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Índice do Fórum : Espaço Cultural
Lendas de Portugal
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Beladona
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Mensagem Enviada: Seg Dez 17, 2018 00:39     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda da Capela de Nossa Senhora do Testinho no Olival

In diversas fontes da net.

No Estreito, aldeia da freguesia situada na extremidade que confina com a de Freixianda do concelho de Ourem, está a capela denominada de Nossa Senhora do Testinho, à qual anda ligada uma tradição popular, que tem todos os requisitos de ser um facto histórico que é o seguinte:

O conde de Castelo Melhor, D. Luís de Souza e Vasconcellos, ascendente dos marqueses do mesmo título, sendo perseguido pelos fidalgos da corte de D. Pedro II (que fora aclamado rei, a 1 do Setembro de 1683, no próprio dia em que falecera, preso nos paços reais de Sintra, o seu infeliz irmão, D. Afonso VI) sendo perseguido, digo, logo nesse mesmo ano, por ser amigo e valido do monarca falecido, fugiu de Lisboa e foi asilar-se na aldeia do Estreito (que é cercada por uma vasta charneca) e que aí, disfarçado com trajos de lavrador, passara alguns meses, vivendo na casa de uma pobre família, empregando-se nos serviços rudes do campo.

Julgava-se o conde assim a coberto da perseguição dos seus inimigos, porém, acontecendo passar pelo local três cavaleiros idos de Lisboa (talvez com o propósito de o procurar) e na ocasião em que o conde seguia um lavrador que conduzia uma carrada de mato e vendo que os cavaleiros reparavam muito nele, se foi disfarçadamente esconder num vale por onde corre uma fonte.

Os cavaleiros instaram com o lavrador, para que lhes dissesse se aquele era com efeito o conde e lhes indicasse o sítio para onde teria ido, ao que o lavrador respondeu: Que nem aquele era conde, mas um lavrador do lugar, nem sabia para onde tinha ido e, reatou o caminho para o sítio onde sabia que o conde estava escondido, descarregou sobre ele toda a carrada de mato, frustrando assim as pesquisas dos cortesãos, que desesperançados de encontrarem o conde, se foram por onde tinham vindo.

O conde, saindo então do seu esconderijo, declarou que tinha escapado por milagre de Nossa Senhora do Testinho, de cuja imagem andava sempre acompanhado e logo ali fez voto de lhe construir uma linda capela, naquele mesmo lugar e de a dotar com os meios necessários, para se rezar missa nos domingos e dias sanctificados.

O conde cumpriu a promessa construindo a capela e os seus descendentes têm cumprido religiosamente a promessa do seu ascendente, cuidando da sua manutenção e culto divino. Actualmente ainda ali se rezam missas nos dias dessa Nossa Senhora.

José Dias Antunes, bisneto do lavrador que encobriu o conde, também ajuda na administração dos rendimentos da capela e cuida também da sua manutenção e culto.

Para corroborar esta tradição, está á entrada da capela a seguinte inscrição:

AQUI ESTEVE
LUIZ DE SOUSA E VASCONCELLOS,
CONDE DE CASTELLO MELHOR, POR MUITAS
SEMANAS. O QUAL, INVOCANDO
O SANTISSIMO NOME DE
NOSSA SENHORA DO TESTINHO,
TEVE A SUA DEFESA.
1683

Consta que existe no cartório da família Castelo Melhor, um documento que prova a tradição.


 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Seg Dez 17, 2018 21:39     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda da Promessa de Dona Beatriz

In diversas fontes da net.

A noite começara a descer. Uma noite de Agosto, havia uma calma aparente, cantavam os ralos, passeavam os mouros que tinham ficado na povoação perto de Silves mas afastados da cidade por precaução, iam e vinham como formigas, ao encontrar-se paravam, comunicavam entre si algo que sabia a segredos e continuavam o caminho, porém, a nova assim espalhada não era mistério para os soldados de D. Afonso III, eles calculavam que alguém soubera que o rei e a jovem rainha D. Beatriz se encontravam em Silves, D. Beatriz comportara-se como criança mimada que era e insistira em vir conhecer uma terra tão cobiçada pelos portugueses e por seu pai o rei de Castela. Mas os mouros viam nesse desejo puramente feminino o prenúncio de qualquer opressão e a revolta surda começou a surgir.

Montando a cavalo, um dos chefes portugueses foi a Silves avisar do que se passava.

Entretanto, um mouro já velho correu a uma barraca meio escondida nos rochedos junto ao mar e perto de Armação de Pera. Antes de entrar, verificou se alguém o seguia. E só depois chamou baixinho:

— Zaida! Zaida!

Uma jovem de porte distinto, mas vestida com simplicidade, assomou à entrada.

— És tu, Abdul?

— Sou. Preciso falar-te.

— Entra!

O mouro entrou. Estava excitado. Ela assustou-se.

— Que aconteceu? Como está o João?

— Nada sei do que lhe pode ter acontecido. Sabemos que está cativo em Silves e que se deixou baptizar. Porém… algo se passa por lá!

— Como o sabes?

— Todos o dizem! O rei português e a rainha chegaram a Silves.

— Para fazer o quê?

— Isso é o que não sabemos!

— Se houvesse perigo o João tentaria avisar-nos.

— Ele agora é cristão!

— Mas cativo e ama-nos!

— A ti sim. Mas a nós... Acreditas tanto na sua palavra?

— Mais do que na minha!

— Ele está perto e não mais te procurou.

— Jurei-lhe que não sairia daqui. Sabe que cumprirei a minha promessa e ninguém me verá antes que ele venha buscar-me!

— Olha que se os soldados te vêem...

— Há por aí mulheres!

— Mas nenhuma tão bela como tu!

— Deixa isso agora!

— Bem sabes que é verdade! Até o nosso povo te admira. E pensa que terias melhor sorte se fugisses para África e deixasses o renegado.

Zaida impacientou-se.

— Abdul, não fales assim do João! Se ele se fez baptizar é porque acredita estar dentro da verdade. Ambos sofremos horrores com a separação. Lembra-te de como ele se bateu ao lado do governador! Mas Aben-Afan morreu… e ele não quis abandonar o seu corpo. Fizeram-no prisioneiro. Sabes tão bem isto como eu. Porque duvidas agora?

— Não me conformo com o seu baptismo! João... Um nome cristão! Para mim, é como se fosse outro homem!

Zaida meneou a cabeça.

— Abdul! Foi para me dizeres isso que vieste aqui?

— Não. Quero-te como se fosses minha filha e receio pela tua vida e pela tua honra!

— Por mim?

— Sim. Isto não anda bom. Vai acontecer qualquer coisa... Vai acontecer, pressinto-o! Que Alá nos proteja!

— E que pretendes que eu faça?

Abdul baixou ainda mais a voz.

— Esta noite, à primeira hora do dia de amanhã, deve chegar ao largo um barco vindo de África. Alguns dos nossos vão sair com um barquito até ao largo, para fugirem. Segue tu com eles!

Zaida ripostou, enérgica:

— Eu fico! Só sairei daqui por ordem do João.

— E se eu te trouxer essa ordem?

— Nesse caso, vou.

— Pois crê que será essa a sua vontade.

— Não, não posso crer! A sua vontade terá de revelar-se pela única forma que ficou combinada entre nós.

— Qual é?

Zaida sorriu.

— Perdoa, Abdul! É segredo entre nós os dois. Só entre nós os dois!

A conversa foi subitamente interrompida. Na estrada uma cavalgada fazia-se ouvir. Vinha das bandas de Silves. Abdul sobressaltou-se:

— Aí estão eles! Fomos descobertos. O barco já não poderá sair. Malditos cristãos!

Zaida não respondeu. Abdul segredou:

— Fica onde estás. Tenho de ir falar com os outros.

Esgueirou-se por entre os rochedos da praia. O luar iluminava agora em cheio todo o local. De repente deu-se o alarme. Alguém gritou:

— Olhem aquele homem que corre na praia! Deve ser dos tais que iam fugir!

Logo um tropel se fez ouvir nessa direcção. Zaida sentiu o coração bater-lhe no peito e espreitou. Alguns cavaleiros corriam junto à praia. Pararam. Desmontaram e perseguiram o fugitivo. Por fim um deles gritou para cima:

— Já avistámos o homem! Deve ser dos tais! Decerto ia preveni-los!

Outra voz respondeu perto da cabana de Zaida:

— Agarrem-no e tragam-no, para que os outros o vejam!

Ouviu-se um burburinho. A voz da praia gritou:

— O homem deitou-se ao mar!

O que devia ser o chefe respondeu:

— Fiquem alguns aí para ver se ele volta! Os outros que sigam comigo!

— Creio que desapareceu nas ondas!

Ouvindo isto, Zaida levou uma das mãos à boca para sufocar um grito. As lágrimas correram-lhe pelo rosto. Perto, a voz que parecia de comando ordenou:

— Revistem esta cabana!

A jovem moura ficou petrificada. Pediram:

— Tragam luz!

Depois de breve hesitação, Zaida saiu ao encontro dos soldados. O luar batia-lhe em cheio. Houve uns momentos de silêncio, tão grande era a surpresa dos cristãos. Um deles disse:

— Senhor! Esta é a mulher mais bela que vi até hoje!

O que parecia ser o chefe concordou:

— É pelo menos, a moura mais bonita que temos encontrado!

E mudando o tom de encantamento:

— Vejam o que está lá dentro da cabana.

A ordem foi cumprida.

— Nada, senhor! Ela devia habitar aqui sozinha.

O chefe meneou a cabeça.

— Não creio. O homem que se atirou ao mar deve ter estado com ela. Trazei-a.

— Levamo-la para a povoação?

— Não. Levai-a para Silves, onde ficará à minha guarda. Eu lá irei ter.

Zaida estava assustada. A manhã nascera radiante. Continuava só, num aposento bem arranjado. Ouviu um tropel de cavalos que se aproximava, pararam. Uma voz já sua conhecida ordenou:

— Podeis voltar aos vossos postos!

Aproximaram-se passos. Por fim, Zaida viu-se em frente do cavaleiro que nessa noite a tinha mandado trazer para ali. Ele lançou a vista em redor do aposento, sorriu e falou-lhe em castelhano:

Vejo que estranhaste a nova residência. Não te deitaste.

O cavaleiro aproximava-se à medida que ia falando. Zaida recuou. Ele teve um gracejo:

— Tal como as pombas, és assustadiça! Mas não te farei mal. És bela demais para que decida já a tua sorte. Acima de mim... está o meu rei!

O peito de Zaida arfava. Ele indagou:

— Não me compreendes? Muitos dos teus me entendem.

Ela falou então pela primeira vez:

— Entendo-te sim. E melhor fora que não te entendesse!

D. Nuno… pois era D. Nuno Gonçalves o chefe da expedição… sorriu:

— Ainda bem que não precisamos de intérprete! Quem te ensinou o castelhano?

— Abdul, o homem que se matou ontem na praia à vossa vista!

— Era teu pai ou teu irmão?

— Era um amigo do meu pai. Já não tenho família.

— Tanto melhor!

— Porquê?

— Serás um belo presente para o nosso rei! Por agora podes descansar. Só voltarei aqui quando pudermos ser recebidos por el-rei D. Afonso.

D. Nuno Gonçalves ainda não estava refeito de uma noite de campanha. Porém o sol batia-lhe no rosto e não o deixava dormir. Indeciso se deveria ou não levantar-se, ouviu que se aproximavam do aposento onde ficara meio vestido a descansar. Perguntou:

— Quem vem aí?

De fora, alguém respondeu:

— A Rainha quer falar convosco imediatamente.

— A Rainha?

— Sim. El-rei saiu e D. Beatriz deseja fazer-vos uma recomendação.

De um pulo, D. Nuno aprontou-se e foi procurar a rainha.

Tão jovem, tão bela era D. Beatriz, que os seus vassalos sentiam sempre o desejo de agradar-lhe.

— Que pedis de mim, Senhora?

D. Beatriz teve um sorriso gaiato.

— Nuno Gonçalves! Chegou ao meu conhecimento uma coisa terrível...

O cavaleiro fez uma reverência.

— Senhora, folgo de ver-vos sorrir, o que me segreda que a coisa a que vos referis não seja assim tão terrível.

A jovem rainha, quase criança, fez um trejeito de amuo. E declarou:

— Julguei que fôsseis um amigo mais dedicado!

— Senhora! Daria a vida por vós!

— Mas pensais em arranjar-me complicações!

— Esclarecei-me, Senhora!

— Ouvi dizer que tendes convosco uma jovem cativa muito bela.

O fidalgo sorriu.

— Mentia se dissesse o contrário.

D. Beatriz olhou-o bem de frente.

— Ela é assim tão bonita como dizem por aí os vossos soldados?

— Julgo que sim.

— A mulher mais bela que tendes visto?

— Depois de vós, Senhora!

D. Beatriz soltou um risinho alegre, quase infantil. E continuou:

— Apesar de me colocardes em primeiro lugar, não desejo ter competidoras. Mandai-a vir aqui. Quero vê-la.

D. Nuno hesitou. A rainha mostrou impaciência.

— Porque esperais?

— É uma ordem?

— Sim, é uma ordem! Quero vê-la imediatamente.

— Pois será feita a vossa vontade.

E D. Nuno, numa vénia deferente, retirou-se e correu a ir buscar a jovem moura, que apareceu seriamente assustada. Ao vê-la, D. Beatriz não sorriu. Semicerrou os olhos, numa pesquisa intensa. Depois voltou-se para o cavaleiro.

— D. Nuno, retirai-vos! Quero ficar só com a vossa prisioneira.

D. Nuno ia fazer qualquer objecção, mas a criança, tornada subitamente mulher, impôs a sua soberana vontade.

— Ficai lá fora se o desejardes, mas retirai-vos!

D. Nuno saiu. Frente a frente, as duas jovens fitaram-se. D. Beatriz perguntou então:

— Sabeis quem eu sou?

Sem acanhamento, talvez até com um tanto de altivez, a jovem moura respondeu:

— Sei. Sois a rainha de Portugal, mulher d’el-rei D. Afonso.

— Sabeis que estais prisioneira?

— Também o entendi.

— Sabeis também o destino que sofrem as mulheres de um povo vencido?

— Sei, mas espero que Alá me proteja!

— Estais demasiadamente serena! Demasiadamente confiante! Acaso vos agrada a companhia de D. Nuno Gonçalves?

Fitando intencionalmente a rainha, Zaida respondeu:

— Senhora! Segundo o que me disse D. Nuno... destinam-me como prenda rara a vosso esposo...

A rainha mordeu os lábios. A sua pouca idade não conseguia disfarçar o despeito.

— Destinam-vos a meu esposo, o Rei?

— Assim o disse D. Nuno.

— E vós… achais bem?

Foi a vez de Zaida se mostrar pouco serena.

— Senhora! Alguma vez amastes com todas as forças da vossa alma?... Não me respondeis, pois nada tendes que responder-me. Mas eu vos juro que sei o que é o amor!

Havia tanta força nas palavras de Zaida que a rainha empalideceu. E foi com ansiedade, calcando o seu próprio orgulho, que perguntou:

— E a quem amais?

A resposta veio pronta:

— A um jovem cativo que se fez cristão e está ao serviço do rei de Portugal.

A rainha respirou fundo…sorriu e perguntou:

— E ele ama-vos?

— Como eu o amo!

Sorriu mais a rainha. Olhou-a já com a gaiatice usual. E declarou:

— Vamos pregar uma partida ao senhor D. Nuno Gonçalves. Como se chama o vosso bem-amado?

— João. Dantes, chamava-se Aben-Ismail.

— Pois bem, vou baptizar-vos! Vou casar-vos com esse tal João que mandarei procurar.

Conseguirei para vós dois a liberdade e ajudar-vos-ei a partir para Espanha, onde el-rei meu pai vos receberá com gosto!

Zaida nem sabia que dizer. A rainha, vendo-a calada perguntou:

— Ficais contente?

Só então Zaida compreendeu bem a extensão da oferta. Beijou uma das mãos da jovem rainha, regando-a de lágrimas e declarou:

— Senhora! Se fizerdes o que me prometestes... tereis a nossa gratidão eterna!

D. Beatriz sorriu.

— Foi uma promessa de rainha! Acreditai que ponho nisso um empenho igual ao vosso. E agora ficai aqui. Que El-Rei vos não veja, nem mesmo D. Nuno Gonçalves! É essa a minha condição, porei uma das minhas damas ao vosso serviço e cedo encontrareis o vosso João e cedo farei de vós um belo presente para os reis de Espanha! Será algo do Algarve que eles muito irão apreciar!

A rainha cumpriu a sua promessa.

Quando os dois namorados se encontraram de novo, choravam ambos como crianças. Nem acreditavam em tamanho milagre. João, o ex-cativo, não compreendia o porquê da magnanimidade da rainha. Porém, D. Nuno Gonçalves, ao saber do que acontecera, sorriu e teve apenas este comentário:

— Do que são capazes as mulheres, quando têm em mente um fim!


 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Jan 18, 2019 22:33     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda de Gaia

In diversas fontes da net.

Ao aludir a narrações lendárias que tiveram curso nas terras da velha Calle não podemos deixar de fazer referência à famosa Lenda de Gaia que serviu de fundo a um poema de Almeida Garrett.

Existe no lugar do Castelo um grande morro fronteiro a Miragaia, onde em tempos se fixou um castro que veio a ser castelo árabe, onde se diz ter vivido um dos reis de Leão, porventura o da lenda.

No referido lugar existe uma rua com o nome do Rei D. Ramiro e também uma fonte, embora mudada de lugar.

Há ainda uma quinta magnífica, muito arborizada, com um pequeno palácio e uma torre antiga, outrora designada como Paço de D. Ramiro.

Mas, o facto militar que parece certo foi a tomada do castelo numa expedição marítima de surpresa quando estava ocupado por um rei mouro, levada a cabo por cavaleiros cristãos.

Todo o resto deve constituir reminiscência de uma lenda amorosa de Salomão, que teve certa popularidade na Europa e tomou vulto através dos ciclos cavalheirescos medievais.

Até chegar à península tal narração deve ter sido adulterada pelas tradições dos povos que a transmitiram e possivelmente adaptaram.

Mas, esta lenda do Rei D. Ramiro, acabou por ter depois grande divulgação.

Na Portugália Monumenta Histórica encontramos narrações desse conto ou espécie de romance.

E pode ver-se que, da recolha da 1ª versão para a 2ª, se alterou bastante o tema, aparecendo com mais detalhes na última.

O Rei D. Ramiro era casado com uma rainha (Gaia) de quem teve um filho, D. Ordonho.

Um rei mouro, Abencadão, foi raptar um dia a rainha em Salvaterra, quando D. Ramiro era rei das Astúrias.

Abencadão trouxe a raptada para um castelo existente no lugar de Gaia e, quando D. Ramiro regressou a casa e não encontrou a mulher, teve nisso muito desgosto.

Combinou com o filho e outros vassalos realizar uma expedição para libertar a rainha e castigar o mouro raptor.

Embarcados em navios vieram até à Afurada, cobertos com panos verdes para se confundirem com as árvores das margens.

Fixaram um ardil para vencer Abencadão e, no seu desenvolvimento, D. Ramiro disfarçou-se de romeiro, levando com ele ocultas, a sua espada e uma buzina.

Estabeleceu com os seus companheiros de armas que acorressem ao castelo quando o ouvissem tocar a buzina. Seguindo depois pela ribeira e por entre as árvores, deixou dentro dos navios apenas os homens precisos para os fazerem navegar.

D. Ramiro quedou-se junto de uma fonte perto do castelo.

Uma donzela que servia a rainha D. Ortiga, foi pela manhã à fonte buscar água a mando dela.
Aí encontrou o romeiro, não o reconhecendo. Ele pediu-lhe água para beber, desejo que ela satisfez.

Aproveitando a oportunidade, D. Ramiro lançou no recipiente da água a metade de um anel que tinha em tempos repartido com a rainha.

Quando D. Ortiga deitava água nas mãos da rainha, nelas caiu a metade do anel.

A rainha confundida, quis saber que pessoa tinha a donzela encontrado.

D. Ortiga negou e a rainha afirmava que ela mentia e, com insistência, acabou a serviçal por relatar que tinha encontrado um mouro doente que lhe pedira água.

A rainha ordenou que o procurasse e lho levasse à sua presença, o que foi cumprido.

Ao ver o romeiro, a rainha inquiriu das razões que o conduziram até lá.

Ele esclareceu que fora o amor dela.

Então a rainha mandou-o recolher na câmara até que Abencadão chegou.

Perguntou-lhe a rainha:

— Se aqui tivesses D. Ramiro que lhe fazias?

Respondeu o rei mouro:

— O que ele me faria. Matava-o.

A rainha intimou D. Ortiga a apresentar D. Ramiro, trazendo-o da câmara.

O rei mouro estabeleceu depois com D. Ramiro o seguinte diálogo:

— És tu o rei D. Ramiro?

— Sou eu.

— A que vieste aqui?

— Vim ver a minha mulher que me roubaste traiçoeiramente... Tu tinhas tréguas comigo e não suspeitava de ti.

Abencadão retorquiu:

— Vieste para morrer, mas quero perguntar-te… Se me tivesses em Salvaterra que morte me darias?

Disse D. Ramiro:

— Dava-te um capão assado e uma regueifa com um copo de vinho. Depois abria as portas do castelo e chamaria todas as gentes para verem como morrerias. Fazia-te subir a um padrão e tocar uma buzina até que perdesses o fôlego.

Abencadão decretou:

— É essa a morte que te quero dar.

Cumprido todo o programa, o rei D. Ramiro do alto do castelo, começou a tocar o corno.
Acorreram seu filho D. Ordonho e os outros parceiros de armas, entrando no castelo sem dificuldade em vista das portas estarem franqueadas.

À chegada dos expedicionários, D. Ramiro lançou mão da sua espada para a eles se aliar na luta para liquidação dos mouros surpreendidos com o golpe. Não ficou pedra sobre pedra.

D. Ramiro levou sua mulher para as barcas com as damas que a serviam. Lá chegado, deitou-se a dormir no regaço da rainha para se refazer daquelas emoções.

A rainha, quando os navios se afastavam, começou a chorar olhando o castelo onde fora feliz.
As lágrimas, caindo no rosto de D. Ramiro despertaram-no.

Perguntou ele porque chorava ela, vindo a saber que era por amor do bom mouro que tinha sido morto.

D. Ordonho que ouviu a resposta, disse ao pai que não a levariam e D. Ramiro, atando-lhe uma pedra ao pescoço lançou-a às águas (Mira-Gaia).

O rei cristão acabou por baptizar D. Ortiga e veio a casar com ela, pondo-lhe o nome de Aldara, nascendo desse enlace um filho, Alboazar. Eis em resumo os traços fundamentais da lenda que ainda hoje perdura e anda mesmo no brasão de armas da terra.


 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Dom Jan 20, 2019 00:16     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda da Formosa Helena

In diversas fontes da net.

Esta é uma história de Outono. Do suave Outono que, com a eclosão dos frutos, todos os anos torna os anseios de todos nós mais fundos, mais vivos, mais humanos...

Sim, é uma história de Outono — no amor, no sacrifício, na nostalgia, a estação que tão bem (e tão simplesmente!) descreveu um dos maiores poetas de Portugal: Augusto Gil.

Outono. Morre o dia.
Cai sobre as coisas plácidas e calmas
Um véu de sombra e de melancolia
Que dulcifica e embrandece as almas.

Pois foi no Outono (há tantos, tantos anos já, que a memória não os consegue contar...) que esta história começou. No Outono e nas margens do rio Cabanelas, lá para os lados de Vinhais...

Helena, a formosa Helena, de quem os poetas diziam que tinha nos olhos o brilho do mar e nos cabelos os reflexos dourados do Sol — Helena, filha de um poderoso rei cristão, deixava-se também contagiar pelas nostalgias outonais...

O único confidente que ela tinha era seu pai, tão forte no batalhar como sensato nos conselhos.

— Oh, Senhor meu pai... Nem sei o que sinto... É uma vontade estranha de sonhar, estando acordada...

E suspirando, ela continuou:

— Ás vezes, Senhor meu pai, fico-me a olhar um ponto distante, e chego a persuadir-me de que toda a minha vida se escoa por aí, lentamente, misteriosamente...

Os seus olhos fitaram os olhos do pai, como que a querer ler-lhe na alma:

— Que será isto?... Sim, que será isto, Senhor meu pai?

O velho rei, mais sabedor que sua filha dos segredos da vida e do tempo, respondeu apenas:

— Sabeis o que é, Helena?... É a Primavera lutando contra o Outono!... Vós sois a Primavera, senhora minha filha… e que maravilhosa Primavera!... Mas a vida que nos rodeia agora é o Outono!

Foi a vez dele suspirar. E rematou as suas palavras confessando, como que numa confidência:

— É tempo de procurar o noivo por que a vossa alma anseia minha filha. Já vo-lo tenho dito… e hoje repito-vos com maior segurança. Compreendeis-me?

Mas Helena, a formosa Helena, pareceu não compreender…não querer compreender. Sacudiu os seus cabelos longos e sedosos, num leve movimento negativo e retorquiu:

— Bem sabeis o que penso a tal respeito, Senhor meu pai... Nenhum dos pretendentes que me apontastes …nenhum, escutai bem!... fez até hoje bater mais forte o meu coração.

A sua voz esmoreceu subitamente. As últimas palavras foram mesmo ditas em murmúrio:

— Talvez não exista a alma par da minha!

Mas logo o pai de Helena reagiu:

— Existe, minha filha!... Existe… e há-de aparecer!

Houve um silêncio, durante o qual o velho rei pareceu meditar, interrogar-se intimamente.

— Só uma coisa receio, minha querida Helena!

— O quê? Dizei meu pai... Falai, peço-vos!

Ele suspirou de novo. Custava-lhe a confessar. Mas acabou por dizer, embora com voz cansada:

— Enfim… receio... que no exagero da vossa escolha… vos possais enganar... Às vezes, minha querida Helena, Deus castiga assim... Não tendes ouvido dizer que todos aqueles que muito querem muito perdem?

A formosa Helena sorriu. Sorriso doce, onde havia algo de indefinido.

— Oh, Senhor meu pai, eu não quero muito... Quero apenas um homem que seja digno da minha beleza. Que seja digno dos dotes naturais que Deus me deu!

Nova pausa. Nova revoada de pensamentos. E depois, entre duas respirações fundas, o velho rei, ponderado e sereno sentenciou:

— Oxalá o encontres minha filha!... E que ele te saiba compreender como tu mereces!

E, já mais desanuviado de semblante, ainda ajuntou:

— Amanhã como sabes, realiza-se um torneio em tua honra... E como sabes também, minha filha, encontram-se na corte cavaleiros de todo o mundo, qualquer deles desejoso de ser o escolhido pela mais formosa das princesas.

De facto, no dia seguinte teve lugar mais um torneio de cavalaria, presidido por Helena, a formosa Helena... O seu olhar altivo e belo, passeava indiferente sobre aqueles que ansiavam por um gesto, por um sorriso... Mas de súbito, Helena, a formosa Helena, inclinou-se para o seu velho pai:

— Senhor… reparai naquele moço além. Vedes?... Que distinto me parece! E que porte admirável!... Não achais? Gostaria de o conhecer, de lhe falar...

O velho rei limitou-se a dizer, num resmungo tolerante:

— Hum!... Mais um, entre tantos... Nada sei a seu respeito... Mas vou sabê-lo imediatamente.
E o velho rei foi dar despacho à pretensão da filha, enquanto o torneio decorria agora com maior entusiasmo, pois o cavaleiro desconhecido…inspirado talvez pelo olhar de Helena, de que se apercebera e ao qual retribuíra com igual ardor …parecia vir a ser o vencedor final.

Dali a pouco, o velho rei voltava com notícias fresquinhas para sua filha.

— Helena... Helena... Já sei o que querias saber!

Parou para tomar fôlego, mas ela mal o consentiu, de alvoroçada que eslava.

— Dizei Senhor meu pai, dizei depressa!

E num rompante de alegria, embora ruborizada pela vergonha da confissão, ela afirmou convictamente:

— Agora, sim... Agora sinto o coração bater mais forte!

Então o velho rei, transformando em força a fraqueza da idade, esclareceu sem mais demora:

— Trata-se de um moço peregrino que vai a caminho da Cruzada. Ninguém sabe ao certo donde veio, mas todos temem a sua força e a sua destreza.

Helena voltou a olhar o campo de combate. O torneio estava no fim. E ela não conseguiu conter uma explosão de entusiasmo.

— Vede, Senhor meu pai, vede!... Olhai para ele! Acaba de derrubar o último adversário!... É maravilhoso!

E fechando os olhos, no reflexo de uma oração muito íntima sublinhou baixinho:

— Bendito seja o nome de Deus!

E o velho rei repetiu o mesmo também baixinho…

Nessa noite, segundo conta a antiga lenda, ambos se encontraram no grande baile da corte. E logo ele, o cavaleiro desconhecido, desenvolto e amável se dirigiu a Helena, a formosa Helena.

— Senhora, permiti que deponha a vossos pés o meu triunfo… e sabei que somente o consegui pensando em vós!

A filha do velho rei cristão sentiu-se confusa. As suas palavras saíram breves, embaraçadas, ao sabor da excitação que a dominava.

— Agradeço-Vos, senhor... Agradeço-vos e felicito-vos... Vencestes os melhores batalhadores do meu reino...

E ele, espontâneo, fluente, sem dar tréguas ao diálogo:

— Com a ajuda do vosso olhar Senhora... Foi ele, só ele que me deu forças para vencer.

Helena titubeou num leve sorriso:

— Oh, sois poeta!

Mas o cavaleiro desconhecido riu, com discreta cortesia.

— Poeta eu?... Nunca na minha vida dei por isso...

E olhando-a bem no fundo dos olhos, rematou com voz intencional:

— Mas agora sim... Talvez agora eu queira ser poeta... só porque estou junto de vós, Senhora!

Mais confusa do que nunca, feliz e emocionada, Helena fingiu querer mudar de conversa.

— Disseram-me que viestes de longe...

E o jovem cavaleiro, sem perder tempo, voltou a sublinhar.

— Senhora, sim... É certo o que vos disseram. Eu vim de longe, de muito longe… apenas para vos ver e admirar!

Recuou alguns passos. Quedou-se extático, maravilhado. E ajuntou com voz trémula:

— Quero dizer-vos, Senhora, quero dizer-vos que afinal, vós sois ainda muito superior a tudo quanto me disseram de vós!

A partir desse instante Helena, a formosa Helena, passou a viver apenas para o cavaleiro desconhecido, que viera de tão longe só para lhe render homenagem.

O idílio entre ambos foi-se prolongando, dia após dia, noite a noite. Até que certa manhã, o palácio acordou num doido sobressalto.

Desvairado, sem encontrar sua filha Helena, a formosa Helena, o velho rei clamava, numa fúria:

— Procurem minha filha, imbecis!... Procurem-na por toda a parte… Não, não é possível que esse miserável a tenha raptado! Não quero acreditar!... Para quê, se eles podiam ter casado aqui e aqui ser felizes?

Porém, de nada serviam as ameaças, nem as súplicas, nem os gritos do rei. Os seus emissários nada conseguiam descobrir. E ele somente se podia lamentar.

— Minha pobre Helena! Minha querida Helena! Tanto quis escolher... Oxalá Deus não a castigasse!

E de novo apelava para os seus melhores servidores, os fiéis companheiros das grandes batalhas.

— Ide! Procurai de novo!... Por tudo vos peço, não volteis sem trazer notícias de minha filha!... Darei a fortuna que me resta àquele que encontrar a minha bela Helena!... Ide, amigos! É preciso descobri-la!

E eles foram. E procuraram. E voltaram tristemente, terrivelmente desiludidos.

Somente alguns se atreveram a contar a grande verdade ao seu velho rei, que o sedutor de Helena, a formosa Helena, por maior desgraça ainda, fora um jovem guerreiro mouro, habilmente disfarçado de peregrino.

O soberano exclamou, num assomo de energia.

— Como? Que dizeis? Que ele era um aventureiro mouro… um príncipe infiel disfarçado de peregrino?... Tendes a certeza, amigos?... Absoluta certeza?

E diante do olhar apiedado dos outros, o velho rei caiu de joelhos, clamando e chorando:

— Oh meu Deus, meu bom Deus!... Maior castigo eu não poderei receber!... Maior castigo não podia ser o Vosso!

E assim era na verdade. Quando a princesa Helena, a formosa Helena…a quem o seu raptor fizera tomar um narcótico, com a cumplicidade de uma escrava despertou, já longe do palácio, e se viu conduzida à garupa do corcel do seu apaixonado, teve a terrível revelação do que lhe acontecia. E gritou num impulso de vontade.

— Parai!... Parai!... Estais louco?

Mas o cavaleiro desconhecido limitou-se a rir calmamente e a dizer:

— Louco nunca estive Senhora! Estais admirada decerto... Porém já sabereis quem eu sou!

Abrandou a marcha da montada, até que esta parou. O cavaleiro debruçou-se sobre Helena, a formosa Helena.

— Ficai sabendo que sou um príncipe mouro, inimigo da vossa religião. Mas desejo fazer-vos minha esposa!

De um salto, ela apeou-se do cavalo, desenvolta e raivosa.

— Nunca! Ouvistes bem?... Nunca!

E sem que ele a pudesse segurar, Helena, a formosa Helena, correu para a ribanceira mais próxima, rolando por ela desvairadamente.

— Esperai! Esperai, Helena!... Que fazeis?

Mas era tarde. Perturbado, o cavaleiro olhou em redor. Teve a sensação de que era perseguido. Então, sem descer do cavalo, abalou dali à desfilada, convencido de que Helena, a formosa Helena, encontrara a morte lá em baixo, no fundo da ribanceira…

Porém, Helena não morreu. Por estranho prodígio e para salvação sua foi parar às águas tranquilas do rio Cabanelas... E, conforme se continua a contar de geração em geração, Helena, a formosa Helena, ali ficou a viver largos anos, envergonhada da sua triste aventura.

Até que um dia, quase por acaso, um súbdito de seu pai a descobriu e a levou de novo para o palácio, apresentando-a de surpresa ao velho soberano, que não se cansava de chorar a morte de sua filha.

De princípio, ele mal podia acreditar. O sorriso e as lágrimas misturavam-se no seu rosto.

— Mas será possível?... Será possível que Deus ouvisse as minhas súplicas?... Oh, meu Deus! Obrigado, mil vezes obrigado! Isto é um autêntico milagre dos Céus! Um autêntico milagre!

E correndo para a filha, e abraçando-a, e beijando-a, somente sabia repetir:

— Minha Helena, minha querida filha!... Um milagre! Um verdadeiro milagre!

Mas Helena vinha diferente. Não era mais a formosa Helena: era uma pobre mulher, roída de desgostos e saudades.

— Como vós tínheis razão, meu pai!... Fui bem castigada!

O velho rei olhava-a quase sem a ouvir. Mirava-a da cabeça aos pés. E de súbito, perguntou:

— Helena, minha querida filha... Que fizestes do vosso colar... aquele colar tão lindo que era o meu encanto?

Ela suspirou. Suspirou devagarinho. A lembrar-se da sua infeliz aventura. E acabou por confessar, como que envergonhada:

— Oh, Senhor meu pai... Deixei-o nas águas do rio que me salvou... Ofereci-o às trutas que me deram de comer durante tantos e dolorosos anos…

E é talvez por isso que ainda hoje, o povo das redondezas atribui ao colar de Helena, a formosa Helena, o sabor magnífico que têm as trutas pescadas no rio Cabanelas, la para as bandas de Vinhais.


 
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Mensagem Enviada: Seg Jan 21, 2019 22:47     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda da Ermida de Orca

In diversas fontes da net.

É na freguesia de Orca que está o famoso Santuário de Nossa Senhora da Oliveira, assim denominado por a imagem ter aparecido no tronco cavernoso de uma oliveira. Fica esta capela fora do lugar de Orca, a um quilómetro de distância dele em lugar solitário entre uns olivais.

E um templo muito antigo, mas que pouco se sabe ao certo, quanto à data do aparecimento da Senhora e da fundação da ermida.

Segundo a lenda conservada pela tradição, teve a seguinte origem:

No tempo do domínio árabe, deu-se neste lugar uma sangrenta batalha, na qual do lado português estava o general Simão de Oliveira, da cidade de Bragança. Vendo-se este em grande perigo e aos seus, invocou a protecção de Nossa Senhora da Oliveira, que se venerava na sua terra, e ela apareceu-lhe no tronco de uma oliveira tendo-o animado a continuar a batalha que deu em resultado o desbaratamento dos mouros.

Em reconhecimento deste milagre, mandou logo Simão de Oliveira construir no local do aparecimento, a ermida primitiva.

Atribuem-se muitos milagres a esta Senhora, que é visitada quase todo o ano por grande concurso de romeiros. Na 1.ª oitava da Páscoa da Ressureição, vêm todos os moradores do lugar da Póvoa em romaria á Senhora com uma procissão, havendo então missa cantada, sermão, etc. Faz-se esta romagem em cumprimento de um voto.


 
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Mensagem Enviada: Seg Jan 21, 2019 22:51     Assunto : Responder com Citação
 
Uma das Lendas da Porta do Moniz em Lisboa

In diversas fontes da net.

No dia 21 de Outubro (dedicado ás Onze Mil Virgens) do ano de 1147, foi efectuado o último ataque e a tomada de Lisboa aos mouros que se achavam já exaustos e cansados por cinco meses de cerco e como tal tinham jurado vencer ou morrer.

Combatiam os católicos com fúria desusada para conquistarem a cidade, porém os mouros, com igual ousadia tratavam de vender cara as suas vidas em defesa das suas famílias, das suas casas e da sua bela cidade de Lisboa.

Não cessavam os instrumentos então em uso, na diligência de baterem e derrubarem as muralhas e arrombarem as portas.

Numa destas portas que ficava na muralha do lado norte do castelo, travou-se um duríssimo combate, porque abrindo a porta os portugueses, logo acudiram os moiros para a fecharem.
Então o valoroso Martim Moniz (filho de Egas Moniz, e progenitor dos actuais marqueses de Castelo Melhor e de todos os Vasconcellos) deitou-se no chão segurando uma das portas com os pés e a outra com os ombros.

Os mouros mataram-no com as lanças, mas o seu cadáver ainda serviu de impedimento a que as portas se fechassem.

Desde então, e ainda hoje se chama a porta do Moniz àquela porta em que teve lugar este acto de abnegação patriótica daquele português que heroicamente enfrentou os moiros impedindo que a porta se fechasse facilitando assim a entrada dos portugueses no castelo.


 
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Mensagem Enviada: Qua Jan 23, 2019 00:58     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda de Nossa Senhora dos Mártires e da Conceição de Sacavém

In diversas fontes da net.

D. Afonso Henriques dispunha apenas de uma força de mil e quinhentos guerreiros, e foi nessas condições que travou contra os mouros a batalha que teve como palco Sacavém de Baixo na margem do rio de Sacavém, entre os actuais montes de Sintra e do Convento, junto à velha ponte romana, fortemente defendida pelos mouros.

Não obstante a significativa diferença numérica entre ambos os contendores, acabaram por vencer os cristãos e, muito embora a maior parte destes últimos tenha perecido, conseguiram ainda assim passar três mil muçulmanos a fio de espada, tendo-se afogado no rio os restantes mouros ou sido feito prisioneiros.

Esta miraculosa vitória foi atribuída à divina intervenção da Virgem Maria, que teria feito aparecer durante o combate “muitos homens estranhos que pelejavam com os cristãos”.

Como D. Afonso Henriques contou com o apoio de cruzados para tomar a capital, podemos partir do princípio mais ou menos seguro, de que os homens estranhos, isto é, “estrangeiros”, a que a fonte se reporta, seriam esses cristãos oriundos da Europa do Norte.

Conta-se aliás, que Bezai Zaide perante o sucedido, ter-se-ia convertido à fé cristã e sido inclusive o primeiro sacristão da ermida dedicada a Nossa Senhora dos Mártires (assim chamada em honra dos cristãos que caíram na batalha) e que D. Afonso Henriques ali mandou erguer passados poucos dias do recontro.

Ao mesmo tempo, o rei teria também mandado reconstruir a velha Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres (que se arruinara sob a ocupação muçulmana, apesar destes terem aparentemente permitido a manutenção do culto cristão, mediante o pagamento de um dado tributo às autoridades islâmicas), tendo feito dela sede paroquial de Sacavém e alterado a sua invocação, dedicando-a então a Nossa Senhora da Vitória (em homenagem à sua estrondosa vitória sobre os mouros, devido à intercessão da Virgem).


 
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Mensagem Enviada: Qui Jan 24, 2019 10:18     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda da Fonte Cassima

In diversas fontes da net.

Mil duzentos e quarenta e nove. Manhã de Primavera. Manhã bonita, cheia de sol, irradiando perfume. Pelos campos do Algarve, vai um verdadeiro festim de luz e de cor...

Mas ali dentro, para lá das ameias do castelo de Loulé, nessa manhã encantadora, o ambiente é bem diverso. Os melhores guerreiros mouros de então correm a juntar-se sob as ordens dos seus chefes. E os chefes, empunhando as cimitarras que brilham ao sol, clamam furiosamente gritos de combate. Gritos de apoio e de estímulo ao governador de todos eles, que se destaca com o seu turbante verde no meio do círculo dos seus homens mais leais.

— Morte aos cristãos!

— Guerra a esses cães danados!

— Corramos ao seu encontro, e eles desaparecerão para sempre!

— Nós somos os verdadeiros senhores desta terra e deste castelo! Ninguém nos poderá roubar!

— Ninguém nos poderá vencer!

— Ninguém será superior a nós!

O governador de Loulé ergue os braços. E levanta a voz.

— Calma! Peço-vos calma! Bem sabeis que estou decidido a expulsar do Algarve, para sempre, esses perros cristãos!

Um vozear enorme acompanha estas palavras.

— E nós também! E nós também!

O governador de Loulé volta a impor a sua autoridade de xerife absoluto.

— Lembrai-vos todavia, que o inimigo é muito poderoso, e ainda mais ousado que poderoso. Notícias que recebi agora mesmo dizem-me, infelizmente, que o castelo de Faro já caiu nas mãos dos cristãos e que o rei D. Afonso III ordenou ao terrível D. Paio que se apossasse do nosso castelo.

De novo o vozear se levanta no espaço.

— Nunca! Nunca! Nunca.

E colocando-se à frente dos guerreiros mouros já dispostos em marcha de combate, o governador acrescenta num tom firme e autoritário:

— Por isso mesmo, vamos ao encontro dos cristãos! Já vos disse e agora repito-vos esta luta decidirá o nosso futuro. Temos de vencer!

E a multidão de guerreiros sublinha em uníssono:

— Temos de vencer! Temos de vencer!

Logo saem os mouros em ruidosa cavalgada pelos campos próximos, até alcançarem a estrada de Faro. Aí, sempre guiados pelo governador de Loulé, tomam a direcção de um outeiro que fica sobranceiro ao sítio dos Furadouros.

Do alto, já podem ver os soldados cristãos de D. Paio Peres Correia, que se preparam também para a luta gigantesca.

De um lado os mouros de Loulé, sabendo que defendem o último reduto desse maravilhoso reino do Chencir. Do outro, os freires de D. Paio Peres Correia, desejosos de mais conquistas para a Cruz de Cristo. Certos de contarem com o apoio de Deus que os torna sempre invencíveis. Intimoratos e decididos, querendo exterminar definitivamente o domínio da mourama no Sul de Portugal!

O combate dá-se ali mesmo, nesse lindo dia de Primavera de mil duzentos e quarenta e nove. Ali, nas terras dos Furadouros...

Combate violento, brutal, ciclópico. Depois do choque tremendo dos sarracenos, acompanhados pelo alarido infernal das trombetas, dos atabales e dos anafis, com os cristãos empunhando as suas espadas em forma de cruz. Segue-se a luta corpo a corpo, a única que pode decidir a vitória.

E a vitória decide-se finalmente, a favor dos cristãos!

Resta apenas aos mouros fugir em debandada, procurando o refúgio seguro no castelo de Loulé. Assim fazem, deixando no descampado muitos mortos e feridos, armas e ilusões.
Noite de tormenta para os vencidos! Principalmente para o governador do castelo. Durante horas ele fica sozinho, até que o tempo atravessa a fronteira da noite e entra nos mistérios do dia…

Então, o xerife ergue-se do seu velho catre de campanha, afivela a sua vestimenta de aço, enrola o turbante verde na cabeça e guarda consigo um bonito punhal com embutidos em ouro.

Depois, lentamente, dirige-se para o quarto das suas três filhas que também estão acordadas, presas de grande inquietação.

As três filhas do governador são jovens e bonitas. Muito jovens e muito bonitas. A mais velha chama-se Zara. A do meio tem o nome de Lídia. E a mais nova é Cassima.

Esta dá logo pela presença de seu pai, embora ele tenha entrado em silêncio, com o maior cuidado.

— Senhor meu pai, que se passa? Que triste semblante é o vosso!

E as outras acorrem imediatamente a rodear o preocupado governador de Loulé.

— Oh, meu pai... — murmura Zara, a mais velha. — Já sabemos que a batalha foi terrível!

— E o pai feriu-se? — pergunta Lídia, na sua voz débil.

O governador abana a cabeça.

— Não minhas filhas, não estou ferido e remata com um assomo de tristeza:

— O Profeta não me achou digno de verter o meu sangue a defendê-lo...

Zara volta a sublinhar:

— Deve ter sido tudo tão horrível...

— Horrível!... repete o pai, como um eco.

— E é verdade que o castelo de Faro já caiu senhor meu pai?

O velho governador olha a filha mais nova que lhe fizera a pergunta com voz trémula.

— É verdade sim, minhas filhas... O rei D. Afonso III também já nos conquistou mais este castelo.

— Então... e nós?

Não se sabe qual delas lança a dramática interrogação. De qualquer modo, mesmo sem resposta, o silêncio transforma-se em lágrimas. Lágrimas que reflectem o que lhes vai na alma. E só daí a instantes, dominando-se e tentando dominar a emoção das filhas, o governador acentua:

— Não tenham receio!... Eu sei o que hei-de fazer, se os cristãos chegarem até aqui. Eu sei!
Em seguida, abraça-as e beija-as uma por uma.

— Vamos, descansem... De nada serve já ficarem alerta... Nós estamos vigilantes!

Quem fica de atalaia nessa noite de sobressalto é ele próprio, o velho governador de Loulé. Mal consegue aquietar suas filhas, sobe ao ponto mais alto do castelo. Mantém-se ali durante certo tempo, tentando romper a escuridão com a insistência do seu olhar. Todos os seus sentidos estão em guarda, registando qualquer pormenor, por insignificante que pareça.
Por fim, ao cabo de longa e árdua expectativa, uma expressão mais amarga desenha-se no rosto macerado do velho governador. De si para si confessa:

— Já os pressinto... Eles estão perto de nós... Quando a alvorada romper vão tentar o assalto... Mas não nos apanharão desprevenidos, como julgam!

E sem demora vai dar o alarme aos seus lugar-tenentes que, por se turno, vão passando palavra aos outros homens. Em silêncio, para não despertar a atenção dos sitiantes, todos ocupam os seus postos, prontos a vender cara a vida.

Conforme o governador previra, as primeiras luminosidades da manhã bonita da Primavera deixam descobrir no outeiro vizinho, cabeço amplo e desanuviado, os companheiros do famoso D. Paio Peres Correia, mestre da Ordem de Sant’Iago. São numerosos e parecem bem armados. Vivem ainda a euforia da vitória alcançada na terra dos Furadouros e preparam-se para a culminar com a conquista do castelo de Loulé!

O embate não se faz esperar. Como onda poderosa e irresistível, o exército cristão avança em massa para o castelo. Mas os mouros estão dispostos a defender-se até ao fim. São os derradeiros defensores do domínio agareno nesse maravilhoso reino de Chencir. Por isso não podem pensar em ceder.

O choque é brutal. A luta sangrenta. Dura horas? Dura dias? Dura semanas?

A decisão está tomada. O velho governador não quer, não pode, não deve hesitar mais e chama as suas três filhas.

— Zara… Lídia… Cassima… Venham comigo!

Leva-as a uma fonte a nascente da vila, junto de um bonito canavial.

— Ides ficar aqui até que venha buscar-vos. Não tardarei prometo.

Elas começam a chorar e abraçam-se. Mas o velho governador sem se deixar comover, começa a entoar pausadamente algumas palavras misteriosas que só ele compreende. E à medida que as vai dizendo, diante dos seus próprios olhos desaparecem, uma a uma, as figuras de Zara, Lídia e Cassima, as suas três lindas filhas. Desaparecem como que engolidas pela fonte…

Nessa mesma noite, os guerreiros mouros que ainda se encontram de pé depois de tão gigantesca e furiosa luta seguem o velho governador, e com ele saem por uma porta secreta a caminho da vizinha praia de Quarteira, onde os esperam alguns barcos para os conduzirem a Tânger.

Quando a madrugada volta a romper, os cristãos, dispostos a tentar de novo o ataque, ainda com mais fúria (pois sentem que estão a ganhar terreno e vantagem), estranham o silêncio incompreensível que envolve castelo.

D. Paio Peres Correia, sagaz como sempre recomenda cuidado. Pode tratar-se de um ardil. E manda que siga adiante apenas um punhado de valentes, com ordem para arrombarem a porta do nascente. E assim acontece e o que se apresenta diante dos seus olhos deixa-os estupefactos…não há vivalma em parte alguma!

Cautelosamente D. Paio Peres Correia e os seus companheiros dilectos vão transpondo a porta arrombada. E mais soldados cristãos aparecem por todos os lados, a tomar conta do castelo e da vila.

A partir de então, Loulé nunca mais deixou de ser portuguesa!

Entretanto já em Tânger, o velho xerife, cada vez mais velho e mais desesperado, não deixa de pensar nas suas três filhas, encantadas por magia sua na fonte de Loulé. Recordações amargas, dolorosas.

E o tempo vai passando...

Até que um dia, entre os vários cristãos cativos dos Mouros, chega a Tânger um homem de Loulé. O velho governador reconhece-o imediatamente. Compra-o sem hesitação no mercado dos escravos e leva-o para os seus aposentos.

— Lembro-me de ti... Eras carpinteiro em Loulé.

Sim, meu senhor.

— E tu... recordas-te de mim?

O outro sorrateiramente sorri. Sorri e dobra-se numa vénia mesureira.

— Oh! Quem pode esquecer um tão bom e tão justo governador?

O velho mouro é abalado por intensa emoção. Será aquele homem o mensageiro que ele tanto pedira a Alá? Pois não há que duvidar!

— Ouve... Preciso que me faças um grande favor.

Dobrando-se de novo servilmente, o carpinteiro de Loulé declara com ênfase:

— O meu amo e senhor dispõe de mim como quiser... e para o que quiser!

O velho mouro avança para ele impetuosamente.

— Juras pelo teu Deus que farás tudo o que eu te ordenar?

— Juro…responde o carpinteiro espertalhão, fazendo figas disfarçadamente atrás das costas.
Há uma pausa. O velho governador procurando acalmar as batidas do coração excitado. O homem de Loulé a perguntar a si próprio qual será o fim de tão estranha conversa...

A sua curiosidade não tarda em ser satisfeita. O velho abre uma arca e dela retira uma caixa com três pães.

— Escuta bem o que vou dizer. Em cada um destes pães está escrito o nome de uma das minhas filhas. Preciso que leves estes três pães a Loulé, onde as minhas filhas ficaram encantadas... Na véspera de S. João à meia-noite, irás junto daquela fonte que fica a nascente da vila logo à entrada, e atirarás estes pães para dentro da fonte, um de cada vez... e de cada vez dirás o nome de uma delas... Primeiro, Zara... Depois, Lídia... E finalmente, Cassima! Quando acabares, partirás logo para tua casa.. Daí em diante acredita, serás o homem mais rico de Loulé!

Boquiaberto, espantado, confuso, o carpinteiro mal consegue perguntar:

— Mas... mas... como posso eu voltar a Loulé?... Não sei o caminho nem por terra nem por mar…

O outro olha-o fixamente. E depois de um longo silêncio diz-lhe:

— Anda cá… vem comigo…

Passam à sala vizinha, onde está um alguidar cheio de água.

— Vês este alguidar?

— Vejo.

— Achas que és capaz de dar um salto sobre ele, de diante para trás sem tocares na água?

— Pois claro que sou!

— Então prepara-te. Se conseguires fazer isso, imediatamente chegarás a Loulé. Mas se tocares na água, morrerás afogado... Estás pronto?

O carpinteiro tem uma leve hesitação. Essa história de morrer afogado amedronta-o. Mas não é homem para perder tão extraordinária oportunidade de voltar à sua terra num instante, quase sem dar por isso. E dando um passo em frente responde resoluto:

— Estou pronto!

O velho mouro olha o céu pela janela aberta.

— Então volta-te de costas para o alguidar. Faltam já poucos minutos para que os astros estejam na conjunção propícia… Vamos, mexe-te!

O carpinteiro encolhe os ombros e toma a posição indicada pelo mouro. No seu íntimo pensa na mulher, nos filhos, nos amigos... Que enorme surpresa! Não, não pode falhar!

— Salta!

O carpinteiro de Loulé agacha-se e dá um pulo para trás. E no mesmo instante em que salta sente-se transportado misteriosamente por ares e ventos, enquanto o velho governador cai de joelhos dando graças a Alá.

Sem saber como, o carpinteiro de Loulé encontra-se junto da sua casa. Num impulso de alegria, precipita-se para lá, abraça e beija a mulher e os filhos, pasmados de o verem voltar. Depois corre a esconder os três pães num velho baú que tem no sótão. Torna a descer para abraçar vizinhos amigos, a quem a mulher e os filhos deram a boa nova. À sua maneira, ele arranja uma explicação para o regresso, porque a verdade não pode contar de modo algum...

Porém, com o passar dos dias, a mulher do carpinteiro começa a desconfiar de qualquer coisa, o marido esconde-lhe decerto algum segredo. O seu sexto sentido de mulher não a pode enganar... Lembrando-se de que ele correra ao sótão com uma caixa que trazia, e que descera sem ela, sobe até lá. E acaba por descobrir os três pães que ele escondera no velho baú, e que de vez em quando vai mirar e remirar, para ver se ainda se encontram na mesma...

— Que pães são estes, homem?

Ele responde-lhe num berro. Berro que é ordem e ameaça:

— Não lhes toques mulher! Não lhes toques, se não...

E isso nunca se deve dizer a uma mulher que se preza. Precisamente numa tarde de domingo, quando o carpinteiro saíra para ir rondar a fonte (seu passeio habitual desde que voltara a Loulé), a mulher quer saber à força qual será o mistério dos pães. E não está com meias medidas. Sobe ao sótão com uma faca e abre um dos pães, para ver se tem alguma coisa lá dentro...

Logo soa um grito rouco e abafado. Um grito de mulher. E do pão cortado começa a correr sangue. Muito sangue...

Apavorada, a mulher do carpinteiro torna a guardar tudo precipitadamente no baú, lava cuidadosamente o chão sujo de sangue e corre a esconder-se no seu quarto a rezar.

Finalmente, chega a noite da véspera de S. João. Noite de festa, de alegria, de entusiasmo, assim fora já no tempo da mourama. Assim é agora no tempo dos cristãos...

Indiferente à animação que o rodeia, o carpinteiro pensa somente em cumprir as ordens que recebeu do velho governador e a promessa que lhe fez.

Espera com impaciência a meia-noite. E logo se aproxima da fonte, levando consigo os três pães.

— Zara!...grita ele, atirando o primeiro pão para dentro da fonte.

E da fonte vê surgir uma figura diáfana de mulher, que sobe nos espaços e desaparece diante dos seus olhos estupefactos.

— Lídia!...grita ele depois. E atira o segundo pão.

Do mesmo modo, outra figura diáfana se ergue da fonte, ascende no ar e some-se no horizonte.

— Cassima!... volta ele a gritar já inebriado pelo triunfo e pela perspectiva da fortuna prometida. E atira para a fonte o terceiro e último pão, certo de que tudo se vai passar como anteriormente...

Mas engana-se. Desta vez há um gemido rouco, angustioso. E uma linda mulher soergue-se do tanque, agarrada com desespero ao gargalo da fonte.

— Cassima!...repete ele, sem bem compreender o que vê.

Num misto de dor e de raiva a pobre moura diz entre lágrimas:

— Vês? Vês o que aconteceu, por causa da curiosidade da tua mulher?

— Da minha mulher?

— Sim! Foi ela que cortou o meu pão, para ver o que ele tinha dentro... e com isso condenou-me para sempre!

— Para sempre?

— Para sempre! Não mais poderei sair desta fonte…

Faz-se silêncio. Silêncio pesado, angustioso. E é ainda a moura encantada que volta a falar:

— Mas eu não quero mal à tua mulher... Sei que fez isto sem querer... Leva-lhe este presente. Já não me serve para nada!

E a moura atira um cinto bordado a ouro para as mãos do carpinteiro, enquanto desaparece de novo no interior da fonte...

Aturdido ainda com a série de acontecimentos de que fora testemunha e atormentado pela recordação terrível de Cassima, o carpinteiro volta lentamente a casa. Pelo caminho, pára de vez em quando e senta-se a reflectir. Que irá agora suceder à pobre Cassima? O que ela não terá de sofrer!

Na última paragem, resolve prender o cinto bordado a ouro à volta do tronco de um grande carvalho para poder apreciar melhor a preciosa oferta.

Mas imediatamente o grande carvalho cai por terra cortado cerce pelo cinto fantástico!

Benzendo-se e rezando, o carpinteiro compreende tudo…Cassima dera-lhe aquele cinto apenas para se vingar! Sua mulher ficaria cortada ao meio como o gigantesco carvalho ficou!

Só deixa de correr quando chega a casa. Fecha-se no quarto e abraça-se à mulher, contando-lhe o que acabara de passar. Também ela lhe faz as suas confidências, confessando-se culpada por curiosidade...

Nessa noite não conseguem dormir, sempre de ouvido alerta aos mínimos ruídos. Não virá a moura persegui-los até ali?

Mas a moura não vem. Nem nessa noite, nem nas restantes. Tal como dissera, a moura Cassima não mais poderá sair da sua fonte. Apenas por vezes, segundo se diz ainda…principalmente nas vésperas de S. João…ela consegue agarrar-se ao gargalo da fonte, mostrar a sua beleza e chorar a sua dor aos que se aventuram até lá...


 
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A Lenda do Juramento do Condestável

In diversas fontes da net.

No ar passa um frémito de inquietude. O vento leve e morno levanta a terra poeirenta. Canta uma cigarra algures. Só esse pequeno grito corta o silêncio do campo. Respira-se pó e expectativa. A alguns metros…talvez cem… talvez duzentos...estende-se o arraial português. Ali, o silêncio encontrou a morte. Mas também não há gritos, nem impropérios, nem gargalhadas. Apenas o ruído normal e monótono de um ajuntamento organizado…


Ano de 1385, princípios de Outono. Folhas que murcham, queimadas pelo sol ardente que dardejou com raiva sobre os seus corpos onde corria a seiva… Depois da batalha de Aljubarrota, D. Nuno Álvares Pereira e D. João I tinham combinado separar-se em Santarém e cada um deles, seguindo em sentido oposto, comandaria as conquistas que se apresentassem necessárias ao remate de tão retumbante vitória. Nessa ordem de ideias, D. João I fez-se ao norte, enquanto o condestável do reino seguia para o sul do Tejo, na disposição de se internar na Espanha. Assim passou de Évora a Estremoz, onde mandara reunir as suas tropas a fim de angariar mais alguns homens. Quase todo o mês de Setembro foi preenchido com estes preparativos. E o dia 1 de Outubro chegou…véspera da abalada de Estremoz em direcção ao Guadiana. A azáfama recrudesceu. O entusiasmo era grande. D. Nun’Álvares tinha o condão de electrizar todos os seus homens.


A tarde aproximava-se do fim. O calor amainava. Uma cor rubro-laranja espalhava-se no firmamento, prenúncio de novo dia quente a suceder a esse. Sentado sobre um banco improvisado, D. Nun’Álvares fechara os olhos para ver melhor as imagens do seu pensamento. De súbito, sentiu algo de estranho perto de si. Abriu os olhos. Alguém queria falar-lhe, mas embargavam-lhe a passagem. Então resoluto, o condestável levantou-se e foi ele próprio averiguar do que se tratava.

Uma mulher de aspecto modesto amarfanhava a sua natural timidez num rasgo de ousadia e ao vê-lo, estendeu-lhe os braços suplicante:

— Senhor, eles não querem que eu vos fale! Mas graças a Deus vos vejo!

Numa voz habituada ao comando o condestável inquiriu:

— Que pretendeis? Não sabeis que é proibida a mulheres a entrada no arraial em vésperas de partida?

Humilde, a mulher baixou os olhos.

— Sei meu senhor... e eles não se cansaram de mo repetir...

— Então?

Novo rasgo de audácia obrigou-a a levantar os olhos e a voz.

— Senhor... não me demorarei... Mas quero fazer-vos um pedido a sós!

Surpresa da parte de quem escutava.

— A sós?

— Sim meu senhor! Não quero que me ouçam.

E a mulher indicava com um gesto disfarçado a soldadesca que a fitava. D. Nuno Álvares Pereira olhou-a por um momento. Depois aquiesceu:

— Seja! Atender-vos-ei junto daquela oliveira.

— Que Deus vos guarde senhor!


Junto da oliveira e longe de ouvidos indiscretos, o condestável voltou a examinar essa mulher do povo.

— Pronto. Aqui os meus soldados ver-nos-ão mas não poderão ouvir-vos. Que me quereis?

A mulher suspirou fundo, como que necessitasse de alento para prosseguir:

— Senhor... Perdi o meu homem em Aljubarrota!

— E precisais de auxílio, não é assim?

O rosto da viúva exprimiu surpresa.

— Ainda não vos pedi dinheiro senhor… embora vos tenha dado o meu melhor tesouro...

Foi a vez do condestável D. Nuno patentear surpresa.

— Explicai-vos melhor...

— Tentarei senhor... Perdi o meu marido há mês e meio. E agora levais-me o resto!

As lágrimas começaram a deslizar pelo rosto enrugado dessa velha precoce. D. Nuno franziu as sobrancelhas numa interrogação que começou muda e se articulou depois:

— Que vos levo eu?

— O meu filho!

— Está alistado?

— E faz parte do terço que comandais.

— Quem é ele?

— Tem o nome do pai: António Bento.

— Que idade tem?

— 17 anos...

— É então voluntário...

— E valente como o pai!

Calou-se por instantes. Chorava baixinho. D. Nuno falou-lhe com doçura.

— Que desejais de mim? Que proíba a sua partida?

A mulher levantou a cabeça num gesto rápido.

— Oh, não! Isso seria uma afronta para o seu orgulho! Nem sequer desejo que ele saiba que vos vim falar disto, mas... não tenho mais ninguém no mundo... E ele é doente… sofre do peito... tem tosse... apanha resfriados com facilidade... Se ele morre, tudo acabará para mim...

D. Nuno sentiu uma piedade instintiva por essa mãe viúva. Tornou, solícito:

— Ele é da peonagem?

— Sim... mas monta muito bem a cavalo. No tempo do pai, o senhor D. Afonso, o amo para quem trabalhava, ensinou-o como a um menino rico. Verá que ele tem modos assim de fidalgo!

— E esse D. Afonso não pode cuidar de vós agora?

A mulher baixou de novo a cabeça, coberta por um lenço negro. A voz tornou-se quase inaudível.

— O nosso fidalgo... passou-se para o bando do mestre de Alcântara...

— Compreendo. E... o teu filho, devendo-lhe tanto, não o seguiu?

— Nem ele... nem o pai! Somos por Portugal e por el-rei D. João, nosso senhor.

O condestável sorriu.

— Hei-de cuidar do vosso rapaz acreditai. Vou fazê-lo meu pajem de lança e desse modo poderei vigiá-lo de mais perto. Juro-vos, boa mulher!

Dois olhos marejados de lágrimas ergueram-se para o condestável do reino.

— Que Deus vos recompense, senhor!

— Que mais desejais de mim?

— Que não conteis uma só palavra do que vos disse. Não quero que os outros se riam do meu pobre António!

Por entre as lágrimas surgiu um sorriso triste e ela murmurou ainda:

— O meu filho diz a todos que é o mais forte do Mundo!

Agora, os soluços embargavam-lhe a voz. Agitavam-se os seus ombros na ânsia de os dominar. O condestável, cada vez mais apiedado, colocou uma das mãos sobre um braço da pobre viúva.

— Acalmai-vos e parti descansada! Cumprirei tudo quanto vos disse. E se Deus me ajudar, dentro de duas semanas estaremos de volta!


Uma espécie de manto fantasmagórico anunciava a chegada de um novo dia. Segundo a segundo, a claridade foi crescendo, num ritmo de vida. Aproveitando a neblina, todo o exército de D. Nuno Álvares Pereira levantou arraiais e fez-se ao caminho. Ao fim da tarde porém, o condestável mandou fazer alto. Uma ideia o obcecava. Um pensamento que vinha com ele e se tornava imperativo.

Depois de dar aos seus homens ordem que descansassem um pouco, D. Nuno começou a afastar-se, acompanhado apenas pelo seu novo pajem de lança. O terreno, como um mar tranquilo, estendia-se na sua frente. Era uma paisagem calma, serena, sem obstáculos à vista, que convidava à meditação. Levando o cavalo a passo, o condestável parecia alhear-se dos problemas que ali o retinham. Porém, eram esses mesmos problemas que o queimavam por dentro como fogo. Quando já ia distante e a coberto, por uma pequena elevação dos olhares de quantos deixara para trás, D. Nuno Álvares Pereira estacou e fitou o seu pajem.

— Ficai aqui, António Bento. Segurai o meu cavalo. Preciso de estar só.

Submisso, o jovem fez que sim com a cabeça. D. Nuno afastou-se um pouco mais. De súbito, caiu de joelhos. Cruzando as mãos sobre o peito e olhando o céu, os seus lábios ficaram largo tempo murmurando uma oração:

— Senhora Mãe de Deus! A responsabilidade que pesa sobre mim é enorme. Não é pela minha segurança que temo bem o sabeis. É por terra que é vossa e por estes vossos filhos que eu arrasto para uma glória incerta! Se falhar… que se salve a maioria, já que uma batalha sem mortos não é de prever. E já agora, olhai particularmente para este moço que me acompanha e se chama António Bento! Prometi velar por ele, jurei que o faria… mas só de Vós depende eu poder cumprir tal juramento Senhora! A Vós confio a minha missão! E se em breve voltarmos vitoriosos, prometo-Vos mandar construir aqui, neste mesmo lugar decerto onde agora estou orando, uma capela em Vossa honra.

Terminada a oração, D. Nuno tornou com o pajem para junto dos seus homens. À voz de comando do condestável, o exército voltou a movimentar-se como se fosse uma grande máquina. No dia 2 de Outubro de 1385 passavam o Guadiana e acampavam em Castela.

Passaram entre Olivença e Valverde, chegando um pouco mais além. Dia a dia, o avanço ia progredindo, tomando aldeias e confiscando o gado. E o momento crítico chegou. Milhares e milhares de castelhanos, reforçados pelos portugueses que atraiçoaram a causa do seu rei, cercaram o condestável. E numa atitude presunçosa, o novo mestre de Alcântara decidiu enviar a D. Nuno Álvares Pereira um mensageiro português!

Quase frente a frente, ambos serenos e altivos, os fidalgos olharam-se friamente antes de se cumprimentarem. As feições rígidas de qualquer deles mostravam que o momento seria decisivo. Vendo ao lado do seu adversário o jovem António, o mensageiro…que era o seu antigo amo…teve um sorriso sarcástico. E antes de se desempenhar da sua missão quis ainda magoar o pobre rapaz que o não quisera seguir. Numa voz de desafio, exclamou:

— Estais bem acompanhado, senhor D. Nuno Álvares Pereira! Vejo que tendes como pajem um criado que foi das minhas cavalariças...

Sorriu D. Nuno e ripostou no mesmo tom de ironia:

— Sois então D. Afonso, o renegado, não?

— Afonso Teles, lugar-tenente do mestre de Alcântara!

— Ah, sim? Pois declaro-vos que me sinto mais honrado com a presença de António Bento, ex-moço de estrebaria, do que falando com um fidalgo português que vendeu o seu país a troco de honras passageiras!

Chocado, D. Afonso abriu a expressão do rosto num sorriso mau e tornou:

— O mal tocou a muita gente boa, senhor D. Nuno Álvares Pereira! Acaso vos esqueceste já de vosso irmão?

Atingido em pleno peito, remexida uma das feridas mais vivas do seu coração, D. Nuno resolveu não responder directamente e enveredou por outro assunto.

— Acabemos com isto, senhor! Qual a mensagem que me trazeis?

O lugar-tenente do mestre de Alcântara empertigou-se mais no seu cavalo e, indicando algo que trazia consigo, disse com calma aparente:

— Aqui tendes a mensagem, senhor! Todos os fidalgos castelhanos enviam-vos estas varas e o seu desafio!

Serenamente também, embora com expressão endurecida, D. Nuno volveu:

— Pois ide dizer a quem vos mandou que guardarei o feixe das varas para os vergastar a todos, logo que nos encontremos frente a frente!

Sem resposta, D. Afonso deu de esporas ao cavalo e voltou correndo, perdendo-se no horizonte numa nuvem de poeira. Por momentos, D. Nuno deixou-se ficar no mesmo lugar. Depois, fazendo sinal a António Bento para que o seguisse, exclamou:

— Não teremos tempo a perder. Ou agora, ou nunca!

A aldeia de Valverde parecia nesse momento fazer parte do inferno. Castelhanos e portugueses combatiam com força e ódio. O pó punha crostas dolorosas nas gargantas ressequidas. O sangue que das feridas corria deslizava grosso, aumentando de volume ao misturar-se com o pó dos campos revoltos. Gritos e imprecações misturavam-se com o tilintar das armas. E os corpos confundidos dos inimigos em luta punham no quadro desse fim de dia uma nota de tragédia.

Porque os castelhanos eram em número muito superior, a batalha teve momentos aflitivos para o exército português. Mas D. Nuno, refugiando-se uma vez mais na oração, voltou à peleja como que remoçado. E dentro em breve o seu entusiasmo estendia-se aos seus companheiros, que puseram em debandada os castelhanos. Quase sem se darem conta, os portugueses sentiram-se de súbito, sozinhos em campo. A batalha estava ganha!


E conta a antiga lenda que D. Nuno Álvares Pereira de regresso a terras do Alentejo, mandou construir, tal como tinha prometido, uma capela à Senhora da Orada, precisamente por aí ter orado. E buscando uma certa mulher do povo, viúva e pobre, mandou-lhe pedir que viesse à sua presença. Depois, sorrindo, confiou-lhe:

— Nossa Senhora fez-me a graça de poder cumprir a minha jura! Trago-vos são e salvo António Bento… o vosso tesouro…e a nossa pátria! Sinto-me feliz por isso!

E o sol do Alentejo quente e fecundo embora já de Outono, pareceu sorrir ainda mais na sua expressão de fogo, tingindo de um modo rosado e estranho a linha distante do horizonte...


 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Jan 25, 2019 21:56     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda da Senhora de África

In diversas fontes da net.

Tal como o nome desta lenda indica, a história que vamos contar é uma história passada em terras do outro lado do mar, na remota cidade de Ceuta, onde fica a extraordinária igreja que, segundo reza o cronista, “é com certeza um dos templos do mundo por onde tem passado maior número de heróis cristãos, prestando graças quando vencedores, chorando quando vencidos, rezando pela sorte dos cativos e encomendando os que morrem pela Pátria”.

Vem-nos à lembrança o inesquecível soneto do saudoso poeta António Sardinha, intitulado «Nossa Senhora de África». Ei-lo:

Santa Maria de África, morena
Nossa Senhora épica da raça,
Olhando o azul do Estreito com que pena
Por ver que é outra a gente que lá passa.
No eterno exílio a que ela se condena
Tem sempre a mesma lusitana graça!
Recorda em seu altar uma açucena
Armada de bastão e de couraça!

Santa Maria de África, trigueira,
Reinando sobre ossadas portuguesas
Guarda por nós o Algarve de além-Mar!

Pode bem ser que Deus ainda queira
Que à sombra dessas velhas fortalezas
A tua voz nos volte a comandar!

Foi em 1415. A esquadra portuguesa fizera-se ao mar rumo a Ceuta. Os três infantes, D. Pedro, D. Duarte e D. Henrique, traziam ainda nos lábios o sabor do último beijo dado à rainha sua mãe mortalmente enferma. Era a mais ousada de todas as jornadas de aventura que os portugueses tinham tentado. D. João I hesitara, mas perante o entusiasmo dos seus filhos decidira-se. E deles três sem dúvida nenhuma, o mais seguro da vitória, o mais desejoso da conquista era o infante D. Henrique. Ele dissera com a unção duma prece:

— Eu sei! Eu tenho a certeza que para além de Ceuta há outras terras... há outros tesoiros!
Temos de vencer o Bojador e acabar com a lenda desse mar Tenebroso que tanto receio causa aos homens! E para vencer o mar… é preciso conquistar Ceuta!

Mas como se o próprio mar tenebroso o tivesse escutado e quisesse medir as suas forças com esse punhado de valentes, a armada portuguesa viu-se batida por uma horrível tempestade em que os elementos pareciam governados por qualquer poder infernal.

No meio de tal inferno, outra solução não tiveram os portugueses do que arribar de novo a Faro e esperar que a natureza acalmasse a sua revolta.

Porém, o infante D. Henrique não se amedrontou com o sucedido, nem sequer reduziu a sua confiança no triunfo da empresa. Pelo contrário, mais força de vontade adquiriu para seguir avante com a sua ideia. Assim, chamando a Sagres um dos seus mais fiéis, um tal Vasco Vasques de que a História por ingratidão não guardou o nome, confiou-lhe a mais secreta das missões dizendo-lhe:

— Ouve! Vou confiar-te uma arriscada missão. Nós vamos fazer-nos de novo ao mar. Mas tu, pela calada da noite irás sozinho numa fusta, assim que nos aproximarmos de Ceuta, as trevas serão as tuas melhores amigas. Terás de chegar à praia e escolher o melhor sítio para nós desembarcarmos. Conto contigo Vasco Vasques!

Com a voz embargada pela emoção, o valoroso cavaleiro respondeu a D. Henrique:

— Meu senhor! É tamanha a honra que me dais... que me sinto aturdido, quase sem poder falar! Mas descansai... Onde me faltam as palavras não me faltará o engenho e a espada! Obrigado Senhor, por me haverdes escolhido a mim, quando tantos e valorosos cavaleiros tendes à vossa volta!

O Infante tornou:

— Eles são valorosos sim, mas não possuem a tua fé! E sem Fé nada se pode fazer!

Vasco Vasques fez uma cerimoniosa reverência.

— Pois bem meu senhor: nem que seja apenas o meu cadáver… lá estará na praia alguma coisa de mim a indicar-vos o melhor caminho!

— Que Deus vos proteja Vasco Vasques!

— Que a Virgem nos proteja a todos, meu senhor!

Assim partiram para Ceuta, poucos dias depois deste encontro e amainada a tempestade, os componentes da armada portuguesa iam confiantes.

Quando já estavam próximo do destino que levavam, aguardaram ao largo que a madrugada chegasse…depois de uma longa noite…para que fosse possível o desembarque. E no silêncio dessa noite longa, uma fusta chapinhou cautelosamente nas águas. Nela, ia Vasco Vasques o enviado do infante D. Henrique a caminho da glória ou da morte.

Conta a lenda que ele conseguiu pôr pé em terra de Ceuta sem ser visto. E a primeira coisa de que se ocupou foi de invocar a protecção de Nossa Senhora a sua padroeira.

Ajoelhou na areia da praia envolta no manto negro da noite. Ao fundo, o mar soltava os seus queixumes. Aqui e além, uma pincelada mais negra mostrava a silhueta de Ceuta. Vasco Vasques elevou ao Céu a sua humilde e fervorosa oração:

— Minha Nossa Senhora! Tende misericórdia deste vosso escravo! Dai-me um indício para me orientar… ajudai-me a escolher o caminho da vitória para os cristãos vossos vassalos, Senhora!

Chegou a hora de limparmos esta terra também, da impureza dos infiéis!

Mais confortado intimamente com a sua própria prece, Vasco Vasques ergueu-se e partiu cauteloso pela terra fora, tentando descobrir o indício que pedira. Mas, em vez disso, viu surgir de súbito na sua frente, como que vindo da terra ou do céu, um estranho vulto de mulher, no qual só o rosto parecia iluminado de luz.

Benzendo-se apressadamente, Vasco Vasques levou a mão à espada, pronto a defender-se de qualquer armadilha. A estranha aparição falou:

— Não vos atemorizeis bom cristão!

Desconfiado, Vasco Vasques inquiriu:

— Como sabeis que sou cristão?

Dulcíssima, a voz daquela mulher tomou a soar na calada da noite:

— Eu também sou da vossa fé. Há anos que vos espero. Esta terra não pode ser nem deve continuar a ser infiel. Aqui, começa um novo mundo!

Extasiado, ele nem atinava com o que responder. Mas o diálogo prosseguiu, depois debum breve silêncio.

— Que palavras extraordinárias, as vossas! Parece-me escutar o meu infante D. Henrique.

— Sim, o vosso infante... Quer destruir o mistério do mar tenebroso não é verdade? Pois há-de consegui-lo! E os portugueses irão longe se quiserem!

— Mas, quem sois... para falardes assim com tanta confiança... de um futuro ainda distante?

— Que importa quem sou? Importa sim, o que posso... Anda comigo! Vou mostrar-te o caminho que procuras.

Vasco Vasques olhou ainda hesitante aquela que lhe falava e lhe sorria.

— Tens medo, bom cristão? A tua fé costuma ser inquebrantável!

Humildemente, Vasco Vasques retorquiu:

— Sou tão pequeno para uma graça tão grande... que não ouso acreditar!

— Pois bem, eu vou à frente. Basta que me sigas.

Então, resoluto, o homem caminhou ao lado daquela aparição tão estranha como formosa. Com a mão segurava a espada e nos lábios perpassava-lhe uma oração. Assim andaram na calada da noite até um caminho mal defendido que ia dar à fortaleza. E quando o homem quis agradecer à sua preciosa guia tamanha mercê, ficou por momentos pregado ao solo. O espanto e a certeza da graça divina paralisaram-no. Ela, a mulher que tão útil tinha sido, desaparecera como surgira! De mãos juntas e olhos postos no céu, Vasco Vasques murmurou consigo mesmo:

— Como é grande o desígnio de Deus!

De manhãzinha, com os primeiros alvores do dia, os portugueses desembarcaram. Cada instante seria uma incógnita. Mas, afoito e sorridente, lá estava no seu posto Vasco Vasques, que na sua voz vibrante de confiança tratou de os encaminhar.

— Por aqui companheiros, por aqui! A vitória será nossa!

Logo a praia deserta se encheu de homens bravos e cheios de fé. A algazarra das vozes e das armas veio quebrar o silêncio daquelas paragens onde só o mar tinha licença para se impor. Então, o infante D. Henrique, com o olhar vibrante de entusiasmo, colocou a mão no ombro de Vasco Vasques dizendo:

— Obrigado amigo! Eu sabia que podia contar convosco!

Depois, voltando-se para os que o acompanhavam:

— Avante, portugueses, avante!

O que depois se seguiu, não é fácil descrever. Mas a história de Portugal guarda para sempre essa página talhada pelos portugueses nas areias e nas pedras de Ceuta. Página escrita a letras de sangue. Página imorredoira, pois o tempo não a conseguirá destruir.

Tal foi a grande batalha de Ceuta. Porém, conta a lenda que no meio do fragor do combate, Vasco Vasques ouviu uma voz estranha e bela que o incitava:

— Por aqui, cavaleiro! Por aqui! Tende fé, que a vitória será vossa!

Na balbúrdia da luta, Vasco Vasques gritou para D. Henrique:

— Ouvis, senhor Infante? É a mesma voz que me indicou o caminho!

Sem voltar a cabeça, olhos postos no movimento das armas, o Infante respondeu:

— Tendes alucinações amigo! Nada oiço, além deste fragor!

Com o coração quase suspenso, Vasco Vasques insistiu:

— Escutai, Senhor... escutai melhor!

E a voz tornava a encantar o velho guerreiro:

— A vitória será dos portugueses! E esta terra não pertencerá mais aos infiéis! Deus estará convosco!

Entusiasmado, Vasco Vasques tornou a gritar:

— Ouvis agora, Senhor?

Mas o infante D. Henrique nada ouvia. A mensagem era apenas para o cristão que primeiramente tinha pisado as areias de Ceuta. Porém, impressionado pelo ardor do seu fiel Vasco Vasques, o infante D. Henrique ali prometeu, sobre o sangue que tingia as ruas de Ceuta, que ele próprio mandaria para lá uma imagem da Virgem. E essa imagem havia de ter o mesmo rosto que Vasco Vasques descobrira naquela noite escura. Noite carregada de sombra que viria a marcar o reinado da mais bela luz do mundo!


 
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