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Data: Sáb Dez 07, 2019 11:53
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Espaço da Poesia
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Nov 01, 2019 09:44     Assunto : Responder com Citação
 
Da escritora, jornalista e poetisa Alice Vieira...

A Concha Perfeita Das Tuas Mãos

Sei um jeito de te fazer ficar
murmuravas nas manhãs em que nascíamos
ávidos de nós
e éramos tão novos
e faltávamos às aulas

Posso ter esquecido admito muita coisa
caminhos promessas lugares a cor
da saia que vestia no dia em que não voltei
muita coisa admito menos
a concha perfeita das tuas mãos sobre o meu peito
o cheiro das laranjeiras as cartas
em papel tão adolescente e azul
o esplendor de Junho à mesa familiar
os espelhos garantindo-nos um lugar único na casa

Posso ter esquecido admito muita coisa
menos os nossos corpos simultâneos
às portas do amor
no arco da minha pele que humidamente
se abria ao lume da tua língua
nessas manhãs em que jurámos
não morrer nunca

in "Dois Corpos Tombando na Água"
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Nov 01, 2019 09:45     Assunto : Responder com Citação
 
Um lindo soneto de Antero de Quental...

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

in "Sonetos"
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Nov 01, 2019 09:46     Assunto : Responder com Citação
 
Um belo poema de um autor desconhecido...

E o homem
Num abraço sincero e universal
• • •
Não é ninguém... sou eu...

A força viva em que não se repara
O homem que cultiva
Que navega
Que fabrica
Que extrai o minério e que edifica
Os palácios soberbos

Não é ninguém... sou eu...

A escória
A canalha
O plebeu
O enjeitado da sociedade
Que não tem prato no banquete da vida
Nem felicidade
Nem direitos, nem garantias

De manhã, ainda as espertas cotovias
Dormem no aveludado fofo de seus ninhos
Já eu vou a arrastar pelos caminhos
O meu aguilhão de escravo...

... E, meio morto
Só me recolho à choça sem conforto
Triste e extenuado
Quando o luar branco de prata banha ao de leve
Os campos que eu cavei...

Não sou ninguém... bem sei...

Dizem que me instrua
Que vá à escola
Que busque instrução...
Como? Se todo o dia emprego a trabalhar
Para comprar à noite um bocado de pão

E esses campos de trigo, extensos
Que parecem não ter fim
Que galgam pelas colinas
E assaltam quase o céu
Foram todos semeados e colhidos por mim

Dei-lhe o meu suor
Porém, nenhum é meu
Edifico os palácios, mas eu nunca os habito
Produzo nos teares, sem que vestidos tenha
Arrasto as florestas, mas não é minha a lenha

Posso morrer de frio, que são só meus:
O vento
As estrelas que brilham no firmamento
As nuvens que correm no infinito
E o luar que vem dos céus

Dizem que vem ao longe
Muito ao longe ainda
O clarão de uma aurora a raiar
Muito bela, muito linda
Dizem que depois todos trabalharão...
Todos irmãos no trabalho
Todos com direito ao pão

E o homem
Num abraço sincero e universal
E a felicidade humana erguida em apogeu
E quem poderá fazer esta obra colossal?...

Não é ninguém, sou eu... sou eu...
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Nov 01, 2019 09:47     Assunto : Responder com Citação
 
Gosto muito de Federico García Lorca...transcrevo um dos seus lindos sonetos na sua própria língua...

Tengo miedo a perder la maravilla
de tus ojos de estatua, y el acento
que de noche me pone en la mejilla
la solitaria rosa de tu aliento.

Tengo pena de ser en esta orilla
tronco sin ramas; y lo que más siento
es no tener la flor, pulpa o arcilla,
para el gusano de mi sufrimiento.

Si tú eres el tesoro oculto mío,
si eres mi cruz y mi dolor mojado,
si soy el perro de tu señorío,

no me dejes perder lo que he ganado
y decora las aguas de tu río
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Mensagem Enviada: Sex Nov 01, 2019 09:48     Assunto : Responder com Citação
 
Um lindo soneto de Antero de Quental...

Idílio

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar das ermas cumeadas
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longo, no horizonte, amontoadas:

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão e empalideces

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.
...
 
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Mensagem Enviada: Sex Nov 01, 2019 09:50     Assunto : Responder com Citação
 
Um lindo poema de Vinicius de Moraes...

Poema dos Olhos da Amada

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.
...
 
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Mensagem Enviada: Sex Nov 01, 2019 09:51     Assunto : Responder com Citação
 
Do grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade...

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

in "O Corpo"
...
 
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Mensagem Enviada: Sex Nov 01, 2019 09:52     Assunto : Responder com Citação
 
Do poeta Rubem Alves...

Minha vida se divide em três fases.

Na primeira, meu mundo era do tamanho do universo.
E era habitado por deuses, verdadeiros e absolutos.

Na segunda fase meu mundo encolheu,
ficou mais modesto e passou a ser habitado
por heróis revolucionários que portavam armas
e cantavam canções de transformar o mundo.

Na terceira fase, mortos os deuses,
mortos os heróis, mortas as verdades e os absolutos,
meu mundo se encolheu ainda mais
e chegou não à sua verdade final
mas à sua beleza final:
ficou belo e efémero como uma jabuticabeira florida.
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Mensagem Enviada: Sáb Nov 02, 2019 19:08     Assunto : Responder com Citação
 
De um dos poetas que prezo... Almada Negreiros....

Não foi por acaso que o meu sangue que veio do Sul
se cruzou com o meu sangue que veio do Norte.
Não foi por acaso que o meu sangue que veio do Oriente
se cruzou com o meu sangue que veio do Ocidente.
Não foi por acaso nada de quem sou agora.
Em mim se cruzaram finalmente todos os lados da terra.
A Natureza e o Tempo me valeram: séculos e séculos
ansiosos por este resultado um dia
e até hoje fui sempre futuro.
Faço hoje a cidade do Antigo
e agora nasço novo como ao Princípio:
foi a Natureza que me guardou a semente
apesar das épocas e gerações.
Cheguei ao fim do fio da continuidade
e agora sou o que até ao fim fui desejo:
o Centro do Mundo já não é o meio da terra
vai por onde anda a Rosa dos Ventos
vai por onde ela vai
anda por onde ela anda.
Agora chego a cada instante pela primeira vez à vida
já não sou um caso pessoal
mas sim a própria pessoa.

in "Rosa dos Ventos"
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Mensagem Enviada: Dom Nov 03, 2019 22:42     Assunto : Responder com Citação
 
Um lindo soneto de Florbela Espanca...

A Mulher

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosas duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
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