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Espaço da Poesia
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Beladona
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Local: Algarve
Mensagem Enviada: Sex Out 19, 2007 23:34     Assunto : Responder com Citação
 
Volto hoje com mais um poeta que também muito me agrada: Jorge de Sena, e tomo a liberdade de transcrever do seu livro: Obras de Jorge de Sena_ "Antologia Poética", o poema:

Uma Pequenina Luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little ligth
una picolla...em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.
 
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Beladona
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Local: Algarve
Mensagem Enviada: Seg Out 22, 2007 23:43     Assunto : Responder com Citação
 
Hoje trago-vos uma poesia do poeta brasileiro Mauro Luís Iasi, que saiu na revista PUCVIVA nº11, que achei profundamente sábia e que se intitula:

Aula de Vôo

O conhecimento
caminha lento feito lagarta.
Primeiro não sabe que sabe
e voraz contenta-se com o cotidiano orvalho
deixado nas folhas vividas das manhãs.

Depois pensa que sabe
e se fecha em si mesmo:
faz muralhas,
cava trincheiras,
ergue barricadas.
Defendendo o que pensa saber,
levanta certezas na forma de muro,
orgulhando-se de ser casulo.

Até que maduro
explode em vôos
rindo do tempo que imaginava saber
ou guardava preso o que sabia.
Voa alto sua ousadia
reconhecendo o suor dos séculos
no orvalho de cada dia.

Mesmo o vôo mais belo
descobre um dia não ser eterno.
É tempo de acasalar:
voltar à terra com seus ovos
à espera de novas e prosaicas lagartas.

O conhecimento é assim
ri de si mesmo
e de suas certezas.
É meta da forma
metamorfose
movimento
fluir do tempo
que tanto cria como arrasa

a nos mostrar que para o vôo
é preciso tanto o casulo
como a asa.

---//---

Do poeta e filósofo judeu de origem húngara, nascido em Viena e que durante a 2ª Grande Guerra foi perseguido nos guetos de Budapeste e que sobreviveu ao extermínio nazi graças a um diplomata espanhol, e devido a isso passando desde então a residir em Espanha, desenvolvendo um enorme activismo intelectual em torno da preservação da memória viva do Holocausto e da projecção sobre o desenvolvimento do espírito da tolerância: Jaime Vândor

INERCIA

En la pista de los Finzi-Contini
un mundo decadente juega al tenis.
Tras la ventana un sabio ignora perseverante
las piezas que su razón no consigue encajar.

Otros jugadores cabildean tras las tapias
un mundo emergente se apresta a ganar la partida
con diligencia sapos helados paren edictos.
! Los libros son mofa, professor! Engañosa coraza.

Despertad, muchachos, coged las bicicletas,
no son tiempos de ropa blanca impoluta.
Pelota va, pelota viene, out..._y de la tormenta
? nada os susurran la red y el horizonte?

Que prevalezca el apego a la vida sobre
la renuncia a contaros con los menos exquisitos,
vuestro destino os enfadará en el mismo paquete
esbeltos lirios cercenados con la común caléndula.

Clase con medios para ponerse a salvo,
inteligencia, saber, pero no llaneza, sensatez.
? Es orgullo lo que os tiene clavados? ? Fuerza interior?
? Un honor demodé? ? Peso y fatiga de siglos?

No os amparan los muros de la mansión señorial,
por ahí ledran: ! olvide, señor, los visillos y la cultura!
Micòl, Micòl-Dominique, niña, a qué estás jugando,
otra raqueta te lanzará al set de los desechos.

Afuera enfilan vagones y cielos rojizos,
hedor y ceniza sobre aldeas polacas_
talleres acelerados cosen uniformes del Fascio,
la Ferrara desafecta se resigna a volver el rostro.

...Callan las bicicletas apoyadas en la tapia
la servidumbre prepara el té con esmero habitual.
en las pistas de los Finzi-Contini
un mundo decadente juega al tenis.
---
 
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nau
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Mensagem Enviada: Sáb Out 27, 2007 10:27     Assunto : Responder com Citação
 
Caríssima Beladona,

Aragon, como escritor, é mediocre; como poeta, um poucochinho pior. No entanto, foi um rapaz esforçado e a prova são os seguintes versos nos quais, de facto, se verifica o movimento ternário da valsa:

Quelle valse inconue entrainante et magique
M’emporte malgre moi comme une folle idée
Je sens fuir sous mes pieds cette époque tragique
Elsa quelle est cette musique
Ce n’est plus moi qui parle et mes pieds sont guidés

Cette valse est un vin qui ressemble au Saumur
Cette valse est le vin que jái bu dans tes bras
Tes cheveux en sont l’or et mes vers s’en émurent
Valsons-la comme un saute un mur
Ton nom s’y murmure Elsa valse et valsera

La jeunesse y pétille où nos jours étant courts
A Monmartre on allait oublier qu’on pleura
Notre nuit a perdu ce secret du faux-jour
Mais a-t-elle oublié l’amour
L’amour est si lourd Elsa valse et valsera.
 
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nau
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Mensagem Enviada: Dom Out 28, 2007 09:55     Assunto : Aragon Responder com Citação
 
Caríssima Beladona,

A sua gentil naturez desculpará a falta verificada no meu último apontamento. Cogitando sobre a personalidade de Aragon, omiti os cumprimentos que lhe são devidos e que, devotada e tardiamente, agora lhos apresento.

Beijo as suas mãos,

Arnaldo (Nau)
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Ter Out 30, 2007 00:11     Assunto : Responder com Citação
 
Meu caro Arnaldo (Nau),

Por favor, não se sinta obrigado a nada, pois só a sua participação neste espaço já me gratifica muito.

Pensava ser só eu a arranjar um pouquinho de tempo para aqui ir colocando alguns poemas que muito me dizem, afinal, além do nosso caro Anjo de Sangue Azul, também o caro amigo vai arranjando um pouco do seu precioso tempo para aqui vir, e além disso colocar também lindos poemas que a todos nós agradam, ao mesmo tempo honrando-me com a sua gentil companhia. Mais uma vez, o meu muito obrigada.

Com consideração

Beladona
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Ter Out 30, 2007 14:19     Assunto : Responder com Citação
 
Hoje trago um poema que a mim me diz muito, vem do mundo da aviação, um pouco do meu mundo, mais propriamente dos seus pilotos, este poema faz parte do seu mundo e feito por um deles que partiu cedo demais durante a 2ª Guerra Mundial aos 19 anos. Este poema foi adoptado desde então pela comunidade dos pilotos de todo o mundo e é conhecido por:

The Pilots Prayer

High Flight
Oh! I have shipped the surly bonds of Earth
And danced the skies on laughter-silvered wings;
Sunward i've climbed, and joined the tumbling mirth
Of sun-split clouds,-and done a hundred things
You have not dreamed of-wherled and soared and swung
High in the sunlit silence. Hov'ring there,
I've chased the shouting wind along, and flung
My eager craft through footless halls of air...

Up, up the long, delirious burning blue
I've topped the wind-swept heights with easy grace
Where never lark, or even eagle flew-
And, while in silent, lifting mind i've trod
The high untrespassed sanctity of space,
Put out my hand, and touched the face of God.

-Pilot Officer John Gillespie Magee, Jr.
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Qua Out 31, 2007 00:42     Assunto : Responder com Citação
 
Hoje trago mais um lindo soneto de Natália Correia

Ó Véspera do Prodígio!-IV

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
---
 
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nau
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Mensagem Enviada: Qua Out 31, 2007 08:30     Assunto : Responder com Citação
 
Caríssima Beladona,


Não conhecia o soneto da Natália Correia que transcreveu; é Natália a corpo inteiro! As Ilhas Azuis, de facto, nunca lhe sairam das veias – as brumas, as coisas fantásticas e as orações que as crianças então rezavam antes de ir para a cama ... Obrigado.

Cordiais saudações,

Arnaldo (Nau)
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Nov 02, 2007 20:18     Assunto : Responder com Citação
 
Caro Arnaldo (Nau)

Efectivamente é um lindo soneto de Natália Correia, uma grande açoriana que tinha muita honra em o ser. O soneto acima transcrito é do seu livro: "Poesia Completa" das publicações Dom Quixote (1999).

E já que estamos a falar desta grande poetisa, não me contenho, e passo a transcrever o poema que ela dedicou na Assembleia da República, ao deputado do CDS João Morgado, num debate sobre a legalização do aborto a 03 de Abril de 1982.

A resposta de Natália Correia em poema, publicado depois pelo Diário de Lisboa em 05 de Abril desse ano, fez rir todas as bancadas parlamentares, sem excepção, tendo os trabalhos parlamentares sido interrompidos por isso:

Já que o coito- diz Morgado-
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
de cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou- parca ração-
uma vez. E se a função
faz o órgão- diz o ditado-
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

--

Que me desculpem as mentes mais puristas e sensíveis...

---//---

Tomo a liberdade também, de vos trazer mais um soneto de Florbela Espanca, uma poetisa que muito me agrada (aliás digo sempre o mesmo desta poetisa), e como estamos no Outono, passo a transcrever:

Outonal

Caem as folhas mortas sobre o lago!
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio...Olha, anoitece!
-Brumas longínquas do País Vago...

Veludos a ondear...Mistério mago...
Encantamento...A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a benção dum afago...

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
-Vestes a Terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas,
Em que soluço a delirar de amor...
---
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sáb Nov 03, 2007 19:20     Assunto : Responder com Citação
 
Tomo a liberdade de vos trazer hoje o muito conhecido poema do Dr. Rómulo de Carvalho, mais conhecido por António Gedeão:

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
em superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

---
 
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