e apresentava-se-lhe √† imagina√ß√£o um futuro tenebroso e t√£o incerto como o oceano a que ia entregar-se. P√°tria, capital, reino, vassalos, tudo ia abandonar repentinamente, com poucas esperan√ßas de tornar a p√īr-lhes os olhos e tudo eram espinhos que lhe atravessavam o cora√ß√£o".

Para se explicar ao povo, D. Jo√£o mandara afixar cartazes pelas ruas afirmando que a partida fora inevit√°vel, a despeito de todos os esfor√ßos feitos para assegurar a integridade e a paz do reino; recomendando calma a todos, ordenou que n√£o resistissem aos invasores para que n√£o se derramasse sangue em v√£o. Em virtude da pressa, no mesmo navio em que ia o pr√≠ncipe, seguiram sua m√£e a Rainha e os seus herdeiros D. Pedro I e D. Miguel, uma decis√£o imprudente, dados os perigos de uma viagem transatl√Ęntica naquela √©poca, pondo em risco a sucess√£o da Coroa caso naufragassem, enquanto que Dona Carlota e as Infantas iam em dois outros barcos. O n√ļmero de pessoas embarcadas √© muito controverso; no s√©culo XIX falava-se em at√© 30 mil emigrados; estimativas mais recentes oscilam de quinhentas a quinze mil, mas a esquadra composta por quinze embarca√ß√Ķes, de facto s√≥ podia levar de doze a quinze mil pessoas, estando neste n√ļmero inclu√≠dos os tripulantes. Por√©m, h√° v√°rios relatos a respeito da superlota√ß√£o dos navios. Segundo Pedreira e Costa, levando em conta todas as vari√°veis, √© mais prov√°vel que tenham sido de quatro a sete mil pessoas, excluindo tripulantes. Muitas fam√≠lias foram separadas e mesmo altos dignit√°rios n√£o encontraram uma coloca√ß√£o nos navios ficando para tr√°s. A viagem n√£o foi nada tranquila; logo de in√≠cio enfrentaram uma tormenta que obrigou a um consider√°vel desvio na rota, v√°rios navios estavam em prec√°ria condi√ß√£o, a superlota√ß√£o impunha situa√ß√Ķes humilhantes para a nobreza, a maioria teve de dormir amontoada sob vento e chuva nos tombadilhos; a higiene era p√©ssima, surgindo at√© uma epidemia de piolhos, muitos n√£o haviam conseguido trazer mudas de roupa, v√°rias pessoas adoeceram, os mantimentos e a √°gua eram escassos e foram racionados. O √Ęnimo de todos azedou e iniciaram murmura√ß√Ķes e a frota, atravessando um denso nevoeiro em que se perdeu contacto visual entre os navios e em seguida, sendo fustigada por outra tempestade que danificou seriamente v√°rios barcos, acabou por se dispersar na altura da Ilha da Madeira. Logo depois o pr√≠ncipe mudou os seus planos e por sua ordem o grupo de navios que ainda o acompanhava dirigiu-se para Salvador, provavelmente por uma raz√£o pol√≠tica - agradar aos habitantes da primeira capital da col√≥nia, que j√° haviam dado v√°rios sinais de descontentamento com a perda do antigo status -, enquanto os navios restantes seguiram para o Rio de Janeiro como era o plano original.

A 22 de Janeiro de 1808 o navio que levava o regente mais duas outras naus aportaram na Baía de Todos os Santos no Brasil. Mas em Salvador o cais estava deserto, pois o governador, o Conde da Ponte, preferiu primeiro aguardar as ordens do príncipe para depois permitir que o povo o recepcionasse. Estranhando a atitude, ordenou D. João que todos viessem como quisessem.

Entretanto, para permitir que a nobreza se recompusesse depois de t√£o penosa jornada, o desembarque foi protelado para o dia seguinte, quando foram recebidos festivamente no meio de uma prociss√£o, repicar de sinos e a celebra√ß√£o de um Te Deum na Catedral. Nos dias seguintes o pr√≠ncipe recebeu todos os que o quiseram homenagear, prestando-se ao cerimonial do beija-m√£o e concedendo v√°rias merc√™s. Entre elas, decretou a cria√ß√£o de uma aula p√ļblica de economia e uma escola de cirurgia, mas sobretudo foi decisiva neste primeiro momento a abertura dos portos √†s na√ß√Ķes amigas, uma medida de vasta import√Ęncia pol√≠tica e econ√≥mica e a primeira de muitas que tomaria para melhorar as condi√ß√Ķes da col√≥nia. Entretanto, naturalmente, a Inglaterra, cuja economia dependia em grande parte do com√©rcio mar√≠timo e que agora se convertera numa esp√©cie de tutora do reino, foi directamente beneficiada, obtendo diversos privil√©gios.

Salvador passou um m√™s em comemora√ß√Ķes pela presen√ßa da corte e tentou seduzi-la para transform√°-la na nova sede do reino, oferecendo-se at√© para construir um luxuoso pal√°cio para abrigar a fam√≠lia real, mas D. Jo√£o, lembrando aos locais que anunciara a todas as na√ß√Ķes a sua inten√ß√£o de fixar-se no Rio de Janeiro declinou e prosseguiu viagem. O navio que o levava entrou na Ba√≠a de Guanabara a 7 de Mar√ßo, onde se encontrou com as Infantas e outros membros da comitiva, cujos navios haviam chegado antes. No dia 8 finalmente toda a corte desembarcou, encontrando a cidade engalanada para receb√™-la. Foram nove dias de celebra√ß√Ķes ininterruptas. Um conhecido cronista da √©poca, o padre Perereca, testemunha ocular da chegada, ao mesmo tempo em que lamentava as not√≠cias da invas√£o da metr√≥pole, j√° intu√≠a o que significava a corte em solo brasileiro:

"Se tão grandes eram os motivos de mágoa e aflição, não menores eram as causas de consolo e de prazer: uma nova ordem de coisas ia a principiar nesta parte do hemisfério austral. O império do Brasil já se considerava projectado e ansiosamente suspirávamos pela poderosa mão do príncipe regente nosso senhor para lançar a primeira pedra da futura grandeza, prosperidade e poder do novo império".

Estabelecendo no Brasil a sede da monarquia, o regente aboliu ipso facto o regime de col√≥nia em que o pa√≠s at√© ent√£o vivera. Todos os caracteres de tal regime desaparecem, restando apenas a circunst√Ęncia de continuar √† frente de um governo estranho. S√£o abolidas uma atr√°s da outra, as velhas engrenagens da administra√ß√£o colonial e substitu√≠das por outras j√° de uma na√ß√£o soberana. Caem as restri√ß√Ķes econ√≥micas e passam para um primeiro plano das cogita√ß√Ķes pol√≠ticas do governo os interesses do pa√≠s.

Mas primeiro era preciso acomodar todo o pessoal rec√©m-chegado, um problema dif√≠cil de resolver dadas as acanhadas propor√ß√Ķes da cidade de ent√£o. Principalmente faltavam casas dignas o bastante para satisfazer o alto padr√£o de vida da nobreza, em especial da pr√≥pria fam√≠lia real. Esta foi instalada no Pal√°cio dos Vice-reis, um grande casar√£o, mas sem maior conforto e em nada semelhante aos pal√°cios portugueses. Mesmo grande, n√£o foi suficiente para acomodar todos e foi necess√°rio requisitar os edif√≠cios vizinhos, como o Convento do Carmo, a Casa da C√Ęmara e a cadeia. Para atender aos outros nobres e instalar novas reparti√ß√Ķes p√ļblicas, in√ļmeras resid√™ncias menores foram desapropriadas √†s pressas, despejando-se arbitrariamente os seus propriet√°rios, √†s vezes usando de meios violentos diante de resist√™ncias.

Com o tempo a fisionomia urbana tamb√©m come√ßou a mudar, com a constru√ß√£o de in√ļmeras novas resid√™ncias, palacetes e outras edifica√ß√Ķes e foram implementadas v√°rias melhorias nos servi√ßos e na infraestrutura. Igualmente, a presen√ßa da corte introduziu novos padr√Ķes de etiqueta, novas modas e novos costumes, incluindo uma nova estratifica√ß√£o social.

Entre os ditos costumes, D. Jo√£o VI continuou no Brasil o antigo cerimonial portugu√™s do beija-m√£o pelo qual tinha grande apre√ßo e que entrou para o folclore, exercendo grande fasc√≠nio sobre o povo. Recebia os seus s√ļbditos todos os dias, exceptuando domingos e feriados, que em longas filas, onde se misturavam nobres e plebeus, esperavam para mostrar seu respeito pelo monarca e pedir-lhe merc√™s. Disse o pintor Henry L‚ÄôEv√™que que "o Pr√≠ncipe, acompanhado por um Secret√°rio de Estado, um Camareiro e alguns oficiais de sua Casa, recebe todos os requerimentos que lhe s√£o apresentados; escuta com aten√ß√£o todas as queixas, todos os pedidos dos requerentes; consola uns, anima outros...

Ao longo de sua perman√™ncia no Brasil o Rei formalizaria a cria√ß√£o de um enorme n√ļmero de institui√ß√Ķes e servi√ßos p√ļblicos e fomentaria a economia, a cultura e outras √°reas da vida nacional.

Isso n√£o quer dizer que tudo fossem amenidades e progresso. Houve s√©rias crises pol√≠ticas, que se iniciaram logo depois da sua chegada com a invas√£o da Guiana Francesa em 1809, em repres√°lia √† invas√£o de Portugal e grandes problemas econ√≥micos, a come√ßar com o penoso acordo comercial de 1810 imposto pela Inglaterra, que na pr√°tica inundou o pequeno mercado interno com quinquilharias in√ļteis e prejudicou as exporta√ß√Ķes e a cria√ß√£o de novas ind√ļstrias no pa√≠s; o deficit p√ļblico multiplicou-se por vinte e a corrup√ß√£o grassava √† solta nas institui√ß√Ķes, incluindo o primeiro Banco do Brasil, que acabou falindo. Al√©m disso a corte era extravagante e perdul√°ria, acumulava privil√©gios sobre privil√©gios e sustentava uma legi√£o de sicofantas e aventureiros. O c√īnsul brit√Ęnico James Henderson observou que poucas cortes europeias eram t√£o grandes como a portuguesa. E diz Laurentino Gomes que D. Jo√£o distribuiu mais t√≠tulos heredit√°rios durante os primeiros oito anos da sua estada no Brasil do que foram outorgados em todos os trezentos anos anteriores da hist√≥ria de Portugal, sem contar mais de cinco mil ins√≠gnias e comendas de ordens honor√≠ficas.

Quando Napole√£o foi apeado do poder em 1815, as pot√™ncias europeias instalaram o Congresso de Viena para reorganizar o mapa pol√≠tico do velho continente. Portugal participou nas negocia√ß√Ķes, mas diante das maquina√ß√Ķes inglesas contr√°rias aos interesses da Casa de Bragan√ßa, o regente foi aconselhado a permanecer no Brasil pelo Conde de Palmela, embaixador portugu√™s junto do Congresso, e pelo poderoso pr√≠ncipe de Talleyrand, a fim de estreitar os la√ßos entre a metr√≥pole e a col√≥nia, sugerindo-se inclusive a eleva√ß√£o da col√≥nia √† condi√ß√£o de reino unido de Portugal. O representante ingl√™s tamb√©m acabou concordando com a ideia, que resultou na efectiva cria√ß√£o do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves a 16 de Dezembro de 1815, institui√ß√£o jur√≠dica rapidamente reconhecida por outras na√ß√Ķes.

A 20 de Março de 1816 faleceu a rainha Dona Maria, abrindo caminho para o regente assumir o trono. Mas embora passasse a governar como Rei no dia 20, a sua sagração não se realizou de imediato, sendo aclamado somente a 6 de Fevereiro de 1818, com grandes festividades.

Entretanto, v√°rios assuntos pol√≠ticos ocupavam o primeiro plano. Dona Carlota Joaquina continuava a conspirar contra os interesses portugueses. Na verdade isso havia sido iniciado em Portugal e ambiciosa, logo ap√≥s a sua chegada ao Brasil estabelecera entendimentos tanto com espanh√≥is como com nacionalistas platinos, pretendendo conseguir um reino para si pr√≥pria, fosse como regente de Espanha, fosse como Rainha de um novo reino a ser criado nas col√≥nias espanholas no Sul da Am√©rica, ou mesmo atrav√©s da deposi√ß√£o de D. Jo√£o. Isso tornara a sua conviv√™ncia com D. Jo√£o imposs√≠vel, apesar da paci√™ncia que o marido lhe demonstrava e s√≥ por for√ßa das conveni√™ncias se apresentavam juntos em p√ļblico. Embora Dona Carlota tenha conseguido angariar muitas simpatias, todos esses seus planos se malograram. Apesar disso, conseguiu influenciar o marido a envolver-se mais directamente na pol√≠tica colonial espanhola, o que acabou desembocando na tomada de Montevideu em 1817 e na anexa√ß√£o da Prov√≠ncia Cisplatina em 1821.

Na mesma altura colocou-se o problema de casar o pr√≠ncipe herdeiro D. Pedro I. O Brasil era visto na Europa como um pa√≠s distante demais, atrasado e inseguro, e encontrar boas candidatas n√£o foi tarefa simples. Depois de um ano de buscas o embaixador, Marqu√™s de Marialva conseguiu enfim uma alian√ßa com uma das mais poderosas casas reinantes da Europa, os Habsburgo, imperadores da √Āustria, depois de seduzir a corte austr√≠aca com algumas mentiras, uma faustosa exibi√ß√£o de pompa e a distribui√ß√£o de barras de ouro e diamantes entre a nobreza. Casou-se ent√£o D. Pedro I com Dona Leopoldina, filha do imperador Francisco I em 1817. O imperador e o seu ministro Metternich consideraram a alian√ßa "um pacto vantajos√≠ssimo entre a Europa e o Novo Mundo", podendo fortalecer o regime mon√°rquico em ambos os hemisf√©rios e criando para a √Āustria uma nova zona de influ√™ncia.

Ao mesmo tempo, a situa√ß√£o em Portugal n√£o estava nada tranquila; ac√©falo e devastado pela Guerra Peninsular, que causou fome em massa e um enorme √™xodo populacional, com o afastamento definitivo da amea√ßa francesa a metr√≥pole tinha-se convertido na pr√°tica num protectorado brit√Ęnico, comandado pelo marechal William Beresford que governou com m√£o de ferro. Desde a ascens√£o de D. Jo√£o ao trono os portugueses faziam press√£o para o seu retorno, iniciaram rebeli√Ķes de orienta√ß√£o liberal e agiram algumas sociedades secretas, objectivando uma convoca√ß√£o das Cortes que n√£o se reuniam desde 1698.

No Brasil havia agita√ß√£o semelhante. Em 1817 eclodira no Recife a Revolu√ß√£o Pernambucana, movimento republicano que instalou um governo provis√≥rio em Pernambuco e se infiltrou por outros estados mas foi severamente reprimido. A 24 de Agosto de 1820 um levantamento militar no Porto instaurou uma Junta Governativa, com repercuss√Ķes em Lisboa. Reuniram-se as Cortes Gerais Extraordin√°rias e Constituintes, formando um governo e convocando elei√ß√Ķes para deputados sem a consulta a D. Jo√£o. O movimento espalhou-se para a Ilha da Madeira, os A√ßores e alcan√ßou a capitania do Gr√£o-Par√° e a Bahia no Brasil, chegando a causar a subleva√ß√£o da guarni√ß√£o militar no pr√≥prio Rio de Janeiro.

A 30 de Janeiro de 1821 as Cortes reuniram-se em Lisboa e decretaram a forma√ß√£o de um Conselho de Reg√™ncia para exercer o poder em nome de D. Jo√£o, libertaram muitos presos pol√≠ticos e exigiram o regresso imediato do Rei. A 20 de Abril D. Jo√£o convocou no Rio uma reuni√£o para escolher deputados √† Constituinte, mas no dia seguinte houve protestos na pra√ßa p√ļblica que acabaram reprimidos com viol√™ncia. No Brasil a opini√£o geral era a de que a volta do Rei poderia significar a retirada do pa√≠s da autonomia conquistada, voltando a ser uma col√≥nia. Pressionado, D. Jo√£o tentou encontrar uma sa√≠da contemporizadora enviando para Lisboa o seu filho o pr√≠ncipe herdeiro D. Pedro I, para outorgar uma Constitui√ß√£o e estabelecer as bases de um novo governo. O pr√≠ncipe, contudo, j√° envolvido com ideias libertadoras recusou-se. A crise havia ido longe demais e n√£o havia como voltar atr√°s. S√≥ restou ao Rei nomear D. Pedro I regente em seu nome e partiu para Lisboa a 25 de Abril de 1821, ap√≥s uma perman√™ncia de treze anos no Brasil, do qual levou saudades.

Os navios com o Rei e a sua comitiva entraram no porto de Lisboa a 3 de Julho. A sua volta fora orquestrada de modo a não dar a entender que o Rei se sentira coagido, mas de facto já se havia instaurado um novo ambiente político. Elaborada a Constituição, o Rei foi obrigado a jurá-la a 1 de Outubro de 1822, perdendo diversas prerrogativas. Dona Carlota negou-se a imitar o marido e com isso os seus direitos políticos findaram, sendo despojada do título de Rainha.

Nesta data, do outro lado do oceano o Rei j√° tinha perdido tamb√©m o Brasil. Seu filho, optando por ficar no pa√≠s, liderou uma revolta proclamando a Independ√™ncia do Brasil a 7 de Setembro, assumindo o t√≠tulo de imperador. Diz a tradi√ß√£o que antes de seguir viagem para Portugal D. Jo√£o VI teria antecipado os futuros acontecimentos dizendo para o herdeiro: "Pedro, o Brasil brevemente separar-se-√† de Portugal: se assim for, p√Ķe a coroa sobre a tua cabe√ßa, antes que algum aventureiro lance a m√£o dela". Segundo as mem√≥rias do Conde de Palmela, de facto a independ√™ncia brasileira teria sido realizada em comum acordo entre o Rei e o pr√≠ncipe. De qualquer modo, a correspond√™ncia posterior entre os dois regista a preocupa√ß√£o do pr√≠ncipe de que isso n√£o perturbasse o pai. O reconhecimento oficial da independ√™ncia, por√©m, demorou.

A Constitui√ß√£o liberal jurada pelo Rei vigoraria apenas durante alguns meses. O liberalismo n√£o agradava a todos e ergueu-se um movimento absolutista. A 23 de Fevereiro de 1823 em Tr√°s-os-Montes, o Conde de Amarante proclamou a monarquia absoluta que entretanto n√£o vingou de pronto, mas novas agita√ß√Ķes se seguiram. A 27 de Maio o Infante D. Miguel, instigado por sua m√£e Dona Carlota liderou outra revolta, conhecida como a Vilafrancada, tentando restaurar o absolutismo.

Mudando o jogo, o Rei apoiou o filho a fim de evitar a sua pr√≥pria deposi√ß√£o - desejada pelo partido da Rainha - e apareceu em p√ļblico no dia de seu anivers√°rio ao lado do filho, que vestia um uniforme da Guarda Nacional, um corpo militar que embora desorganizado tendia para o liberalismo, recebendo os aplausos da mil√≠cia. A seguir o monarca dirigiu-se pessoalmente a Vila Franca para melhor administrar a crise e o seu regresso para Lisboa foi um verdadeiro triunfo. O clima pol√≠tico mostrava-se indeciso e com isso mesmo os mais firmes defensores do liberalismo recearam comprometer-se em demasia. As Cortes, antes de serem dissolvidas, protestaram contra qualquer mudan√ßa que se operasse no texto constitucional rec√©m aprovado, mas o regime absoluto foi restaurado, os direitos da Rainha, restabelecidos e o Rei, aclamado pela segunda vez a 5 de Junho de 1823. D. Jo√£o al√©m disso, reprimiu manifesta√ß√Ķes, deportou alguns liberais, prendeu outros, ordenou a recomposi√ß√£o de magistraturas e institui√ß√Ķes mais de acordo com a nova orienta√ß√£o pol√≠tica e criou uma comiss√£o para elaborar estudos para uma nova Carta.

A alian√ßa do Rei com D. Miguel n√£o frutificou, j√° que sempre influenciado pela m√£e, o Infante a 29 de Abril de 1824 levantou a guarni√ß√£o militar de Lisboa e colocou o pai sob cust√≥dia no Pa√ßo da Bemposta na chamada Abrilada, a pretexto de esmagar os ma√ßons e defender o Rei das amea√ßas de morte que aqueles supostamente lhe teriam feito prendendo na ocasi√£o diversos inimigos pol√≠ticos. Tentava o Infante na verdade, for√ßar a abdica√ß√£o do pai. Alertado da situa√ß√£o, o corpo diplom√°tico penetrou no pal√°cio e diante de tantas autoridades, os cust√≥dios do Rei n√£o resistiram moderando-se. A 9 de Maio, por conselho de embaixadores amigos, D. Jo√£o simulou um passeio a Caxias, mas de facto foi buscar ref√ļgio junto √† armada brit√Ęnica ancorada no porto. A bordo da nau Windsor Castle chamou o filho, repreendeu-o, destituiu-o do comando do ex√©rcito e ordenou-lhe a liberta√ß√£o dos presos que fizera. D. Miguel foi exilado. Vencida a rebeli√£o, o povo foi √†s ruas comemorando a perman√™ncia do governo leg√≠timo, onde se uniram absolutistas e liberais. No dia 14 o Rei voltou √† Bemposta, reconstituindo o minist√©rio e mostrando generosidade para com os outros rebeldes. Por√©m, n√£o cessava a Rainha de conspirar. A pol√≠cia descobriu que outra rebeli√£o deveria estourar a 26 de Outubro, diante do que a D. Jo√£o n√£o restou sen√£o mostrar-se en√©rgico, mandando a esposa para pris√£o domiciliar em Queluz.

No fim do seu reinado D. João ordenou a criação de um porto-franco em Lisboa, mas a medida não foi implantada. Mandou prosseguir a devassa para averiguar a morte do Marquês de Loulé seu antigo amigo, mas a sentença final nunca foi proferida. A 5 de Junho de 1824 amnistiou os envolvidos na revolução do Porto, exceptuando nove oficiais que foram desterrados e no mesmo dia mandou entrar em vigor a antiga Constituição do reino e convocar novamente as Cortes para a elaboração de um novo texto. A mudança constitucional enfrentou diversos obstáculos, principalmente de Espanha e de partidários da rainha.

Contudo, os maiores problemas que enfrentou foram os ligados √† independ√™ncia do Brasil, at√© ent√£o a maior fonte de riqueza de Portugal e cuja perda fora de grande impacto sobre a economia portuguesa. Foi imaginada inclusive uma expedi√ß√£o de reconquista da antiga col√īnia, mas logo a ideia foi abandonada. Negocia√ß√Ķes dif√≠ceis entabuladas na Europa e no Rio de Janeiro, com a media√ß√£o e press√£o da Inglaterra, resultaram no definitivo reconhecimento da independ√™ncia a 29 de Agosto de 1825. Ao mesmo tempo, o Rei libertou todos os brasileiros que estavam presos e autorizou o com√©rcio entre ambas as na√ß√Ķes. Quanto a D. Pedro, foi acertado que governaria soberano com o t√≠tulo de Imperador Regente, mantendo D. Jo√£o para si o t√≠tulo de Imperador Titular do Brasil, passando a assinar os documentos oficiais como "Sua Majestade o Imperador e Rei D. Jo√£o VI". O Brasil ficava ainda obrigado ao pagamento do √ļltimo empr√©stimo contra√≠do com Portugal. Sobre a sucess√£o das duas coroas, nada ficou dito no tratado, mas D. Pedro, continuando na qualidade de Pr√≠ncipe Real de Portugal e Algarves, permanecia implicitamente na linha de sucess√£o ao trono portugu√™s.

A 4 de Mar√ßo de 1826, D. Jo√£o, vindo do Mosteiro dos Jer√≥nimos onde almo√ßara, recolheu-se ao Pa√ßo da Bemposta sentindo-se mal. Come√ßou com v√≥mitos, convuls√Ķes e desmaios, que duraram alguns dias. O enfermo pareceu melhorar, mas por prud√™ncia designou sua filha, a Infanta Isabel Maria, como regente. Na noite do dia 9 a mol√©stia agravou-se e perto das 5 horas do dia 10, faleceu. Os m√©dicos n√£o puderam determinar exactamente a causa mortis, mas suspeitou-se de envenenamento. O seu corpo foi embalsamado e sepultado no mausol√©u dos Reis de Portugal, o Pante√£o dos Bragan√ßas no Mosteiro de S√£o Vicente de Fora. A Infanta assumiu imediatamente o governo interino e D. Pedro foi reconhecido leg√≠timo herdeiro, como D. Pedro IV de Portugal. Recentemente uma equipa de pesquisadores exumou o pote de cer√Ęmica chinesa que continha as suas v√≠sceras. Fragmentos do seu cora√ß√£o foram reidratados e submetidos a an√°lises, que detectaram uma quantidade de ars√™nico suficiente para matar duas pessoas, confirmando as suspeitas de que o Rei foi na verdade assassinado.

No entender de Pedreira & Costa, s√£o poucos os monarcas portugueses que ocupam no imagin√°rio popular um lugar t√£o destacado como D. Jo√£o VI, um imagin√°rio que o descreve de maneiras muito variadas, "ainda que raramente por boas raz√Ķes.... N√£o s√£o estranhas as atribula√ß√Ķes da sua vida conjugal e familiar e as refer√™ncias √† sua personalidade e aos seus costumes pessoais, convidando √† caricatura f√°cil e √† circula√ß√£o de uma tradi√ß√£o pouco lisonjeira, quando n√£o jocosa". S√£o populares as descri√ß√Ķes do Rei como indolente, parvo e trapalh√£o, subjugado por uma esposa megera, um comil√£o asqueroso que tinha sempre franguinhos assados nos bolsos da casaca para com√™-los a qualquer hora com as m√£os engorduradas, uma vis√£o perfeitamente tipificada no filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, uma par√≥dia mesclada de aguda cr√≠tica social. A obra teve enorme repercuss√£o, mas na cr√≠tica de Ronaldo Vainfas, "√© uma hist√≥ria cheia de erros de todo o tipo, deturpa√ß√Ķes, imprecis√Ķes, inven√ß√Ķes". Para o historiador Luiz Carlos Villalta, "constitui um amplo ataque ao conhecimento hist√≥rico" e ao contr√°rio do anunciado pela cineasta Carla Camurati, que pretendeu "produzir uma narrativa cinematogr√°fica que constitu√≠sse uma esp√©cie de romance hist√≥rico com fun√ß√Ķes pedag√≥gicas e que assim, oferecesse ao espectador um conhecimento do passado e o ajudasse como povo a pensar sobre o presente.... n√£o oferece conhecimento hist√≥rico novo ao espectador, nem que se considere que a mesma concebe a Hist√≥ria como um Romance: ele refor√ßa, na verdade, as ideias que os espectadores trazem, sendo nulo em termos de amplia√ß√£o do conhecimento.... Dessa forma, conduz-se o espectador mais ao deboche do que √† reflex√£o cr√≠tica sobre a hist√≥ria do Brasil".

No seu governo sempre dependeu de auxiliares fortes, encontrando-os principalmente nas figuras do Conde de Linhares, do Conde da Barca e em Tomás de Vila Nova Portugal, que podem ser considerados os mentores de muitas das mais importantes medidas que o Rei tomou, mas segundo John Luccock, um fidedigno observador do período joanino, "o príncipe regente tem sido várias vezes acusado de apatia; a mim, pareceu-me ele possuir maior sensibilidade e energia de carácter do que em geral tanto amigos como adversários costumam atribuir-lhe.

As biografias mais recentes tentam distinguir entre a lenda e facto, e reverter o folclore do rid√≠culo que se formou sobre ele e que de resto n√£o tem muita documenta√ß√£o hist√≥rica aut√™ntica que o corrobore. L√ļcia Bastos adverte que mesmo atitudes que hoje poder√≠amos criticar devem ser analisadas com cuidado no seu contexto hist√≥rico, como a quest√£o da corrup√ß√£o, lembrando que, embora houvesse gastos enormes e claros abusos, na √©poca n√£o havia separa√ß√£o n√≠tida entre o p√ļblico e o privado e na l√≥gica do Antigo Regime "o Rei √© o dono do Estado.... aquela distribui√ß√£o de benesses fazia parte: o Rei √© o dispensador de justi√ßa e benesses". Nas palavras de Leandro Loyola, "das novas pesquisas surge um governante que tinha limita√ß√Ķes, mas enfrentou uma conjuntura totalmente adversa e sobreviveu a ela, apesar de governar um pa√≠s pequeno, empobrecido e decadente como o Portugal do come√ßo do s√©culo XIX". Significativamente, Napole√£o o seu mais poderoso inimigo, antes de falecer na ilha de Santa Helena disse sobre ele: "Foi o √ļnico que me enganou".


 
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