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Índice do Fórum : Cooperativismo
Razões deste Sub Espaço
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iznoguud
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Mensagem Enviada: Sex Set 28, 2007 14:04     Assunto : Razões deste Sub Espaço Responder com Citação
 
Meus caros amigos,

A Administração decidiu, após ter falado com o nosso amigo Arnaldo, pelo estabelecimento de uma secção própria sobre o Cooperativismo, de modo a que se possa então discutir, apresentar e debater propostas concretas neste âmbito.

Peço assim ao Arnaldo que inicie as "hostilidades" apresentando o seu Projecto ponto por ponto.

Peço aos demais membros, que participem, questionem, digam de sua justiça de modo a que este projecto possa avançar, pelo menos em questão de debate.

Um muito obrigado,

IzNoGuud
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nau
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Mensagem Enviada: Sex Set 28, 2007 22:53     Assunto : Responder com Citação
 
Asstº.: CECIM, por que não?

Notas preliminares


1. Centro de Estudos! Soa a coisa muito formal, mas a ideia era apenas de um espaço onde se pudesse encontrar certas respostas, mesmo que estas carecessem de um aprofundamento posterior. Segundo Lady Bracknell (“Importância de Ser Ernesto”, de Óscar Wilde) o homem deve ter conhecimento de todas as coisas ou de nada, embora ela reprovasse frontalmente tudo o que pudesse perturbar a natural ignorância do homem. No entanto, acho que o meio termo é mais razoável.
2. De inspiração monárquica? Então o Cooperativismo não defende uma neutralidade política total? De facto, na 90ª Conferência Internacional do Trabalho, da OIT, que teve lugar em Genebra, Suiça, a 20 de Junho de 2002, voltou a ser repetido, entre outros princípios históricos, que as cooperativas se encontram abertas a todas as pessoas, sem discriminação social, racial, política ou religiosa, mas ... birds of a feather flock together, versão portuguesa: se dá para a esquerda, também dá para a direita e, nos nossos dias, esquerda/direita só dá para a instrução militar.
3. Cooperativismo. Todos nós temos ouvido este chavão centenas de vezes! As Nações Unidas, quando nada têm a dizer, falam da cooperação entre os povos. No entanto, ainda há muita gente que confunde o Cooperativismo com o Colectivismo: o primeiro é um sistema associativo que, na entre-ajuda, diligencia combater quer o Capitalismo Liberal, quer o Capitalismo de Estado; o Colectivismo procura tornar os meios de produção comuns a todos os membros da sociedade, isto é, Colectivismo=Capitalismo de Estado.
4. Agora era chegada a altura de falar dos princípios de Rochdale, Inglaterra, enunciados no longíquo ano de 1844. Tal não farei por considerar uma vergonha que, mais de século e meio depois, existam em Portugal cerca de 3000 cooperativas, não pela ineficiência das existentes, mas pela manipulação política e excessos burocráticos que se tem praticado ao longo destes anos.
5. Um pequeno grupo de amigos está a considerar a hipótese de constituir uma cooperativa e já prometeu facultar relatos circunstanciados das diligências que está a efectuar. Convido os meus caros correligionários a igualmente partilharem as vossas experiências, ou simples dúvidas e reflexões, que permitam o reforço do associativismo em Portugal.

Saudações cooperativistas,

Arnaldo(nau)
 
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nau
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Mensagem Enviada: Qua Out 03, 2007 07:39     Assunto : Responder com Citação
 
II – CECIM, por que não?


Asstº.: A hora 0


1. Ainda não é desta vez que vos trago os relatos das reuniões dos meus amigos. Segundo apurei, a dificuldade reside no local de reunião (em casa é demasiado ... caseiro; local público, não existe ambiente adequado ao debate de ideias, à troca de opiniões ...). Embora Carlos tenha insistido em que se redigisse uma acta (cheira-me a Gestão!), todos concordaram e ninguém se prontificou a fazê-lo.
Na fase dos preliminares, é importante haver alguém que saiba tratar de papeis a fim de não só registar as ideias avançadas, mas também criar uma disciplina nos trabalhos, um embrião de estrutura para as próximas actividades. Na reunião informal, muitas sugestões foram apresentadas: a Eduarda propôs um serviço para assistência a idosos (cheira-me a Serviço Social); Diogo reconverteu a ideia da Eduarda numa espécie de Centro de Dia (cheira-me a politiquice); Bernardo evidenciou preocupações culturais, embora sem definir bem o seu pensamento; Alberto, entusiasmado com as ideias ventiladas, de imediato propôs uma quete entre os presentes para se arranjar um “buraco” onde dessem início a qualquer actividade.
Embora não tenha sido um êxito, parece que a reunião foi muito agradável, cheia de ditos espirituosos e intervenções marginais. Segundo uma maliciosa brasileirinha, o português começa sempre com uma historieta, acaba com uma anedota e no meio, nada. Nesta reunião, o próprio Carlos não conseguiu pôr uma ordem nos trabalhos! Mas os ânimos não esfriaram. Vejamos o que nos traz os próximos episódios.
2. A associação define-se como um grupo de pessoas que se une tendo em vista um determinado objectivo, isto é, a prossecução do interesse comum. Logo a determinação exacta desses interesses será o primeiro passo a dar para se decidir que tipo de associação deverá ser implementado.
De facto, quando temos consciência de que, sozinhos, não nos é possível atingir determinados propósitos, procuramos alguém com quem nos possamos associar, aclarando ideias, harmonizando estratégias, estabelecendo caminhos. Depois decidimos que tipo de organização pretendemos construir: com fins meramente comerciais, isto é, o objectivo é o lucro (sociedade por quotas, colectivas, unipessoais) ou com preocupações puramente sociais (fundações, cooperativas, associações).
Algumas organizações meramente comerciais vêem nos partidos potenciais clientes e actuam em sectores por regra lucrativos (construção, instituições financeiras, serviços ...); as fundações e as cooperativas, com preocupações unicamente sociais, procuram atenuar os efeitos da partidocracia e da timocracia apelando aos valores éticos que não aos “clubísticos e egoísticos” da população.
Por outro lado, as fundações vivem de legados (individuais, familiares ... )com actividades de reconhecido interesse público, mormente culturais e/ou caritativos, enquanto que as cooperatias, com características muito particulares (salientamos as democráticas e pedagógicas) actuam nas mais variadas áreas: consumo, produção, cultura, etc.. Qualquer das actividades discutidas pelos meus amigos (Eduarda, Carlos ... ) têm pernas para andar no sector cooperativo, o importante é a perseverança e a organização sistemática dos projectos.


Arnaldo (Nau)
 
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iznoguud
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Mensagem Enviada: Qui Out 04, 2007 13:47     Assunto : Responder com Citação
 
nau escreveu:
...3. Cooperativismo. Todos nós temos ouvido este chavão centenas de vezes! As Nações Unidas, quando nada têm a dizer, falam da cooperação entre os povos. No entanto, ainda há muita gente que confunde o Cooperativismo com o Colectivismo: o primeiro é um sistema associativo que, na entre-ajuda, diligencia combater quer o Capitalismo Liberal, quer o Capitalismo de Estado; o Colectivismo procura tornar os meios de produção comuns a todos os membros da sociedade, isto é, Colectivismo=Capitalismo de Estado.


Posso arriscar-me a dizer que o que Chavez pretende para a Venezuela seja um Colectivismo ou Capitalismo de Estado, nesse caso?

Um abraço e desculpem a demora,

IzNoGuud
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iznoguud
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Mensagem Enviada: Qui Out 04, 2007 13:59     Assunto : Responder com Citação
 
nau escreveu:
...2. A associação define-se como um grupo de pessoas que se une tendo em vista um determinado objectivo, isto é, a prossecução do interesse comum. Logo a determinação exacta desses interesses será o primeiro passo a dar para se decidir que tipo de associação deverá ser implementado.
De facto, quando temos consciência de que, sozinhos, não nos é possível atingir determinados propósitos, procuramos alguém com quem nos possamos associar, aclarando ideias, harmonizando estratégias, estabelecendo caminhos. Depois decidimos que tipo de organização pretendemos construir: com fins meramente comerciais, isto é, o objectivo é o lucro (sociedade por quotas, colectivas, unipessoais) ou com preocupações puramente sociais (fundações, cooperativas, associações).
Algumas organizações meramente comerciais vêem nos partidos potenciais clientes e actuam em sectores por regra lucrativos (construção, instituições financeiras, serviços ...); as fundações e as cooperativas, com preocupações unicamente sociais, procuram atenuar os efeitos da partidocracia e da timocracia apelando aos valores éticos que não aos “clubísticos e egoísticos” da população.
Por outro lado, as fundações vivem de legados (individuais, familiares ... )com actividades de reconhecido interesse público, mormente culturais e/ou caritativos, enquanto que as cooperatias, com características muito particulares (salientamos as democráticas e pedagógicas) actuam nas mais variadas áreas: consumo, produção, cultura, etc.. Qualquer das actividades discutidas pelos meus amigos (Eduarda, Carlos ... ) têm pernas para andar no sector cooperativo, o importante é a perseverança e a organização sistemática dos projectos...


Poderei então inferir que o CECIM, não seria mais do que uma base para outros Projectos, que sem serem especificamente monárquicos, poderiam/deveriam ser utilizados por estes de modo a organizar uma rede de Cooperativas que se sustentam a si mesmas, enquanto promovem acções de elucidação do que seria uma Monarquia para Portugal.

Creio que já mo tinhas dito, se desta forma ou de outra não me lembro, por isso corrige-me se for esse o caso.

Um abraço,

IzNoGuud
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nau
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Mensagem Enviada: Sex Out 05, 2007 08:13     Assunto : Responder com Citação
 
Caro IzNoguud,

Confesso não ter acompanhado, com a devida atenção, a génese do Presidente Chavez, mas já me apercebi que não existe muita cultura política para aqueles lados ... O caudilhismo populista que ele encarna é uma revanche ao colonialismo praticado pelos EUA no Novo Continente e, como um neófito nestas coisas políticas, Chavez deita mão a tudo que possa servir como arma de arremesso.
Após as nacionalizações, é natural que Chavez transforma as empresas que lhe caíram aos pés em UE´s (unidades estatais) nomeando diligentes comissários que, neste momento, engrossam a sua entourage, mas, para evitar confrontos com os movimentos religiosos cristãos (igualmente populistas naquela área) é provável que evite o termo colectivista e se mostre simpatizante de qualquer surto cooperativo. Os ideólogos da revolução têm uma referência (Fidel/Cuba), um objectivo (fugir da tutela norte-americana), o povo é o folclore local.
É bom chamar a atenção para os perigos “chavescos”, fenómeno possível pela emergência de novos contendedores (China, Índia e a russiana Fénix) na arena internacional, com a esperança de que as eventuais cooperativas que para lá se fundarem sirvam como escola democrática para o desenvolvimento do espírito associativo, e paermitam o robustecimento da solidariedade social.

Saudações cooperativista,

Arnaldo (Nau)
 
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nau
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Mensagem Enviada: Sex Out 05, 2007 11:57     Assunto : CECIM Responder com Citação
 
Caro IzNoguud,

Sem dúvida que o CECIM é um pequeno passo no sentido de motivar os nossos correligionários a trabalhar em grupo. O movimento cooperativo tem raizes em Portugal, como poderei provar pela transcrição de um texto que tenho algures (ainda o hei-de encontrar!) de interesse bastante actual. Entretanto,

Saudações cooperativistas,


Arnaldo (Nau)
 
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nau
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Mensagem Enviada: Sex Out 05, 2007 17:50     Assunto : CECIM - III Responder com Citação
 
CECIM, por que não?


Asstº.: Contributos para a Histório do Cooperativismo em Portugal


Para quem se interessa por factos históricos, transcrevo alguns trechos do poeta e cooperativista batalhense José Travaços Santos:

“É de estranhar e de lamentar que instituições como as Bolsas Marítimas e os Celeiros Comuns (o mesmo acontece com a originalíssima Casa-dos-Vinte-e-Quatro) tenham merecido, por parte de quem escreve História, tão diminuto interesse, ao ponto de só encontrarmos, sobre elas, breves e apagadas referências em tantas obras que consultámos”

“A instituição que, em Portugal, primeiro nos sugere uma sociedade cooperativa, é a Bolsa Marítima, compromisso entre mercadores e armadores, com uma finalidade de seguro mútuo, que acode às vítimas dos infortúnios do mar. Esboçada no reinado de D.Dinis, concretizada na Bolsa de Flandres, vem ter um grande incremento no reinado de D. Fernando I – periodo em que se fundam as de Lisboa e Porto.

“As Mútuas de Gado, em particular as dos carreteiros dos arredores do Porto, ainda há pouco tempo subsistentes nalguns pontos do País (tínhamos na nossa região [Batalha] a da Torre de Magueixa), bem como os Acordos de Lavradores, dos arredores de Coimbra, foram, como as Bolsas Marítimas, as antepassadas das sociedades cooperativas de seguros.”

“Em meados do século XVI, no reinado de D. Sebastião, mas provavelmente com origem no tempo de el-Rei D.Dinis, desenvolveram-se as antepassadas das cooperativas de crédito: os Celeiros Comuns. Extraordinariamente espalhadas no século XVII, em especial no Alentejo onde chegou a haver mais do que um par por concelho, eram ainda florescentes, há pouco mais de cem anos, em Évora e Beja e nalgumas povoações da Estremadura. Emprestavam trigo para semear ou para comer, mediante o prémio anual de 3 a 6 alqueires por moio. Os Celeiros, quando eram património municipal, empregavam a maior parte desses acréscimos em obras de interesse público”.

“Um decreto de 14 de Outubro de 1852 tentou reanimar estas instituições, sem outro resultado além do que alcança a maior parte dos decretos ...”

“O cooperativismo moderno organizou-se oficialmente, no nosso País, no reinado de D. Luis I. Em 1867, o Governo regularizou a constituição das cooperativas, isenta-as de impostos e reconhece publicamente as suas vantagens. Deve-se, sobretudo, à acção do ‘Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas’, desenvolvida principalmente entre 1856 1867, o resultado obtido neste último ano e a atenção que o Governo da época e o bom Rei D. Luis dispensaram ao cooperativismo renascente”

“ ... Mercê dos esforços persistentes de homens verdadeiramente interessados na emancipação económica-social do povo e cônscios dos métodos conducentes à sua realização, dentre os quais destacamos o Dr. António Sérgio, antigo Ministro da Instrução, ensaísta dos maiores da Língua Portuguesa, fundador do ‘Boletim Cooperativo’, autor de valiosos estudos e trabalhos de divulgação, há pouco falecido, e os Dr. Faustino Cordeiro e Prof. J. Dias Agudo”.

(in “Vamos Fundar uma Cooperativa”, Leiria, 1969)


Saudações cooperativistas,

Arnaldo (Nau)
 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Out 05, 2007 18:57     Assunto : Responder com Citação
 
Tomo a liberdade de transcrever um trabalho que li na net apresentado pelo senhor professor catedrático de sociologia rural José Portela na DES-UTAD (Departamento de Economia e Sociologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) em 1999, e que no meu modesto e incipiente entender sobre esta questão, achei que poderia ser de interesse.

Neste trabalho são focados nomes de especialistas nesta área, dos quais o autor deste trabalho se socorreu, mas por ser uma bibliografia muito extensa por princípio não vou colocar:

Quatro bons velhos caminhos para o Cooperativismo?

Comunicação preparatória do Congresso das Cooperativas Portuguesas

"O Cooperativismo no Novo Milénio: A Vantagem Cooperativa"

Lisboa, 16-17 de Abril de 1999

José Portela

DES-UTAD


Introdução
[b]

Este texto visa contribuir para a preparação e animação do Congresso "O Cooperativismo no Novo Milénio: A Vantagem Cooperativa". Dos três sub-temas do dito Congresso tomo, aqui, o primeiro, ou seja "As Cooperativas e a Globalização dos Mercados".

É claro que os organizadores do Congresso desejam que os participantes reflictam acerca dos caminhos a percorrer pelo movimento cooperativo no futuro próximo, mas para tanto importa escrutinar tanto o presente da "globalização dos mercados", que nos envolve, como o passado do cooperativismo nacionalista, quiçá não tão ausente quanto suspeitamos ou desejamos. E não menos importante será observar ainda os últimos 25 anos de Cooperativismo.

Tendo em conta a sua finalidade, este texto é necessariamente breve e inquiridor, aludindo a tais passados e presente, e sugerindo, por fim, quatro bons velhos caminhos a explorar de novo pelo Cooperativismo. Visa-se, sobretudo, suscitar reflexões, perguntas e respostas dos cooperativistas, mais do que formular sugestões e propostas do autor.

Cooperativismo: o que há de futuro no seu passado?

O passado tanto é portador de futuro como de elementos que o negam. Para se abrirem caminhos novos importa, portanto, examiná-lo, mesmo sumariamente. Para tanto comecemos por delimitá-lo.

O passado do Cooperativismo em Portugal é já bastante longo e heterogéneo. Segundo Leite (1993: 41) podemos distinguir na história do movimento cooperativo português três períodos: a fase paternalista, de 1848 até à 1ª República. Nesta era distante acha-se a bem intencionada ingerência dos poderes públicos na eclosão do movimento. Segue-se a fase intervencionista durante todo o Estado Novo, tempo durante o qual se trava, ou se fomenta de modo controlado, a actividade das cooperativas. Estas, em particular as agrícolas e as de consumo, são mantidas sob a alçada do Código Comercial e as cooperativas culturais são combatidas através do Dec.Lei 520/71 de 24 de Novembro. Temos, por fim, a fase de consolidação e desenvolvimento, a qual se inicia com o 25 de Abril.

Segundo o autor referido, nesta fase distinguem-se três sub-períodos: um primeiro, que é animado pelo gozo da liberdade de expressão e associação e que se traduz numa proliferação exuberante de organizações cooperativas, um outro tempo intermédio, em que o Estado, indo a reboque do movimento popular, procura enquadrá-lo e apoiá-lo, criando para o efeito instrumentos como a Comissão de Apoio às Cooperativas, INSCOOP e o Código Cooperativo; por fim, um sub-período que se inicia com a década de 90 em que o Estado procura passar para as Confederações Cooperativas e restante estrutura vertical, a responsabilidade pelo desenvolvimento do sector.

Com vista ao futuro imediato, urge olhar, com olhos de ver, pelo menos o passado próximo-a fase intervencionista e a de consolidação e desenvolvimento-para assim o superar. É curial avaliar com rigor se nas várias etapas do caminho feito as cooperativas gozaram de um ambiente político-institucional favorável, ou carregado de indiferença, ou, quiçá, pleno de hostilidade. Relativamente ao Cooperativismo post-25 de Abril, perguntemos, então: têm sido respeitados os princípios fundamentais da Constituição respeitantes à autonomia e protecção do sector cooperativo (Artigo 80º)? Face aos sectores público e privado, não tem sido o sector cooperativo objecto de discriminações inconstitucionais, nomeadamente ao ser impedida a actividade cooperativa em vários sectores económicos (bancário, segurador, agências de viagens, transporte internacional de mercadorias)?

Ora, como fazem notar Barros (1993) é certo que "a análise da realidade nos conduz à constatação de que foi uma constante, por parte dos diferentes tipos de poder o "paternalizar" ou "intervir" no movimento cooperativo, de acordo com os objectivos políticos que perseguiam. E foi seguindo este tipo de política que as cooperativas agrícolas (...) foram consideradas, mesmo em texto de lei, como "instituições anexas" dos Grémios da Lavoura, estes sim, entendidos como a única organização corporativa representativa da lavoura e dos produtores. Para as cooperativas ficou "apenas" o papel de regulador de preços e de escoamento de produção-afinal a face económica-que na grande maioria dos casos funcionou a contento, enquanto a sua função social foi completamente anulada".

Assim sendo, importa responder a questões como as seguintes: que lições se podem extrair do passado quanto à relação entre o Estado e as cooperativas, particularmente tendo em vista a actual abertura de fronteiras e a redefinição (corrosão?) dos papéis daquele? Até que ponto a subversão profunda dos ideais cooperativos, por via do paternalismo político e do corporativismo, permanece como "viscosidade histórica" no aparelho de estado e nas estruturas cooperativas actuais? Para além da atmosfera exterior, que dizer do ambiente nas organizações cooperativas, designadamente os modos de funcionamento e as formas de liderança?

As viscosidades históricas serão ainda, por certo, consideráveis. Note-se, desde já, que ainda hoje há dirigentes que se referem à sua organização como a adega "corporativa". E, segundo Caldas (1998:568) "muitos dos Grémios, (...), passaram a Cooperativas" sem pena nem glória, mantendo em geral, as mesmas estruturas e condições de funcionamento. A cúpula do sistema corporativo, que se apresentava como detentora de funcionamento. A cúpula do sistema corporativo, que se apresentava como detentora da representatividade-a Corporação da Lavoura-deu origem a numerosas e diversas simulações do fenómeno associativo, que nunca alcançou expressão democrática nem se afigura ainda efectivamente estruturado".

Da herança recebida, que trastes velhos importa remover? Entre outros indicaria: a falta notória de reconhecimento social da dedicação e zelo de certos associados, sobretudo dirigentes; uma indiferença abissal quanto à educação geral e formação específica dos líderes e quadros técnicos, designadamente ao nível das capacidades de diálogo, organização, liderança, representação e negociação; o isolamento das organizações cooperativas, no plano nacional e europeu; e uma certa acomodação a situações de dependência enraizadas num passado de intervencionismo estatal.

O que fazer para que os efeitos perversos do passado próximo não se prolonguem pelo novo milénio adentro? E como fazer crescer o caudal dos efeitos benéficos de ontem? Em suma, o que há de futuro no passado do Cooperativismo?

Cont....
 
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nau
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Mensagem Enviada: Sex Out 05, 2007 20:36     Assunto : CECIM, por que não? Responder com Citação
 
Caríssima Beladona,

Muito e muito obrigado pelo seu valioso contributo. Só a introdução que nos facultou já nos vai permitir uma boa reflexão sobre o tema em debate. Fico na expectativa das próximas revelações.

Por razões particulares, sou forçado a procurar refúgio no meu bunker no Baixo Alentejo onde o acesso regular à Internet é muito complicado, mas em meados da próxima semana já estarei apto a voltar ao assunto. Até lá, os meus respeitosos cumprimentos e

Saudações cooperativistas,

Arnaldo (Nau)
 
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