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Beladona
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Mensagem Enviada: Seg Nov 25, 2019 13:42     Assunto : Responder com Citação
 
Um belo poema de Ricardo Almeida...

“Um Dia Voarei Opaco Submerso numa Manhã Cinzenta…
Trarei Vestido o Orvalho com que o Raiar do Dia Vestiu a minha Pele…
Nas Minhas Asas levarei a História de toda Uma Vida…
Na Minha Mente os Manuscritos Redigidos pelo Pão que o Diabo Amassou…
Um Dia…
Numa Manhã Cinzenta…
Voarei Opaco e Submerso…
Olharei, Resignado, em Direcção aos Montes, Vales e Cidades que Vivem Estáticos nas Encostas do Horizonte…
Olharei, Petrificado, a Humanidade que Habita as Montanhas, Países e Oceanos como Seres Estranhos numa Terra Estranha…
Nada Mudou…
Voarei sem Destino num Regresso Premeditado ao Passado…
Voarei, um Dia, num Mar de Chamas que as Recordações não Apagam…
Voarei, no Pretérito Perfeito, por Frases e Estradas que Nunca Acabam…
Submerso…
Cinzento…
Opaco…
Sem Destino num Regresso Anunciado…”

Copyright © Ricardo Almeida
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Beladona
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Mensagem Enviada: Ter Nov 26, 2019 21:31     Assunto : Responder com Citação
 
Um belo poema de António Gedeão...

Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva,
de olhos postos no céu, e reparo, com alegria,
que as dimensões do infinito não me perturbam.
(O infinito!
Essa incomensurável distância de meio metro
que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!)

O que me perturba é que o todo possa caber na parte,
que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote.

O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas
porque eu não sou braço nem sou perna.

Se eu tivesse a memória das pedras
que logo entram em queda assim que se largam no espaço
sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair;
se eu tivesse a memória da luz
que mal começa, na sua origem, logo se propaga,
sem que nenhuma se esquecesse de propagar;
os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra,
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram
continentes,
a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a
Terra.

Mas não esqueci tudo.
Guardei a memória da treva, do medo espavorido
do homem da caverna
que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz;
guardei a memória da fome;
da fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo;
guardei a memória do amor,
dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez desejar a mulher do próximo e do distante;
guardei a memória do infinito,
daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos,
em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado,
à formação do Universo.

Tudo se passou defronte de partes de mim.
E aqui estou eu feito carne para o demonstrar,
porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.
Já cá estavam.
Estão.
E estarão.

in 'Poemas Póstumos'
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Beladona
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Mensagem Enviada: Qui Nov 28, 2019 18:12     Assunto : Responder com Citação
 
Um belo poema de "Chitas"...

Será que…

Tranquilidade é:
encostar a cabeça
no peito de quem se ama
e sentir que ele sorri connosco

Tranquilidade é:
tudo aquilo que nos deixa
um sorriso a bailar no rosto
e um olhar de ternura
nos olhos de quem amamos porque nada nos é imposto
É entregarmo-nos em paixão
e sentir que a pele se inquieta
na suavidade do toque do ser amado

Tranquilidade: era a luz que flutuava
dos teus olhos castanhos esverdeados
e que fazia reflexos de luz dentro dos meus azulados ...

Tranquilidade:
Era o que eu sentia…

Amor: foi o que nos levou a ser fortes...

Saudade: é o que sinto e sentirei corroer o meu espírito
até à morte…
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Nov 29, 2019 21:13     Assunto : Responder com Citação
 
Um belo poema de Nuno Júdice...

As coisas mais simples, ouço-as no intervalo
do vento, quando um simples bater de chuva nos
vidros rompe o silêncio da noite, e o seu ritmo
se sobrepõe ao das palavras. Por vezes, é uma
voz cansada, que repete incansavelmente
o que a noite ensina a quem a vive; de outras
vezes, corre, apressada, atropelando sentidos
e frases como se quisesse chegar ao fim,
mais depressa do que a madrugada. São coisas simples
como a areia que se apanha, e escorre por
entre os dedos enquanto os olhos procuram
uma linha nítida no horizonte; ou são as
coisas que subitamente lembramos, quando
o sol emerge num breve rasgão de nuvem.
Estas são as coisas que passam, quando o vento
fica; e são elas que tentamos lembrar, como
se as tivéssemos ouvido, e o ruído da chuva nos
vidros não tivesse apagado a sua voz.
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sáb Nov 30, 2019 21:04     Assunto : Responder com Citação
 
Completam-se hoje 84 anos que Fernando Pessoa, um dos nossos maiores poetas e um dos meus poetas de eleição nos deixou...trago aqui dois poemas em sua memória...

De Fernando Pessoa

Sou um evadido,
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte.
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia.
Ser eu, é não ser.
Eu vivo fugido
Mas vivo a valer.
...

---//---

E:

Post-Scriptum

Gostaria de saber
Com que sonha quem sonha,
Que tem para se entreter
E fazer meio-risonha
A vida que há por viver...

Gostaria de sentir
Como é a alma que vive
Sem para a alma sorrir...
Eu sonhei e nada obtive.
Sonharei sem conseguir.

Mas o que fiz e que faço,
Que é nada, como o é tudo,
Guardo no meu ser o traço
Do sonho que me faz mudo,
E rio-me do cansaço...

Os grandes homens da terra,
Os que fazem, sem gramática,
Frases de paz e de guerra,
E sabem tudo na prática
Salvo que a prática erra

- Ah, esses têm presença,
Multidão e biografia...
Que o Fado os tenha na crença
Que esse valer tem valia!...
Casei com a diferença.
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Mensagem Enviada: Ter Dez 03, 2019 11:48     Assunto : Responder com Citação
 
Um poema de Natália Correia que muito prezo e que tive o grato prazer de conhecer...

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem a morte.

in "O Nosso Amargo Cancioneiro"
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Mensagem Enviada: Ter Dez 03, 2019 21:34     Assunto : Responder com Citação
 
Um belo poema de Miguel Torga...

Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!
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Mensagem Enviada: Qua Dez 04, 2019 21:25     Assunto : Responder com Citação
 
De uma das minhas poetisas de eleição...Sophia de Mello Breyner Andresen...

"Porque os outros se mascaram mas tu não"

Porque os outros se mascaram e tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.

in "Mar Novo"
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Beladona
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Mensagem Enviada: Qui Dez 05, 2019 20:48     Assunto : Responder com Citação
 
Um belo poema de Nuno Júdice...

Queria ser essa noite que te envolve; e
cobrir-te com o peso obscuro dos braços
que não se vêem. Um murmúrio
desceria de uma vegetação de palavras,
enrolando-se nos teus cabelos como
secretas folhas de hera num horizonte
de pálpebras. Deixarias que te olhasse
o fundo dos olhos, onde brilha
a imagem do amor. E sinto os teus dedos
soltarem-se da sombra, pedindo
o silêncio que antecede a madrugada.

in "Estado dos Campos"
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Dez 06, 2019 19:45     Assunto : Responder com Citação
 
Um poema de Eugénio de Andrade...

As Amoras

O meu país sabe às amoras bravas
no Verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

In "O Outro Nome da Terra"
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