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Espaço da Poesia
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Beladona
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Local: Algarve
Mensagem Enviada: Dom Ago 12, 2007 19:23     Assunto : Responder com Citação
 
Hoje faria 100 anos se fosse vivo, o médico e poeta/escritor Miguel Torga (Dr.Adolfo Rocha)

Como uma muito singela homenagem passo a transcrever o poema:

Livro de Horas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais.
Que são três.
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer de mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Cain.

Me confesso de ser Homem,
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui,diante de mim!
 
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Beladona
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Local: Algarve
Mensagem Enviada: Qui Set 27, 2007 00:02     Assunto : Responder com Citação
 
Hoje, vou transcrever um poema curioso da poetisa açoriana Natália Correia que tive o grato prazer de conhecer. Digo curioso, pois foi escrito por ela, para se defender no Tribunal:

A Defesa do Poeta

Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de um pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três, quatro, cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

---
 
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nau
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Mensagem Enviada: Dom Set 30, 2007 07:57     Assunto : Responder com Citação
 
Caríssima Beladona,

Só esta madrugada me foi possível ler os poemas que transcreveu de alguns poetas que também me são queridos. Bem haja!.

A língua portuguesa tem o condão de dividir as gentes lusas; apenas a poesia nos faz recordar, pela distância a que nos encontramos, o solo pátrio e a pequenez das coisas que nos dividem.

Até a Proposição do Canto Primeiro, em cuja autópsia fomos (contrafeitos) obrigados a participar com o bisturi de David Mourão Ferreira, desperta em nós "razões" de ser português.

Estou a ficar velho! Obrigado.

arnaldo (nau)
 
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Beladona
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Local: Algarve
Mensagem Enviada: Ter Out 02, 2007 12:42     Assunto : Responder com Citação
 
Caro Arnaldo (nau)

Muito obrigada pelas suas sempre tão gentis palavras.

Sabe, amo a poesia, que me acompanha e me aconchega nos bons e maus momentos, especialmente nos últimos. Costumo dizer que lavam a alma.

Tive a sorte de ter quando ainda estudante, um professor de português muito especial: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos mais conhecido por Zeca Afonso, que soube incutir nos seus alunos o amor pela poesia e pela música.

Os sentimentos que evoca, não são sinónimo de velhice, mas de experiência de vida, e essa é independente da idade.

E já agora que falei em Zeca Afonso passo a transcrever:

Coro dos Caídos

Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência,
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em Maio é sempre cedo,
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia.

Cantai cantai melancolias serenas
Como trigo da moda nas verbenas,
Canta cantai guisos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos,
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência.

Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos, sobre os cemitérios,
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas, os clarins e as espadas,
Cantai nos matadouros, nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras.

Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança,
Dançai ó Parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta,
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a amora.

---

Tomo a liberdade de aqui colocar mais um pequeno apontamento do poeta Saúl Dias:

Sangue

Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...
É só com sangue que se escrevem versos.
---
 
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nau
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Mensagem Enviada: Sáb Out 06, 2007 20:08     Assunto : Responder com Citação
 
Caríssima Beladona,


Neste fim de dia outonal, permita-me recordar o poema “Baile” do Lorca:


La Carmen está bailando
por las calles de Sevilla.
Tiene blancos los cabellos
y brillantes las pupilas

Niñas,
corred las cortinas!

En su cabeza se enrosca
una serpiente amarilla,
y va soñando en el baile
con galanes de otros dias.

Niñas,
corred las cortinas!

Las calles están desiertas
y en los fondos se advinam
corazones andaluces
buscando viejas espinas.

Niñas,
corred las cortinas!

Com votos de bom fim de semana,


Arnaldo (Nau)
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Qua Out 10, 2007 19:49     Assunto : Responder com Citação
 
Caro Arnaldo (Nau)

Muito obrigada pelo lindo poema que teve a gentileza de nos oferecer de Federico Garcia Lorca, aliás, como não podia deixar de ser vindo do poeta e escritor que vem.

Tenho um pequeno poema de Lorca que também muito gosto, que vem na sua: Antologia Poética

A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que boiam no seu negro
abismo de madeira.

---//---

Tomo também a liberdade de aqui transcrever um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, retirado da: Obra Poética II, que também muito me agrada

O POEMA

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê.

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento.

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento.

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas.

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio nome confundirá
Com o poema no tempo.
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Qui Out 11, 2007 20:42     Assunto : Responder com Citação
 
Tomo a liberdade de vos trazer hoje um poema do poeta Rabindranath Tagore, do seu livro: Poesia

O Caminhante

Não me perguntes
O que é salvação
Ou onde a encontrar,
Não sou investigador, mas apenas poeta...
Vivo agarrado a esta terra.
Perante mim corre o rio da vida...
Levando na sua corrente
Luz e sombra, bem e mal,

Ganhos e perdas, lágrimas e risos,
Coisas que se entrelaçam
E se esquecem!
Sobre as suas águas
A manhã chega em profundos matizes,
O ocaso estende o seu véu carmesim,
E os raios lunares caem como o suave tacto de uma mãe.
Na noite escura
As estrelas elevam as suas orações;
Sobre as suas ondas
A "madhuri" (flor) oferece os seus dons,
E as aves soltam os seus cantos.
Quando ao ritmo das ondas
Silencioso dança o meu coração
Então nesse ritmo
Estão os meus limites e a minha liberdade.
Não desejo conservar nada
Nem apegar-me a nada.
Desatando os nós da união e da separação,
Quero flutuar com o Todo
Içando as minhas velas ao vento que paira.

Oh, grande Caminhante!
Para ti abrem-se os dez caminhos
Nos confins da terra,
E não tens templo, nem céu,
Nem limite final.
A cada passo tocas o chão sagrado.
Caminhando a teu lado, oh, Incansável!
Encontro a salvação
No tesouro do caminho.
Em luz e sombra,
Nas páginas sempre novas da criação,
Em cada novo instante de dissolução
Ouve-se o ritmo das tuas danças e canções.
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Out 12, 2007 22:12     Assunto : Responder com Citação
 
Tomo a liberdade de transcrever dois pequenos poemas sobre diversas teorias do amor escritos por anónimos, mas, que não deixam de ser por isso de uma grande sensibilidade e verdade:

Definição do Amor

É um nada Amor que pode tudo,
É um não se entender o avisado,
É um querer ser livre e estar atado,
É um julgar o parvo por sisudo;

É um parar os golpes sem escudo,
É um cuidar que é e estar trocado,
É um viver alegre e enfadado,
É não poder falar e não ser mudo;

É um engano claro e mui escuro,
É um não enxergar e estar vendo,
É um julgar por brando ao mais duro;

É um não querer dizer e estar dizendo,
É um no maior perigo estar seguro,
É, por fim, um não sei quê, que não entendo.

---//---

A Filosofia do Amor

Sobre as montanhas
E sobre as ondas;
Sob as fontes
E sob as campas;
Sob as águas mais profundas
Que a Neptuno obedecem;
Sobre os rochedos mais escarpados,
O amor encontra sempre
o caminho.

Podes treinar a águia
A vir pousar no teu punho;
Podes mesmo atrair
A fénix do Oriente;
Podes convencer a leoa
A entregar-te a sua presa;
Mas nunca conseguirás deter
um apaixonado:
Ele descobrirá sempre o seu
caminho.
 
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nau
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Mensagem Enviada: Seg Out 15, 2007 15:25     Assunto : Caríssima Beladona, 2 Responder com Citação
 
Caríssima Beladona,

Uma optima selecção!
Embora já tenha apresentado o poema de Lorca, na versão original, creio sentir o mesmo rítmo na interpretação de Jean-Clarence Lambert (“Poétique de la Danse”, édit. Falaize, Paris, 1955):

Carmen va dansant
par les rues de Séville.
Elle a les cheveux blancs,
brillantes les pupilles.

Fillettes,
tirez les rideaux!

Sur sa tête s’enroule
un serpent jaune,
elle rêve en dansant
aux gallants d’autrefois.

Fillettes,
tirez les rideaux!

Les rues sont désertes
et au fond l’on devine
des coeurs andalous
qui cherchent de vieilles épines.

Fillettes,
tirez les rideaux!


Melhores cumprimentos,

Arnaldo (Nau)
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Qui Out 18, 2007 23:53     Assunto : Responder com Citação
 
Caro Arnaldo (Nau)

Muito obrigada por nos mostrar o mesmo poema de Federico Garcia Lorca, mas na língua francesa. Se me permite, para mim, prefiro-o na língua original deste malogrado poeta/escritor, executado pelos nacionalistas no início da Guerra Civil Espanhola, pois só ela lhe dá todo o sentimento, força e calor da Andaluzia. O som das palavras, é outro... Talvez, porque me faça recordar a minha temperamental bisavó materna que era andaluz, e que tive a sorte de ainda ter conhecido já muito velhinha.

Tomo a liberdade de aqui trazer um poeta português, nascido em Aljustrel, que sempre primou pela modéstia e solidão, o poeta e bibliógrafo Luís Amaro.

Paragem

Tanto que tenho andado
à volta da minha alma!

De mim assisto, atento,
à luta pelo mundo,
e a mim próprio revejo
na ânsia de encontrar
um fio por onde desça
à minha intimidade.
Entre os outros me esqueço
A indagar: quem sou?

Ó meus cuidados vãos...
Se nunca hei-de saber
qual é o caminho,
inda o melhor é ir,
Na multidão oculto.
Jamais, porém, se extinga
A sede pura e bela
De ser melhor que sou.
---
 
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