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Espaço da Poesia
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Beladona
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Mensagem Enviada: Ter Abr 24, 2007 22:20     Assunto : Espaço da Poesia Responder com Citação
 
Local especialmente destinado � poesia e � prosa,que mais nos tocaram ou que lemos e que queremos aqui compartilhar com todos

Editado pela última vez por Beladona em Seg Abr 30, 2007 19:58, num total de 2 vezes

 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Ter Abr 24, 2007 22:35     Assunto : Responder com Citação
 
Tomo a liberdade de passar a transcrever um soneto de uma poetisa que me é muito querida:Forbela Espanca do seu livro Sonetos

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto,é ser maior
Do que os homens!Morrer como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além-Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome,é ter sede de Infinito!
Por elmo,as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te,assim,perdidamente...
É seres alma,e sangue,e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Seg Abr 30, 2007 23:10     Assunto : Responder com Citação
 
Cá estou eu de novo com 3 sonetos do nosso maior poeta,o grande e ilustre Luís de Camões .Do livro:

Sonetos de Luís de Camões

Soneto 17


Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence,o vencedor;
É ter com quem nos mata,lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

-------//-------

Soneto 19

Erros meus,má fortuna,amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.

Tudo passei;mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa (a) que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh,quem tanto pudesse que fartasse
Este meu duro génio de vinganças!

------//------


Soneto 21

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado,
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu,que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo,rústico,enganado,
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra,o mar e o vento,
Busque riquezas,honras a outra gente,
Vencendo ferro,fogo,frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso formoso gesto dentro na alma.

----//----
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Dom Mai 06, 2007 23:18     Assunto : Responder com Citação
 
De David Mourão-Ferreira passo a transcrever o soneto:

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos.E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a vida nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.
 
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Anjo de Sangue Azul
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Mensagem Enviada: Qui Mai 10, 2007 07:39     Assunto : Bernardo Soares Responder com Citação
 
Vou contribuir com uma coisita do Bernardo... um rapaz lá da minha da minha freguesia...
Lê-se quase como o Verdadeiro Capa de Aço, sem cebolas...
Confesso que perfiro de bem longe a sua escrita à dos seus restantes primos, tipo o Álvaro ou o Alberto.

Citação:
Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.
Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é.
Não choremos, não odiemos, não desejemos...
Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa Imperfeição...


Citação:
A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor... Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade...


Citação:
Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria... E assim como ela era duas - de realidade que era, a ilusão - assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não ele próprio, se o incerto outro viveria...


Citação:
O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas, sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.


Citação:
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos...


Citação:
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.


Citação:
Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê...

_________________
Pie Jesu Domine, dona eis requiem.
Feliz aquele que pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra. (Salmos 137:9)
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Qui Mai 10, 2007 23:58     Assunto : Responder com Citação
 
Caro Anjo de Sangue Azul,vejo que tem muito bom gosto no que se refere à poesia,as suas citações são lindas e profundas

Tomo a liberdade de passar a transcrever do poeta José Régio

Cântico Negro

"Vem por aqui"-dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços,e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem:"vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há,nos meus olhos,ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não,não vou por aí!Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis:"vem por aqui ?"
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos,arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo,foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como,pois,sereis vós
Que me dareis impulsos,ferramentas,e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre,nas vossas veias,sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos,as torrentes,os desertos...

Ide!Tendes estradas,
Tendes jardins,tendes canteiros,
Tendes pátrias,tendes tectos,
E tendes regras,e tratados,e filósofos,e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a,como um facho,a arder na noite escura,
E sinto espuma,e sangue,e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam,mais ninguém.
Todos tiveram pai,todos tiveram mãe;
Mas eu,que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah,que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:"vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí!
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Qui Mai 24, 2007 20:15     Assunto : Responder com Citação
 
Passo a transcrever de Fernando Pessoa o soneto:



EM BUSCA DA BELEZA

I



Soam vãos,dolorido epicurista,

Os versos teus,que a minha dor despreza;

Já tive a alma sem descrença presa

Desse teu sonho,que perturba a vista.



Da Perfeição segui em vã conquista,

Mas vi depressa,já sem a alma acesa,

Que a própria ideia em nós dessa beleza

Um infinito de nós mesmos dista.



Nem à nossa alma definir podemos

A Perfeição em cuja estrada a vida,

Achando-a intérmina,a chorar perdemos.



O mar tem fim,o céu talvez o tenha,

Mas não a ânsia da Coisa indefinida

Que o ser indefinida faz tamanha.
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Dom Jun 10, 2007 00:00     Assunto : Responder com Citação
 
Hoje é dia de Portugal,de Camões e das Comunidades,apesar de ser um feriado republicano,não posso deixar de transcrever para este dia uma das mais conhecidas passagens do Canto Primeiro do poema do nosso grande Camões:

Os Lusíadas

Canto Primeiro

I

As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos,e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino que tanto sublimaram;

II

E também as memórias gloriosas
D'aqueles Reis,que foram dilatando
A Fé,o Império,e as terras viciosas
De África,e da Ásia andaram devastando;
E aqueles,que por obras valorosas
Se vão da lei da morte libertando-
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte!

III

Cessem do sábio Grego,e do Troiano
As navegações grandes,que fizeram;
Cale-se de Alexandre,e de Trajano
A fama das vitórias,que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano
A quem Neptuno,e Marte obedeceram;
Cesse tudo o que a Musa antiga canta-
Que outro valor mais alto se alevanta!

...
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Dom Jun 10, 2007 23:11     Assunto : Responder com Citação
 
Como este Dia de Portugal,das Comunidades e de Camões foi celebrado em Setúbal,tomo a liberdade de transcrever um soneto do nosso intitulado príncipe dos poetas pré-românticos, oriundo desta linda terra da margem sul do Tejo: Manuel Maria Barbosa du Bocage

[/b]Sentimentos de contrição,e arrependimentos da vida passada[b]

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões,que me arrastava;
Ah!Cego eu cria,ah!mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal,que a vida em sua origem dana.

Prazeres,sócios meus,e meus tiranos!
Esta alma,que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:

Deus,oh Deus!...Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Jul 27, 2007 20:58     Assunto : Responder com Citação
 
Hoje como estou com um imenso sentimento de perda vou transcrever um soneto de Florbela Espanca que muito se identifica com este meu momento:

NEURASTENIA

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim ave-marias!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza...

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza...

Chuva...tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento...tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!!...

(in memoriam... ...)
 
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