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Data: Sex Nov 15, 2019 13:02
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Lendas de Portugal
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sáb Jan 26, 2019 22:23     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda de Lamego

In diversas fontes da net.

Pelos anos 1062, era rei de Lamego um mouro chamado Al-Boazan que tinha uma filha chamada Ardinga ou Ardínia que se enamorou do cavaleiro cristão D. Thedon Ramirez, filho do infante Alboazar Ramirez (o Cid) e neto de D. Ramiro II de Leão.

Fugiu a moirinha ao pai, vestida de homem, com uma sua colaça por companheira, em busca de D. Thedon.

Chegou a uma ermida perto do rio Távora, que era da invocação do apostolo S. Pedro (hoje S. Pedro das Águias) e ai, vendo um ermitão chamado Gelasio, lhe disse quem era e ao que vinha, dizendo-lhe também que se queria fazer cristã.

O anacoreta instruiu-a nos mistérios da religião cristã e baptisou-a prometendo-lhe que D. Thedon casaria com ela, o que não teve efeito, porque o pai dele foi ao encontro dela e matou-a afogando-a no rio Távora.

D. Thedon ao saber do sucedido ficou muito pesaroso pela morte de Ardinga e prometeu não se casar nunca e cumpriu essa promessa.

Passados alguns anos, vindo D. Thedon depois de ter tido uma grande victória contra os mouros, foi surpreendido por uma grande partida deles que, depois de encarniçada resistência, mataram-no junto de um rio, que desde então tomou o seu nome…Thedon…que mesmo com o tempo, ainda conserva com pouca alteração o mesmo nome mas mais simplificado, tendo passando para Tédo.

 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Dom Jan 27, 2019 20:48     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda da Moura de Alfátema

In diversas fontes da net.

Quando a noite se estendeu sobre a serra suave e lentamente e havia apenas uma moldura de céu, o jovem Ataúlfo não se importou. Combinara encontrar-se com a bela princesa Fátima, a mais linda moura daquelas redondezas e nada o poderia impedir. Nem a noite. Nem os mouros. Ele sentia-se forte e feliz!

E quanto tempo fora necessário para convencer a formosa Fátima!... De princípio, ela escusara-se por completo. Que não! Nunca faria isso a seu pai, o poderoso emir de Manteigas. Dar ouvidos às falas aliciantes de Ataúlfo, um cavaleiro ousado, já era muito. Porém, fugir com ele, isso nunca!

Mas Ataúlfo insistiu. Nos fins de tarde, quando a apanhava solitária e se podia acercar, ele cantava-lhe o seu amor, prometendo-lhe um futuro risonho e maravilhoso. Um futuro de felicidade plena.

Fátima escutava-o e amolecia a pouco e pouco. Ficava imaginando o que seria essa vida alegre e graciosa lá longe nas terras dos cristãos, entre cantigas e danças de prazer. E um dia, quando seu pai o emir de Manteigas a descobriu em pleno idílio e a arrastou pelos cabelos fazendo-a sofrer e gritar, a bela Fátima pensou que talvez Ataúlfo tivesse razão.

No entanto, levou ainda longo tempo a reflectir e não cedeu logo. Todavia, perante a insistência de Ataúlfo, cada vez mais enamorado e também cada vez mais destemido para a ver, ela acabou por concordar:

— Irei contigo sim!... Na primeira noite em que a Lua se esconder, podes vir buscar-me!

— Assim farei minha bem-amada! … gritou Ataúlfo radiante de alegria. …Mas porque tens tu de esperar que a Lua se esconda?

Ela hesitou ainda. Mas logo confessou ingenuamente:

— Porque a Lua é a minha madrinha… e eu não a quero envergonhar.

Ataúlfo não soube que responder. Partiu pois, levando na alma a esperança de uma próxima noite com a Lua escondida...


Assim acontecera nessa noite. Logo que deu pelo facto, Ataúlfo montou ligeiro e meteu-se a caminho. Todo ele ardia em ansiedade. Aquilo representava para ele uma dupla vitória… conquistava a mulher amada e simultaneamente convertia à fé de Cristo mais uma linda princesa agarena.

Aliás, ela deixava raptar-se na melhor altura. Ataúlfo bem sabia que as hostes lusitanas estavam prestes a conquistar toda a serra. Manteigas não podia resistir...

Ataúlfo esporeou a sua montada. Não podia haver demoras. A ideia de Fátima ser raptada numa noite sem Lua tinha afinal muitas vantagens. Assim, estaria mais à vontade, tudo se passaria em plena escuridão sem possibilidade de qualquer alarme. Mas não poderia haver muita demora...

Pressentindo que a bela Fátima já o esperava, preparada para a fuga, o jovem Ataúlfo espicaçou o cavalo ainda mais, correndo à desfilada pelo caminho que bem conhecia, agradecendo à Lua a sua protecção.

Porém, Ataúlfo enganava-se por completo, ao pensar que a Lua escondida o estava a proteger. Mal podia ele adivinhar que se tratava apenas de uma emboscada.

A fada da Lua, madrinha da princesa Fátima, descobrira tudo facilmente. Vira as tentativas de aproximação do jovem Ataúlfo. Compreendera que Fátima não ia resistir muito tempo aos galanteios do cavaleiro cristão e acertara! Depois, seguira passo a passo o idílio vivido entre Fátima e Ataúlfo, ambos sedentos de amor. Assistira também à violenta intervenção do poderoso emir de Manteigas, pai de Fátima, e ouvira este aceder ao seu rapto... mas só numa noite em que a Lua estivesse escondida.

A fada sorrira... E logo preparara também o seu plano. Descera a montanha e convocara o conselho dos Velhos Deuses.

— Preciso mais uma vez da vossa ajuda... A minha afilhada Fátima, e princesa de Manteigas, quer fugir com um jovem cavaleiro cristão. Que devemos fazer?

Os velhos deuses entreolharam-se. Com espanto…com mágoa…com desalento…

— Que podemos nós fazer querida fada?

— Os Lusitanos estão a escorraçar todos os mouros destas terras… Depois será a nossa vez…

— Nada e ninguém se pode opor à fúria dos invasores!

— Eles são protegidos pelo Deus verdadeiro, contra o qual somos impotentes.

— E trazem à frente um rei invencível!

— Nada há a fazer, boa fada!

Mas ela não se deu por vencida nem convencida.

— Pois se vós, velhos deuses, já não sabeis pensar... eu pensarei por vós!

Mais espanto…mais mágoa…mais desalento.

— E que podereis vós pensar?

Ela inclinou-se para diante e obrigou-os a fazer um círculo em seu redor.

— Escutai então! Fazei com que dois dos mais fortes guerreiros mouros saiam ao caminho de Ataúlfo... Ele poderá vencer um... mas dois ser-lhe-ão sempre superiores. É necessário que Ataúlfo fique no caminho!... Compreendeis? Depois eu me encarregarei de castigar a pérfida Fátima.

Os velhos deuses entreolharam-se mais uma vez e encolheram os ombros. Já que não havia outro remédio, pois que se fizesse a vontade à irmã fada... Mas eles não acreditavam no resultado. Já não acreditavam em coisa alguma, depois de tudo o que se estava a passar. Só um deles, o mais feio e o mais triste, conseguiu sorrir. Um sorriso enigmático. Um sorriso amoroso...
E foi assim que o jovem Ataúlfo, correndo vertiginosamente ao encontro da sua bem-amada, viu de súbito na sua frente dois fortes guerreiros mouros que o obrigaram a parar.

— Onde ides, miserável cão cristão?

— Que tendes com isso? Este caminho já não é vosso, porcos sarracenos!

— Enganais-vos, imbecil! Tudo isto ainda é nosso!

— Deixai-me passar, se tendes amor à vida!

Os dois mouros riram estrepitosamente. Depois um deles falou, continuando a rir.

— Isso dizemos nós, abjecto cristão...

E o outro rematou logo num tom duro e desagradável:

— Se tens amor à pele, desaparece... enquanto nós nos preparamos para te esfolar!

Mas Ataúlfo não era homem que cedesse perante quaisquer ameaças. Num instante, desceu a viseira, empunhou a espada e atirou-se como um leão sobre os adversários, que mal tiveram tempo para segurar as adagas.

No silêncio da noite escura, o combate ganhou proporções dramáticas. Brutais. De vida ou de morte!

Do seu recanto, escondidos aos olhos do mundo, os velhos deuses e a fada da Lua seguiam a luta que se desenrolava…luta sem tréguas…luta sem piedade.

— Vede, irmã fada... O lusitano parece levar a melhor!

— É verdade, que força tamanha a dele!

— E que valentia sem par!

— Já derrubou um dos guerreiros agarenos... Olhai... Está a escorrer sangue e o cavalo arrasta-o!

— Resta o outro... mas o cavaleiro cristão começa a dominá-lo.

— Não é possível! Não é possível!

— Infelizmente vai vencê-lo, querida irmã... Nada mais podemos fazer!

Foi então que o mais feio e o mais triste dos deuses da montanha se ergueu e avançou para a fada da Lua.

— Sim, ainda podemos fazer alguma coisa... Eu pelo menos, posso fazer alguma coisa!

Os outros olharam-no espantados.

— Se me permitis, boa fada que eu sempre adorei... vou sacrificar-me por vós!

Ela suspirou profundamente e estendeu as sua mãozinhas diáfanas como que a tentar impedir o gesto. Mas o mais feio e o mais triste dos deuses da montanha continuou imperturbavelmente:

— Não há tempo a perder... Vede como o jovem Ataúlfo domina o adversário... Vai matá-lo de um momento para o outro... Tenho de intervir imediatamente!... Adeus companheiros! Adeus, minha querida fada!

E, num milésimo de segundo, à vista de todos eles, o mais feio, o mais triste dos deuses da montanha transformou-se num penhasco horrível. Penhasco que rolou pela montanha e foi cair com estrondo enorme sobre o jovem cavaleiro Ataúlfo, fazendo-o rolar com o seu cavalo pela ribanceira abrupta...

Em vão Fátima, a bela Fátima, esperou pelo seu enamorado. Ele não mais apareceu. A Lua deixou de estar escondida e revelou-se de novo ao olhos de toda a gente, enchendo a noite de claridade. E quando a Lua reapareceu… foi a fada que surgiu junto de Fátima.

— Vós… aqui... minha madrinha?

— Sim... Venho buscar-te!

Fátima olhou-a sem compreender.

— Buscar-me? Mas... para onde? Meu pai não quer que eu saia de Manteigas...

— Enganas-te... Sais tu... e sai ele também, com todos os seus homens... Os cristãos já estão perto!

Um grito abafado morreu na garganta da princesa moura.

— Eu... não posso... não quero... sair daqui!

— Esperas alguém?

Fitaram-se intensa e profundamente. Por fim, a bela Fátima ousou responder.

— Sim... Espero alguém!

— Pois escusas de esperar. Esse alguém nunca mais chegará!

Desta vez foi um grito que se ouviu. Grito de dor lancinante.

— Que dizeis?

Calma, a fada da Lua retorquiu:

— Isso mesmo! O jovem Ataúlfo já não é deste mundo.

As lágrimas inundaram o lindo rosto de Fátima.

— Como... Como o sabeis?

Sempre serenamente, veio a explicação.

— Assisti à sua morte. Morreu como um valente, mas morreu. Os deuses da montanha não o deixaram passar. Quero dizer, um dos deuses, por amor de mim, não o deixou passar!

Fátima nada mais disse, chorou apenas. E foi num silêncio molhado de lágrimas que ela escutou o resto da explicação.

— Já falei com o teu pai, Fátima. Ele ficou muito pesaroso acredita. Pesaroso e doente. Pediu-me para te castigar, por pretenderes fugir com um cavaleiro cristão. Já não quer saber de ti. Vai fugir agora para o alto de Alfátema, mas sabe que não poderá resistir muito mais. Os cristãos, fortes e ousados como são, apossar-se-ão de tudo isto, como já se apossaram do resto. Ainda possuímos Al-Gharb, mas fica muito longe... Nós teremos de ficar por aqui. Vem comigo!

E saíram silenciosamente, por caminhos que só a fada conhecia. A luta estava no auge e até elas chegavam os gritos dos combatentes. Misturavam-se os berros de vitória dos cristãos com os queixumes desalentados dos mouros, com os gemidos dos moribundos e com o tropel dos que fugiam em debandada.

— Ouves Fátima? Os cristãos já estão a assaltar o cimo de Alfátema... Temos de andar mais depressa!

E andaram até chegar a um recanto do monte, junto do qual pararam a um sinal da fada. Esta bateu com a sua varinha mágica na rocha e logo uma porta se abriu misteriosamente, dando-lhes passagem.

— Eis onde ficarás encantada para sempre princesa Fátima... É um palácio construído de propósito para ti.

Só então a bela princesa reagiu, perante o castigo de ficar ali enterrada para sempre.

— Oh, minha madrinha! Eu não quero... eu não posso!

Mas de repente notou que estava a falar sozinha. A fada desaparecera. Fátima caiu de joelhos, soluçando. E teve a impressão de que escutava ainda uma voz no espaço que lhe dizia:

— Ficarás aqui até que algum guerreiro da tua raça tenha coragem para te vir libertar... E uma noite em cada ano poderás subir ao penhasco e chorar a morte do teu bem-amado Ataúlfo, por amor do qual sofres tamanho castigo!

Nada mais...

E talvez por isso mesmo os pastores da serra da Estrela dizem ainda hoje que em certa noite do ano se pode ver nos penhascos de Alfátema uma visão estranha, muito bela, vestida de branco, cantando e chorando...


 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Ter Jan 29, 2019 01:14     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda de Qual Delas

In diversas fontes da net.

E a história começa assim...
Em certo palácio de certa terra existia certo rei mouro, temível e temido que possuía duas filhas gémeas, tão iguais no rosto e na voz, na figura e nos gestos, que impossível se tornava para o próprio pai distinguir uma da outra.

E o rei mouro queixava-se amargamente.

— Oh, que castigo o meu!... Quero falar com as minhas filhas e nunca sei qual tenho na frente!

Elas bem o queriam ajudar.

— Meu pai, então?... Bem sabeis que eu sou a Zaida... Pois não me conheceis tão bem?

— E eu sou a Salúquia, meu pai... Olhai bem para mim...

Mas o rei mouro olhava para uma e para outra, e cada vez parecia mais confuso.

— Calai-vos, minhas filhas... Calai-vos, por favor!

Depois, amarfanhado, aturdido, confessou:

— Tenho que vos dizer filhas minhas, que ao ouvir agora as vossas vozes as confundi de tal modo que julguei tratar-se apenas de uma só!

As princesas olharam-se perplexas.

— Oh, senhor meu pai!

— Que havemos nós de fazer?

O rei ergueu os olhos para o tecto da rica sala onde se encontravam, como que a procurar uma inspiração. Mas a inspiração não apareceu...

A inspiração surgiu alguns dias depois. À força de estudar o assunto, o rei mouro julgou ter descoberto a maneira de diferençar e reconhecer as suas filhas.

Mandou que viessem à sua presença e disse-lhes:

— Agora sim!... Agora, já sei como hei-de distinguir-vos uma da outra!... Tu Zaída, usarás uma roca de prata... E tu Salúquia, uma roca de ouro... Assim, de futuro saberei sempre ao certo com qual de vós estarei falando!

Elas riram-se e aceitaram as rocas trocando olhares entre si. E quando saíram, o rei mouro voltou a ser assaltado pela dúvida.

— Não teria eu trocado as rocas ao distribuí-las? Como sabia eu qual era a Zaída e qual era a Salúquia? Isto é de enlouquecer!

Mas o tempo foi passando…e ele não enlouqueceu.

Entretanto Zaída e Salúquia viviam felizes à sua maneira, sonhando com o futuro. Conversavam muito uma com a outra. Mas a certa altura começaram a entediar-se, porque as suas vozes eram iguais.

— Oh, Salúquia!... Qualquer dia seremos capazes de pensar como o nosso pai...

— Tens razão Zaída. Somos tão iguais... tão iguais...

— Foi o destino que quis... Quem sabe?... Talvez a maldição de alguma feitiçaria...

— Oh Zaída, que tormento!... Estou a ouvir a tua voz e parece-me que é a minha!

— Comigo passa-se o mesmo Salúquia. Penso que o melhor é não falarmos mais uma com a outra, a não ser em caso de absoluta necessidade. Estás de acordo?

Salúquia baixou a cabeça para esconder os olhos chorosos.

— Estou de acordo sim, minha irmã. Que se cumpra a vontade de Alá!

E daí em diante, com raras excepções, o silêncio passou a reinar entre elas. Até que um dia...

Um dia, passou por ali um garboso cavaleiro e viu-as numa das varandas do palácio. Parou, cumprimentou-as numa vénia e disse, galanteador e sorridente:

— Que prodígio de maravilha! Jamais em toda a minha vida encontrei tanta beleza junta!

Elas sorriram também, enleadas e confusas. E quiseram corresponder ao amável cumprimento do jovem cavaleiro desconhecido.

Zaída perguntou:

— Quem sois vós, nobre cavaleiro?

E Salúquia ajuntou:

— Vindes de longe decerto... Quereis descansar?

Ele aproximou-se mais da varanda do palácio, fazendo saracotear o seu cavalo. E confessou:

— Sim, venho de muito longe. Sou um cavaleiro cristão.

Logo dois gritos de susto o interromperam violentamente.

— Um cavaleiro cristão? Que horror!

— Fujamos irmã, fujamos!

E ambas desapareceram, sem dar tempo a que ele dissesse mais palavra...

O jovem cavaleiro ficou pensativo. Pensativo e preocupado. Das duas, qual lhe teria provocado maior impressão?

Era preciso vê-las de novo, falar-lhes, gritar-lhes o seu deslumbramento. E sem mais hesitações gritou, com a força da própria juventude:

— Abri as portas do vosso palácio! É um nobre cavaleiro cristão que vos pede!

Houve um silêncio…curto…pesado…de autêntica expectativa. E foi a voz autoritária do nobre rei mouro que lhe respondeu:
— As portas do meu palácio não se abrem para deixar entrar cristãos!

O jovem cavaleiro olhou para o alto das ameias.

— Ah, agora compreendo... Sois um rei mouro, e por isso tendes duas filhas tão belas...Deu um tom mais suave à sua voz, para concluir:

— Mas isso que importa? De qualquer modo senhor, desejo pedir em casamento uma das vossas filhas.

Soou uma gargalhada sarcástica. Depois, o rei mouro, mostrando-se bem, clamou com a violência da sua autoridade:

— Em casamento? Sois tolo, cavaleiro cristão! Nunca tereis qualquer das minhas filhas, enquanto o meu alfange puder cortar as cabeças dos nazarenos, tal como posso cortar agora o tronco desta árvore.

E num golpe surdo de raiva, o temível e temido rei mouro cortou cerce o tronco duma linda olaia.

O jovem cavaleiro cristão era teimoso e valente. Fingiu afastar-se, mas voltou pela calada da noite. E, segundo é ainda voz corrente na voz do povo, nessa mesma noite, num assomo de coragem, ele conseguiu trepar a uma das varandas do palácio, iludindo a vigilância das sentinelas mouras. Rondando as janelas iluminadas, descobriu de repente a sala das princesas, onde ambas se entregavam aos queixumes tristes duma bela música.

Quando o viram aparecer de improviso, as duas ergueram-se num sobressalto, com o pavor estampado no rosto. E pareciam mais iguais do que nunca.

Mas o cavaleiro avançou e disse-lhes em tom de segredo:

— Não deveis ter medo de mim. Quero apenas falar com aquela que me encheu o coração... aquela por quem me apaixonei para sempre!

Ambas se entreolharam. E perguntaram, ainda a medo:

— Qual de nós é que procurais, senhor cavaleiro?

— A mim... ou à minha irmã?

Ele quedou-se, como que aturdido, fitando-as alternadamente.

— Por Deus, como é difícil responder às vossas perguntas!

Encaminhou-se para uma delas.

— Sois vós... Sim, deveis ser vós… mas...

Olhou a outra, que o olhava também.

— ... mas... talvez sejais vós... Agora reparo melhor... enfim, não sei!

E suspirando fundo, acabou por confessar a sua perplexidade:

— Sim… não há diferença alguma entre vós... Sois absolutamente iguais… Como escolher portanto?

— Eu sou a Zaída!

— Eu sou a Salúquia!

De novo, ele pareceu desnorteado. E esquecendo-se do perigo em que se encontrava, bradou forte, a traduzir em palavras o seu próprio espanto:

— Mas tendes a mesma voz… os mesmos gestos... a mesma figura... a mesma...

Elas interromperam-no num ar de aflição.

— Silêncio, senhor cavaleiro!... Vem aí nosso pai... Deve ter ouvido vossa voz.

— Fugi, senhor cavaleiro!... Voltai por onde viestes!

Mas era tarde. As portas da sala escancararam-se de par em par e apareceu o rei mouro, já de alfange desembainhado.

— Parai, cobarde cavaleiro cristão! O meu alfange vai cortar-vos a cabeça… como cortou a árvore!

Num salto ágil, o jovem cavaleiro esquivou-se ao golpe brutal do rei mouro. E gritou então, preparando-se para a luta:

— Enganais-vos… porque eu também tenho uma espada! Por momentos, perante os rostos angustiadamente iguais das duas princesas irmãs, travou-se um duelo de vida ou de morte. Mas a juventude acabou por vencer. O alfange voou das mãos do rei mouro e o jovem cavaleiro cristão, sem dar tempo a que ele se recompusesse, desapareceu gritando:

— Esperai, que eu hei-de voltar!

E na verdade, conforme se conta, voltou pouco tempo depois à testa dum grande exército e pôs cerco ao palácio.

Rodeado pela sua guarda de honra, o cavaleiro cristão avançou até onde lhe foi possível e gritou para as varandas:

— Conforme prometi, aqui estou de novo! Se não queres que arrase o teu palácio, miserável rei mouro, tens de me dar uma das tuas filhas!

Impressionado com a esmagadora superioridade numérica dos sitiantes e não sentindo muitas possibilidades de resistir, o rei mouro pareceu ceder.

— Quereis então uma das minhas filhas?... Mas qual desejais? Qual delas?

Houve uma pausa…longa…dramática. Como que para si próprio, indeciso, confuso, o cavaleiro cristão repetiu:

— Qual delas? Sim… qual delas?

E não sabendo que resposta dar ao rei mouro…nem a si mesmo, sequer…ele deu apenas ordem para o ataque ao palácio...

Tal como se previa, perante forças muito mais numerosas e melhor adestradas para o combate, os mouros depressa foram dizimados. Os guerreiros cristãos entraram no palácio e, numa fúria cega, não pouparam ninguém nem mesmo as duas princesas!

O rei, vendo mortas as duas filhas, não teve mais coragem para resistir e suicidou-se, tombando junto das filhas, tão iguais na morte como o tinham sido sempre em vida…
Quando entrou, alucinado, em busca da sua bem-amada, o cavaleiro cristão encontrou somente um montão de cadáveres.
E caiu de joelhos, chorando a sua desdita.

— Fui eu o culpado de tudo isto!... Castigai-me, Senhor meu Deus!... Castigai-me, porque eu não soube escolher, meu Deus! Qual delas?

E o seu apelo angustioso ficou a repetir-se por entre as paredes desse palácio de ruína e de morte:

— Qual delas? Qual delas?
E para sempre também essa terra ficou a chamar-se a Terra de Qual Delas, designação que se transformou naturalmente em Terra de Caldelas e por fim, apenas em Caldelas.

E dizem os antigos que ainda hoje existem ruínas desse antigo e nobre palácio, arrasado por via dum complexo e singular problema de amor...


 
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Mensagem Enviada: Qua Jan 30, 2019 00:44     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda de Constância

In diversas fontes da net.

Punhete era o antigo nome de Constância. Foi no século passado que o nome mudou e segundo a lenda, em homenagem a um grande amor ali vivido.

Assim reza a lenda que no tempo das lutas liberais, aconteceu o amor entre dois jovens de duas importantes famílias da vila, no entanto, este amor era proibido, já que as famílias pertenciam a campos políticos opostos… uns eram Miguelistas e os outros Liberais.

Diz-se que apesar da oposição das famílias os jovens casaram e foram felizes. Anos mais tarde a Rainha D. Maria passou pela vila e esteve hospedada na casa do casal que então, contaram à rainha a sua história de amor.

A rainha terá ficado comovida e disse:

— Devido à constância do vosso amor e à beleza desta terra, que é tão bonita e tem um nome tão feio, a partir de agora ela passará a chamar-se Constância.


 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Qui Jan 31, 2019 00:33     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda de Leandro e de Elena

In diversas fontes da net.

Numa povoação muito antiga que tomou o nome de Celas, existia antes da nacionalidade um grande castro do qual era senhor Hermenegildo Mendes. Hermenegildo tinha dois filhos: Aires e Leandro. Aires seria o seu sucessor e em Leandro, embora não estivesse na linha do condado, punha grandes esperanças.

Na verdade, quando D. Afonso III de Leão conquistou aos Mouros a cidade de Coimbra, Leandro, que teria apenas quinze anos, destacou-se de tal forma, que o próprio rei quis que o levassem à sua presença para o conhecer e agraciar.

Nessa viagem, Leandro teve ocasião de mostrar mais uma vez o seu valor. Numa povoação a caminho da corte tinha havido um recontro entre cristãos e mouros. Leandro e seu irmão Aires reuniram os que pareciam já desbaratados, e correram com o inimigo. Foi aí que o jovem encontrou uma linda menina de cinco anos apenas, chorando amargamente. Perguntou-lhe:

— Que tendes?

— A minha mãe está a morrer!

— Onde?

— Ali, naquela casa!

A pequenita apontou uma casa apalaçada. Leandro correu, com a menina ao colo. Entrou na casa saqueada que parecia deserta. Perguntou:

— Onde está a vossa mãe?

A pequena desceu para o chão e correu à frente de Leandro, dizendo:

— Vinde depressa! Ela morre...

Abrindo uma porta meio despedaçada, a menina correu para um divã sobre o qual, pálida mas bela ainda, uma dama estava agonizando. Porém, ao ver a filha, teve forças para exclamar:

— Senhor... guardai... a minha Elena!

Leandro perguntou:

— E o vosso esposo? Morreu?

Uma lágrima correu pelo rosto da moribunda. Já não respondeu. Momentos depois, entregava a alma a Deus.

Leandro tratou de todos os preparativos para enterrar a dama, que soube chamar-se Irene de Argüelles, nobre de nascimento mas a quem ninguém conhecera esposo. A própria Elena dizia que o pai morrera antes de ela nascer. Mas não sabia o nome do pai. Não havia portanto, nada que o pudesse identificar. Elena ficara assim, sem família e sem recursos.

Não esquecendo o pedido da moribunda, Leandro, tão generoso como valente, levou Elena consigo na visita que fez ao rei e com ele a trouxe para Celas. O pai mandou-o chamar e perguntou-lhe:

— Leandro, meu filho, que história é essa de uma pequena órfã que trouxeste contigo?

Sem mostrar o receio que tinha de qualquer má vontade por parte de seu pai, Leandro esclareceu:

— Senhor, se me permitis, das rendas que me cabem tirarei uma parca mesada, e Clotilde, a mulher que foi minha ama e mora perto daqui numa casinha junto ao bosque, cuidará de Elena.

— E quem é Elena? Donde veio? Quem são os seus pais?

— Elena tem cinco anos. Não conheceu o pai, que talvez tenha morrido, ou viva sem se importar com a existência da filha.

— E a mãe?

— Morreu dos maus tratos dos infiéis. Saquearam-lhe a casa e destruíram tudo. Salvou-se a criança porque fugiu.

— Mas quem era a mãe de Elena?

— Uma dama descendente de nobres famílias, mas afastada delas por motivos que ignoro.

— E que pensas fazer?

— Quando Elena tiver mais idade, mandá-la-ei educar. Dar-lhe-ei depois um pequeno dote e poderá casar-se. Aí acabará o compromisso que tomei à hora da morte de uma linda mulher, que os infiéis não pouparam por lhes ter resistido.

Calou-se Leandro. O pai ficou pensativo. Depois, olhando-o com simpatia disse:

— Meu filho, criaste uma grande responsabilidade. Queira Deus que não venhas a sofrer algum dissabor! Vai. A minha curiosidade está satisfeita.

Leandro visitava com frequência a casinha do bosque. Aos oito anos, a menina foi mandada educar. Teve os melhores mestres, e damas competentes ensinaram-na a lidar com gente de alta condição. Quando voltou à casa do bosque tinham passado mais sete anos. Ao vê-la, Clotilde pôs as mãos numa acção de graças. Tinha lágrimas nos olhos.

— Como está linda, a minha menina!

Elena abraçou-a, também comovida.

— Clotilde, que saudades eu tive de ti e desta casinha do bosque!

Clotilde olhou em volta. Pareceu confusa.

— Esta casa já será humilde para vos acomodar. O meu senhor irá pensar o mesmo, visto que quis dar-vos tão grande educação.

Elena empalideceu. Deixou de sorrir. Voltou-se levemente, para não mostrar a ansiedade da sua expressão. Perguntou:

— Clotilde, tens visto muitas vezes o meu benfeitor?

— Tenho sim. Vem ver-me todas as semanas quando está no palácio. Mas esteve três anos fora, em guerras. Fiz tantas promessas para que ele voltasse!

— E quando voltou?

— Foi há quase um ano.

— E... já está decerto bem casado!

— Não! Por enquanto, não. Quem casou foi o senhor D. Aires. E que casamento! Ela ainda é parente d’el-rei D. Afonso!

Elena não respondeu. Fez-se um silêncio, que momentos depois a velha ama cortou:

— Já vistes o meu senhor?

— Não. Julguei que era ele quem iria buscar-me, mas... foi um primo.

— O senhor de Gusmão?

— Não. Creio que se trata do senhor Emínio.

— Ah! Um velho muito sorridente e amável?

— Sim. É velho, sorridente e amável.

— É muito amigo do meu senhor! Decerto irá também arranjar-vos onde morar. Mas vou sentir a vossa falta!

— Eu não sairei daqui!

— Que dizeis?

— Que me agrada esta casa e esta paisagem.

— Mas aqui não encontrareis noivo… a não ser algum lenhador... ou caçador furtivo!

— Não importa!

— Elena, tendes de casar! Senão ficareis sempre como um fardo para o meu senhor!

A jovem mordeu os lábios.

— Clotilde! Feriste-me com essa dura verdade! Mas ainda bem que a disseste. De facto, não tinha pensado nisso.

— Pois pensai! Pensai!

— Se eu casar... qual será o meu dote?

— Pequeno, mas tê-lo-eis que eu bem sei. Várias vezes o meu senhor falou nisso.

— E se eu professar?

A estupefacção de Clotilde foi grande.

— Quereis professar?

— Talvez!

— Porquê? Tendes mesmo vocação...

Clotilde cortou a frase, para gritar, cheia de contentamento:

— Menina! Aí vem o meu senhor! Vede como ele monta bem a cavalo!

Elena perturbou-se. Teve um movimento para fugir. Mas conseguiu agarrar-se a toda a sua coragem para ficar ali.

Já a velha Clotilde ia ao encontro do seu menino, gritando:

— Vede o que fizestes da menina que um dia aqui chegou! Parece uma rainha!

Leandro apeou-se e olhou a jovem. A surpresa que se lia no seu semblante era sincera. Embora soubesse Elena bonita, nunca imaginara que se fizesse tão bela mulher!

Caminhou para a jovem e beijou-lhe a mão.

— Senhora, o meu coração alegra-se de ver-vos!

Elena tremia de emoção e contentamento.

— Contemplai a vossa obra! Se do Alto as almas podem ver os entes queridos que estão na Terra, minha mãe decerto estará contente.

Leandro fez sentar a jovem.

— Elena, contai-me o que foram estes anos de estudo. Depois vos contarei as minhas peripécias.

Sentou-se ao lado da jovem, feliz. Conversaram e riram, esquecidos das horas que passavam. Foi necessário a velha Clotilde lembrar:

— Senhor! Vosso pai sempre foi rigoroso com certas praxes. Não falteis à hora da ceia!

Leandro saiu e prometeu voltar breve. E esse breve durou apenas algumas horas. No outro dia, mal a manhã sorriu, lá foi ele cavalgando, para a casinha do bosque. E isto aconteceu dia após dia, até que certa vez a boa Clotilde achou meio de dizer o que atormentava a sua alma.
Estavam eles brincando como crianças. As suas gargalhadas eram sadias. Mas Clotilde parecia alheada. Então, o jovem perguntou:

— Clotilde, que tendes? Estais doente?

Ela meneou a cabeça e declarou:

— São preocupações, Senhor!

— Preocupações? Acerca de quem?

— De vós!

— De mim?

— E de Elena!

— Que há?

— Já pensastes, Senhor, que seria da pobre menina se de súbito, chegasse a hora de vos casardes?

Ele deixou de rir.

— De facto… não penso nisso senão nas noites de insónia. Junto de Elena não tenho tristezas!

— Mas tendes de casar... e ela também!

Leandro olhou a rapariga:

— Elena! Tendes alguém em vista?

Ela quase gritou:

— Oh, não!

— Pois eu tenho!

Ela baixou o olhar. Apoiou-se a um cadeirão.

— Senhor! Se pensais em casar... acho melhor que visiteis menos esta casa.

— Porquê? Receais que vos comprometa?

— Só casarei depois de vós!

— Na verdade sois mais nova. Mas as mulheres bonitas casam-se cedo!

— Sou uma órfã sem nome de pai. Já fizestes quanto poderíeis fazer para o encontrar. Portanto, talvez nem encontre noivo que me queira.

— Pois tendes junto de vós um pretendente, que vos pede com humildade a vossa mão!

Elena tapou o rosto. As lágrimas correram-lhe. Não atinava com o que dizer. Ele afagou-a.

— Então, Elena! Chorais? Acaso vos melindrei?

Ela destapou o rosto.

— Leandro! Porque me mostrais o Céu se não devo tirar os pés da Terra!?

— Porque pensais assim? Não compreendestes ainda como vos amo?

— Desde que vos vi que o meu coração vos pertence! Sempre! Mesmo desde menina! Ou vós… ou Cristo! Como vedes, olho sempre para bem alto...

— Pois que Cristo me perdoe, mas tentarei arrebatar-vos a Ele.

— Vosso pai não consentirá!

— Tentarei tudo o que humanamente for possível. E já! Até amanhã Elena! Que Deus me ajude!

Leandro reuniu o conselho de família para expor o seu caso. Porém, seu pai foi inflexível:

Leandro não casaria com uma jovem filha de pai incógnito.

Desesperado, Leandro mandou recado a Elena, dizendo-lhe que saía por alguns dias, mas que não perdesse a fé. Montou a cavalo e partiu de facto, a caminho da corte. Iria falar com el-rei. Iria pedir-lhe de joelhos que o ajudasse a realizar o seu mais ardente desejo de felicidade.

El-rei D. Afonso recebeu o jovem com carinho e ouviu-o complacente. Fez várias perguntas. Talvez o pai de Elena pertencesse à corte e, assediado pelo monarca, tomasse conta da filha. Para isso quis saber tudo o que fosse possível acerca da mãe de Elena. Leandro não esqueceu qualquer pormenor. Chegou mesmo a mostrar a D. Afonso uma medalha que Elena lhe tinha dado e que sua mãe trazia ao peito. Então, o monarca visivelmente emocionado, pareceu fascinado na contemplação dessa medalha. Murmurou numa voz alterada:

— Meu filho, quis Deus que viésseis ter comigo! Reconheço esta medalha. Fui eu que a dei há alguns anos a uma jovem dama de alta estirpe a quem amei! Depois, as obrigações da coroa afastaram-me de Irene, quando a minha filha tinha três meses. Elena é do meu sangue, meu bom Leandro! Dizei a vosso pai que venha falar comigo. Eu darei um dote e um nome a Elena. Devo essa reparação à pobre Irene.

Calou-se o monarca. Leandro beijou-lhe as mãos e saiu. O seu cavalo galopava como vento em dia de tempestade. A primeira pessoa com quem falaria era seu pai. Depois, a sua querida Elena!

Pouco tempo depois Leandro e Elena casavam com a maior pompa, tendo por padrinho el-rei D. Afonso III de Leão. E embora recebessem convite para ficar mais perto da corte, o jovem casal pediu licença, que foi concedida, para transformar a pequenina casa do bosque numa casa magnífica, que seria daí por diante mais um lar feliz.


 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Sex Fev 01, 2019 01:00     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda da Pieira de Lobos

In diversas fontes da net.

Era uma vez um cavaleiro chamado D. Afonso Ancemonde, senhor de Refojos em terras de Ponte de Lima onde residia num grande solar acastelado.

Fora companheiro de armas do pai do nosso primeiro rei e junto dele, travara inúmeras batalhas contra os moiros, distinguindo-se pela firmeza do pulso no manejo do montante, a cair violento sobre os brancos albornozes tingindo-os de sangue vivo.

Mas a sua bravura igualava a brandura do seu coração, perante o encanto de uma mulher. Pois ao apaixonar-se, aquebrantava-se-lhe o ímpeto guerreiro, entregue unicamente à doçura do amor.

Caçador infatigável, ocupava as suas madrugadas perseguindo no monte áspero da Labruja o rasto do urso que por esses tempos habitava aquelas selvas feroz e traiçoeiro. Um dia porém, surgiu-lhe pela frente, ululante, uma alcateia de lobos famintos e ameaçadores.

Não se temeu dela D. Afonso. Tomou o arco e disparou uma flecha certeira, atingindo entre os olhos de fogo o chefe do bando, que o comandava à dianteira.

O animal ferido soltou um uivo medonho e desapareceu numa brecha entre dois altos penedos seguido pelos companheiros.

Quis o fidalgo ir-lhes no encalce esporeando com fúria, os flancos do seu ginete aterrorizado.

Partiu o cavaleiro numa corrida desenfreada. Mas o cavalo, cego de dor e de medo, foi chocar com a dureza dos penedos derrubando D. Afonso que ali quedou desmaiado.

Quando o senhor de Refojos abriu por fim os olhos, viu-se deitado numa vasta gruta recoberta de peles de corça, assistido por uma dama formosíssima, que tinha aos pés com a mansidão de um cordeiro, o lobo alvejado pela sua flecha. Perguntou-lhe D. Afonso quem era e porque se encontrava naquele misterioso lugar na companhia perigosa de uma fera. Ouviu-lhe então com espanto, a história do que lhe tinha acontecido e do que lhe estava a acontecer: Última das sete filhas de um casal de nobres pergaminhos, os pais tinham-se esquecido de lhe dar por madrinha uma das seis irmãs, condenando-a assim, a um destino maldito e quando a Lua Cheia ilumina as noites limianas, ela transforma-se em pieira de lobos (pastora de lobos), vagueando, com eles, pelo escuro das brenhas, pelos fundos fojos das montanhas, vendo-lhes a fauce sangrenta de abocanhar as presas, os olhos coruscantes. Mas nesse dia, completava-se o sétimo ano da sua condenação, quando o amor de um homem a poderia restituir à liberdade, à paz de uma vida normal.

Por certo, D. Afonso era esse homem que a salvaria de fado tão cruento, concedendo-lhe a desejada felicidade. Mas não era.

O cavaleiro, embora fascinado pela beleza da jovem, julgou-se diante de uma impostora, de alguém que lhe cobiçava o nome e a fortuna, inventando uma história fantástica para o seduzir.

Talvez uma dessas muitas comediantes que conhecera nas trupes teatrais, animadoras de serões dos paços, com seus trovadores, poetas e bailarinos, suas momices e entremezes. Sim: com muitas dessas comediantes tivera amores passageiros, que lhe enfraqueciam os golpes de espada, no ardor do combate.

Não, não acreditava naquela falsa pieira de lobos, no artificio da gruta, no lobo submisso! Tudo aquilo era apenas, uma cilada ao seu coração sensível. Com um gesto indignado afastou de si a embusteira.

Ai dele, porém! A pieira de lobos falava verdade. E, magoada com a dúvida de D. Afonso, logo nesse instante lhe lançou uma terrível maldição:

- Tal com eu, irás vaguear, durante milhares de anos, atrás de outros milhares, por todos estes vales e florestas em noites de Lua Cheia, seguido por uma alcateia ululante! Depois dos malfadados acontecimentos desse dia de caça, o fidalgo pouco durou com vida. Doou aos frades todas as suas terras de Refojos e morreu de uma doença desconhecida e fatal.

Escusado será dizer que, quando sobe a Lua Cheia no céu daquelas paragens, no espaço de um relâmpago, qualquer um pode avistar D. Afonso Ancemonde, hirto na sela do seu cavalo, galopando alucinadamente, seguido por uma alcateia ululante.

Onde vai? De onde vem? Ninguém o saberá dizer. Sabe-se apenas que esta visão, iluminada por um luar funéreo, ira assombrar os caminhos da Ribeira-Lima durante milhares de anos, atrás de outros milhares.


 
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Mensagem Enviada: Sex Fev 01, 2019 22:02     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda de Frei Diogo do Amor de Deus

In diversas fontes da net.

Diogo era um jovem muito impulsivo, filho de um ourives algarvio. Muito novo apaixonou-se por uma vizinha, uma linda rapariga de olhos de jade.

Numa certa manhã de Abril, na oficina de ourives do pai de Diogo, foi entregue um cálice de prata para dourar, no qual ainda naquele dia tinha sido colocada a hóstia consagrada, durante a missa rezada na igreja matriz.

Ao verem tão belo cálice, os dois jovens namorados não hesitaram e, entre risos de alegria e juras de amor, às escondidas do ourives, beberam vinho e mel pelo vaso sagrado, sem pensarem no sacrilégio que cometiam. À noite quando estava deitado, Diogo teve uma visão aterradora…na parede do quarto, escritas a fogo, apareceram as seguintes palavras “contado, pesado, dividido”.

O jovem ficou preocupado e na manhã seguinte, procurou um monge com fama de santo e sábio para que lhe interpretasse as palavras da visão. Depois de ouvir a interpretação -…“contados, os dias; pesados na balança divina; divididos a casa e os bens do pai pelos inimigos”…Diogo pediu que lhe indicasse um caminho.

O monge disse-lhe que, para poder depois da morte encontrar o céu, teria de entrar para a congregação dos irmãos de S. Paulo, os eremitas da morte, e aproximar-se em vida do fogo do inferno.

Convencido pelas palavras do monge, Diogo abandonou a jovem amada e a casa do pai, fez-se frade e embarcou para as regiões do Missouri, cuja nascente é um verdadeiro respiradouro do inferno. Passou anos nesta região, servindo doentes e enterrando os mortos.

As mortificações do corpo traziam-lhe paz à alma, mas, cansado dos enormes trabalhos, embarcou para Portugal, fazendo escala no arquipélago dos Açores.

A viagem fortificou-o e, ao desembarcar em Vila Franca, dali dirigiu-se para o vale das Furnas, onde passou a habitar uma choupana junto da ermida de Nossa Senhora da Consolação. Mais uma vez escolhera o ambiente que na terra mais o poderia aproximar da visão do inferno e aí passou a viver uma vida de penitência e de louvor ao Senhor.

D. Manuel da Câmara, capitão donatário da ilha de S. Miguel, considerou a vida deste eremita e mandou construir um pequeno mosteiro para Frei Diogo e outros eremitas.

Contudo, nos primeiros dias de Setembro de mil seiscentos e trinta, durante a noite, a terra começou a tremer, caíram chuvas bastas de cinzas que soterraram homens, animais e plantações.

Os eremitas do Vale das Furnas recolheram imagens, relíquias e o sacrário e puseram-se em fuga para o Vale de Cabaços. Apenas Frei Diogo do Amor de Deus ficou e, no momento em que a onda de lava o abrasou, estendeu-se por toda a ilha uma fragrância, um perfume celeste.

No lugar do antigo mosteiro dos eremitas construiu-se anos mais tarde, a igreja das Furnas, cuja padroeira é Santa Ana.


 
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Mensagem Enviada: Dom Fev 03, 2019 21:45     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda da Virgem das Açucenas

In diversas fontes da net.

Perto de Fornos de Algodres na Beira Alta, existiu em tempos muito remotos um castelo que pela sua forte configuração foi um dos baluartes contra os bárbaros e dos poucos que sobreviveram à invasão árabe.

Conta a lenda que Amir, companheiro de armas de Tárique, era o comandante das hostes que sitiavam o castelo. O assalto foi duro, mesmo feroz. As tropas de Amir sofreram muitas baixas. Por isso, quando sentiram que a vitória iria pertencer-lhes, penetraram no interior do castelo sedentos de vingança. Em breve se espalharam por todas as dependências do edifício, saqueando com a maior das impiedades. Porém, ao penetrarem na capela, detiveram-se impressionados ante uma bela aparição. Ajoelhada defronte de uma imagem de Jesus Cristo, estava uma jovem de deslumbrante beleza. Era Elvira, a filha do castelão, heróico defensor dos seus domínios, mas que tinha sucumbido durante a luta.

Tão absorta estava na sua oração a jovem Elvira, que nem dera pela presença dos árabes. Pedia a Deus clemência para essa guerra de horror.

Passado o primeiro momento de surpresa iam já precipitar-se sobre a castelã, quando Amir, num gesto imperioso os deteve e lhes ordenou:

— Saiam daqui!

Os guerreiros obedeceram. A jovem voltou-se num misto de surpresa e de terror. Ficara só na capela com o caudilho mouro. Este mirava-a intensamente, mas não dava um passo, não dizia uma palavra. A jovem chamou a si todo o sangue frio. A presença dos infiéis na capela significava…bem o sabia…que a derrota chegara e que o seu pai devia estar morto. Teve desejo de cair no chão soluçando. Mas a vista desse homem de porte altivo que não deixava de a fitar deu-lhe forças para encarar a situação. Serena quanto pôde em tal momento, a sua voz bonita soou:

— Senhor, afastai-vos! A vossa presença está a profanar esta capela!

Faiscaram mais os olhos de Amir. Olhou ainda em silêncio e estático por mais uns segundos a donzela cristã. Depois, serenamente, avançou para ela... O pânico apoderou-se da jovem. Não teve forças sequer para orar. Teria caído desamparada no chão se Amir não tivesse corrido a tempo de a amparar nos seus braços fortes.

Amir era mouro, mas fidalgo e cavaleiro. Tentou reanimar a jovem. Ordenou que fosse extinto o fogo que começava a incendiar o castelo. Exigiu que devolvessem à castelã todos os objectos preciosos saqueados e deu liberdade às donzelas e a todos os fiéis servidores de Elvira. Apenas ele Amir, e alguns dos seus guerreiros, ficaram numa das alas do castelo.

Alguns dias passaram. A jovem Elvira sentia-se segura. Rodeavam-na do maior respeito e simpatia. Chorava apenas a perda do pai e a dos seus amigos. Mas as suas aias estavam sempre ao seu lado, tentando consolá-la e falando-lhe dos favores que deviam ao chefe guerreiro. Elvira chamou de parte a que era a sua aia predilecta.

— Ana, tens a certeza de que ele é tão bom como dizes?

— Senhora, não sei se ele é bom. Sei apenas que a esta hora poderíamos estar mortas ou sem honra, sem abrigo e sem ventura. Porém, Amir quer dar-nos o maior conforto. E tudo isso é por vós que ele o faz, tenho a certeza...

— Porque dizes que é por mim? Não mais o tornei a ver desde essa tarde em que mataram meu pai.

A aia sorriu quase maliciosa.

— Senhora, todas as manhãs tenho de lhe dar notícias vossas. Ele quer saber como passastes a noite... se chorastes por vosso pai... se estais ainda muito infeliz... Quer saber tudo... Aquilo que dizeis... que fazeis... Quase me pergunta, através dum dos seus que fala a nossa língua, o que pensais!

Elvira fitava um ponto indefinido no espaço. Sorriu. Depois voltou-se para a sua jovem aia.

— Ana... Achas que devo agradecer-lhe?

A aia entusiasmou-se.

— Penso que sim, senhora minha! Devemos-lhe tanto! E ele nada vos pede...

— Tens razão. Amanhã, quando estiveres com ele, diz-lhe que desejo falar-lhe.

Entusiasmada, Ana pegou numa das mãos da jovem castelã. Elvira franziu as sobrancelhas, repreendendo-a:

— Ana acalma-te! Lembra-te que ele é mouro e não poderá compreender-nos totalmente.

Pela janela aberta entrava um forte perfume a Primavera. A manhã estava levemente fria, com um ventinho que vinha da serra. Mas a erva crescia numa renovação de vida e de cor. Os cães saltavam contentes nos campos junto da muralha. Elvira acabou de se vestir, pôs as suas jóias e foi encostar-se à janela.

Ana tinha saído. Levara apressada o recado da sua senhora. E cedo ela voltou trazendo consigo o belo guerreiro mouro. Quando se encontraram, Elvira e Amir fitaram-se como se fosse a primeira vez que os seus olhos se defrontassem. Elvira falou:

— Senhor... Pedi que viésseis, para testemunhar-vos a nossa gratidão.

O mouro não compreendia o português, mas o seu fiel intérprete, sempre a seu lado, era como eco das palavras de ambos.

Elvira continuou:

— Lamento apenas que ao recordar tão grandes benefícios seja forçada a minha recordação a uni-los ao sangue derramado que tinge este castelo.

A figura alta de Amir curvou-se numa profunda e cavalheiresca vénia.

— Senhora! Declaro-me vosso escravo e mais ardoroso admirador! Pudesse eu pagar com o meu próprio sangue o sangue derramado pelos vossos, e eu o faria. Mas o que o Destino determina não poderá ser modificado.

A jovem olhou o moço árabe, uns dez anos mais velho do que ela. Uma emoção estranha dominava-a também. Sem atinar com as palavras, estendeu a mão, que o árabe extasiado beijou.

Desde esse dia viam-se várias vezes, mas por curtos momentos e sempre a pretexto de qualquer novo empreendimento. O castelo foi reconstruído. Foi erguido um mausoléu em honra do pai da jovem Elvira e dos seus guerreiros, e foi permitido que todas as manhãs viesse à capela um sacerdote cristão dizer missa, à qual assistiam Elvira e as suas aias. Tudo isto fazia Amir para conquistar o amor da jovem castelã. E a Verdade é que esse amor brotou com a impetuosidade tão própria dos novos. Mas Elvira dissimulava esse amor quanto podia. Não ignorava que todas as noites um homem embuçado permanecia sob a janela dos seus aposentos. E embora a não abrisse, deixava sempre uma luzinha acesa que enviava a Amir uma saudação de esperança.

Uma luta interior, renhida, mortificava o caudilho mouro. Ante o seu amor, crescendo dia a dia, elevava-se a barreira fatal da diferença de religiões. Aprendeu o português e compôs canções que entoava pelas tardinhas — único meio com que exprimia a dor que lhe causava o obstáculo cruel que os afastava cada vez mais.

Elvira sofria também. Ambos eram crentes, embora com religiões diversas. Ambos se mostravam firmes. Certo dia, Elvira quis ficar só na capela, e pôs Ana de atalaia à porta, para que não fosse surpreendida. Então, caiu aos pés da Virgem Mãe de Deus e pediu soluçando:

— Mãe de Deus e minha Mãe, valei-me nesta aflição! Amo bem contra a minha vontade o nobre Amir, que é mouro. Nem eu abdicarei da minha religião, nem ele decerto, quererá abdicar da sua crença. Mas, se Vós quisésseis, talvez ele Vos visse e Vos amasse como eu. Ajudai-me e ajudai-o, Virgem Santíssima! Estou a pedir-vos um milagre. Mas Amir merece tal milagre porque é bom, é generoso, é leal, é valente, é forte nas suas paixões. Ajudai-me e ajudai-o!

A Mãe de Deus resolveu ajudar Elvira. Para isso serviu-se de uma arma poderosíssima entre enamorados: O ciúme. Fez com que chegasse ao castelo um cavaleiro galego, parente da jovem Elvira. Inteirado do que tinha acontecido, viera oferecer-lhe os seus préstimos e o seu lar. Movera-o apenas o desejo de cumprir um dever de cristão e parente. Mas, ao ver a jovem, não escondeu a sua admiração. E a proposta que levara por cortesia, renovou-a com o calor de uma inclinação nascente. Este facto não passou despercebido ao fogoso Amir. Atormentado pelo ciúme, solicitou a Elvira uma entrevista a sós. A jovem acedeu.

Olhos nos olhos, nem viam o Sol que brincava com os cabelos dos dois enamorados. Amir caiu de joelhos e perguntou, beijando a mão da jovem castelã:

— Senhora! Que devo fazer para merecer a graça de tomar-vos como esposa?

As lágrimas assomaram aos olhos de Elvira. Respondeu com voz emocionada:

— Tornai-vos cristão!

Erguendo-se, ele prometeu:

— Sê-lo-ei!

Elvira estendeu-lhe as mãos pequeninas que ele voltou a beijar e convidou-o:

— Vinde comigo à capela. A Mãe de Deus espera por nós.

Serenos na aparência mas com o coração transbordando de felicidade, os dois enamorados seguiram sozinhos, o caminho da capela.

Amir entrou, os seus olhos negros pousaram sobre o altar. Ao centro estava a imagem de Cristo. Ao lado, a imagem da Virgem Mãe de Deus. Sem que Elvira o impelisse, Amir caminhou devagar até junto da Virgem. Depois, serenamente, falou:

— Senhora, que és Mãe de Jesus Cristo e a quem Elvira ama tanto! Recebei mais este filho que deseja amar-Vos como ela Vos ama!

No silêncio da capela, os soluços comovidos de Elvira soavam como divina música...

Na manhã seguinte havia junto à imagem da Virgem um ramo de açucenas recém cortadas. Era a oferenda do árabe convertido.

E conta a lenda velhinha que esse ramo jamais murchou, embora ficasse nessa capela do castelo da Beira, anos após anos, num desafio ao próprio tempo.

Amir baptizou-se e recebeu o nome de João Baptista. Após o casamento dirigiu-se a Roma com a jovem Elvira e visitou o Papa. O Santo Padre recebeu-os com demonstrações de alegria, e concedeu a João Baptista o apelido de Forte, que ele passou aos seus descendentes e que estes na Beira Alta, usam ainda, não esquecendo a lenda da Virgem das Açucenas.


 
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Mensagem Enviada: Dom Fev 03, 2019 21:53     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda dos Aloendros

In diversas fontes da net.

FARO... a histórica Santa Maria de El Gharb, ou Santa Maria de Ossónoba e mais tarde apenas Harume, donde lhe vieram por corruptela da linguagem popular os nomes de Haron, Farão e Faro, mantendo-se este último desde os meados do século XVI... Faro, a cidade maravilhosa que mereceu ser cantada pelo rei D. Afonso de Castela o Sábio nas «Cantigas de Santa Maria», possui também as suas histórias de lenda e feitiço. Esta, por exemplo...

Andava el-rei D. Afonso III de Portugal na conquista do Algarve, então ainda quase totalmente dominado pela moirama. E a seu lado, fiel e amigo, cavalgava sempre D. João Peres de Aboim, guerreiro de alma nobre e coração grande.

Era altura de tentar a posse de Faro, nesse tempo chamada Harume pelos mouros e Santa Maria de Haro pelos cristãos.

Estava já próximo o fim do mês de Março desse ano de 1249. D. Afonso III viera com os seus homens em marchas forçadas desde Beja e acampara junto de Alportel, na pitoresca e também lendária «Terra de Todos». Aí se prepararia o ataque final.

Ora, segundo se conta, na madrugada desse dia, estando D. João Peres Aboim vigilante e atento, ouviu certo ruído misterioso que muito o intrigou. Cautelosamente, deu-se a investigar, tanto mais que o seu próprio cavalo parecia também inquieto.

Peres de Aboim avançou a passos vagarosos, alerta, espreitando e já preparado para o imprevisto.

— Então que se passa? Sossega meu bom companheiro! Eu saberei defender-te, como tu me tens defendido... Lembra-te de que já andamos juntos em muitas batalhas. Parece-te que anda alguém escondido por aqui não é verdade?

Dando a perfeita ideia de o ter compreendido, o cavalo relinchou por três vezes. D. João Peres de Aboim sorriu.

— Claro! Claro! Também a mim me parece...

Rápido, saltou para terra. O cavalo pareceu mais inquieto do que nunca, tentando libertar-se do dono.

— Quieto! Quieto! Mas então que é isso agora? Que desassossego é esse?

Mas não o conseguiu dominar. Excitado por algo desconhecido, o cavalo de D. João Peres de Aboim acabou por soltar-se e abalou correndo pelo campo fora.

O bravo guerreiro português ficou ainda mais apreensivo. Tinha porém confiança absoluta no seu instinto. E o instinto conduziu-o a um maciço de arbustos.

Então sem mais hesitações correu sobre o local de espada em punho gritando com a voz imponente:

— Salta daí miserável espião! Vamos! Se tens coragem para te bateres comigo, aparece!

E de facto alguém apareceu. Um vulto franzino, com o rosto meio escondido por um turbante e aparentando juventude.

— Aqui estou, Senhor!

A sua voz tremia um pouco. Uma voz estranha de falsete. O vulto procurou dar-lhe um tom mais seguro
.
— Mas não me quero bater contigo... Vim apenas para falar com o teu rei.

D. João Peres de Aboim olhou-o melhor. Mais atentamente, mas desconfiado.

— Se queres falar com o meu rei... porque te escondes dessa maneira?

No mesmo tom anterior, o desconhecido respondeu:

— Bem sabes Senhor, que se viesse às claras e sem disfarce seria imediatamente preso e arrastado para longe... E eu quero falar com o rei D. Afonso!

D. João Peres de Aboim deu um passo em frente.

— Quem és tu afinal?... Há qualquer coisa na tua voz… na tua figura... que me faz desconfiar...

O vulto deu a sensação de não se sentir à vontade. Recuou ligeiramente ao ver o fidalgo português avançar para ele.

— Sou um guerreiro fiel ao príncipe de Harume, que defenderá o seu senhor até à última gota de sangue...

João de Aboim riu com gosto, embora sem perder o outro de vista.

— Tu? Tão novo ainda?... Nem tens sinal de barba!

De novo se aproximou.

— E esse olhar... Esse olhar meu Deus, lembra-me o olhar de alguém...

O desconhecido cortou-lhe cerce a palavra. Talvez para evitar mais profundas reflexões.

— Lembra-te decerto Senhor, o olhar de todos os da minha raça, que temem agora a ferocidade dos teus guerreiros...

D. João Peres de Aboim enfureceu-se.

— Mentes! Tu estás a mentir!

E antes que o desconhecido se pudesse esquivar ou defender, o fidalgo português, num golpe de surpresa, arrancou-lhe o turbante. Aos seus olhos apareceu então o rosto jovem duma linda mulher.

— Alandra!

Ela baixou o olhar, ruborizada. E a sua voz, já sem disfarce, voltou a ser docemente feminina.

— Perdoa-me, Senhor!... Mas fui eu própria que deliberei vir assim... para pedir misericórdia para meu pai e a sua gente... Perdoa-me!

E era verdade. Desse modo, segundo dizem relatos velhinhos, encontraram-se frente a frente, na «Terra de Todos», o valente e brioso D. João Peres de Aboim e a formosa princesa moura Alandra, filha do príncipe de Harume.

Já há muito tempo que o coração de D. João de Aboim, tão grande amoroso como guerreiro, andava cheio com a imagem da bela princesa que muitas vezes encontrara nos seus caminhos de batalhador. Mas agora era a primeira vez que a tinha ao alcance das mãos.

Assim, delicadamente, encaminhou-a para a sua tenda de campanha e obrigou-a a sentar-se e a descansar.

— Que ideia foi essa de vires assim disfarçada ao meu acampamento?

Alandra suspirou. E acabou por confessar:

— Senhor, mais do que falar ao teu rei, queria falar contigo...

Afoitamente, olhou-o de frente. E com a voz um pouco mais trémula, rematou:

— Mesmo à distância, tenho lido nos teus olhos o que sentes por mim... e preciso do teu auxílio!

D. João Peres de Aboim sorriu meigamente.

— O que sinto por ti, bem sabes que é amor... Quanto ao auxílio, diz o que precisas.

Ela ergueu-se. A sua figurinha gentil punha uma nota de suavidade no ambiente bélico da tenda.

— Preciso que poupes a vida das mulheres e das crianças de Harume... nem que para isso eu tenha de sacrificar a minha honra!

Ele ergueu-se também e interrompeu-a com um gesto.

Depois, avançando para ela, segurando-a bem pelos ombros, fitando-a bem nos olhos, afirmou:

— Nós não somos feras, princesa Alandra... Prometo-te solenemente o que desejas, sem que para tal seja necessário qualquer sacrifício da tua parte!

Ela baixou a cabeça. Quando a reergueu, tinha os olhos embaciados por lágrimas. E a sua voz acusava grande emoção interior.

— João Peres de Aboim... É esse o teu nome, não é verdade?... Lembras-te do que se passou na tomada de Chelb? Pois nós...

O mordomo-mor de D. Afonso III de Portugal não a deixou continuar.

— Esses homens não eram portugueses! Se fossem portugueses, não procederiam assim!

Alandra voltou a sentar-se em silêncio. O silêncio durou algum tempo. Depois, ela desabafou sinceramente o que lhe ia na alma:

— Pois acredita Senhor, que todos nós vivemos aterrorizados com o que possa vir a acontecer.

E inclinando-se, quase numa confidência, revelou:

— Ainda ontem à meia-noite, o governador do castelo de Loulé encantou as suas três filhas: Zara, Lídia e Cassima, numa velha nora...

Levou as mãos ao rosto, num jeito amuado de susto, e as palavras saíram como que num soluço.

— Oh! O Algarve ficará para sempre cheio de mouras encantadas!

Devagarinho, D. João Peres de Aboim aproximou-se dela.

— Felizmente para mim, tu ainda não estás encantada…

E debruçando-se sobre o rosto da bela princesa moura, ciciou-lhe ao ouvido:

— Eu, sim, é que estou encantado por te ver na minha frente!

Sem se voltar, sem se mostrar perturbada, ela apenas perguntou:

— Senhor... posso acreditar no que dizes?

Então, João Peres fê-la erguer-se suavemente. Ficaram rosto a rosto.

— Olha bem no fundo dos meus olhos... Tu, que tens o poder de enfeitiçar, e de tal modo que fizeste fugir o meu cavalo, para que eu ficasse sozinho contigo... Tu, que sabes ler dentro da alma dos outros... Tu, quem eu amo e que me amas também, segundo creio… olha bem para o fundo dos meus olhos. E se te parecer que minto, vai-te embora, foge que eu não te perseguirei. Mas se julgas que falo verdade, então fica nos meus braços, minha bem-amada Alandra!

E conforme reza a lenda antiga…Alandra ficou!

Quando chegou a véspera do dia 28 de Março de 1249, o exército português estava pronto para o ataque final a Harume.

Na madrugada seguinte, D. Afonso III resolveu reunir conselho e pediu a D. João Peres de Aboim, seu mordomo-mor, que falasse em primeiro lugar.

Ele não se fez escusado.

— Senhor meu rei, já tratei de tudo, para que tudo se passe da melhor maneira... Harume entregar-se-á sem luta nem derramamento de sangue.

Então, olhou o rei de Portugal e pediu-lhe com voz emocionada:

— Mas, por amor de Deus, Senhor meu rei, respeitai as mulheres e as crianças! Foi a condição que prometi. Estou por penhor dessa condição, que vale a minha honra!

D. Afonso III baixou a cabeça lentamente, num gesto afirmativo, a tranquilizá-lo.

D. João Peres mostrou-se mais desanuviado e propôs:

— Deveis agora ir falar ao príncipe de Harume, para que ele vos entregue as chaves!

O rei de Portugal olhou-o surpreendido.

— O quê? Sozinho?

D. João Peres de Aboim riu com gosto.

— Não, Senhor meu rei, de modo algum! Levais uma guarda de honra. Estêvão Anes, Afonso Peres Farinha, Gonçalo Peres e eu próprio iremos convosco. E tudo correrá pelo melhor, acreditai!

Assim aconteceu de facto. Numa demorada entrevista, havida com a maior cordialidade, o príncipe Alandro entregou a D. Afonso III de Portugal as chaves da fortaleza que servia de capital ao principado de Harume.

As condições eram honrosas para os vencidos. E os vencedores acima de tudo, afirmavam respeitar integralmente a vida das mulheres e das crianças, conforme promessa feita por D. João Peres de Aboim à bela princesa Alandra.

Tudo parecia na verdade, seguir pelo melhor dos caminhos. Porém, como sempre acontece nestes casos, talvez pela demora das negociações, alguns espíritos mais exaltados envolveram-se em luta, apesar de todas as precauções tomadas. E foi mister que o próprio rei D. Afonso III de Portugal corresse ao centro da refrega.

— Parai, portugueses! Parai! Deixai de lutar porque a cidade é nossa. Aqui estão as chaves da fortaleza!

A luta parou de repente. Ali estavam na verdade as chaves de Harume.

Nessa mesma altura, o príncipe Alandro saía da cidade com o seu séquito, depois de declarar à população que a paz fora honrosa e digna, e que nada havia a temer dos portugueses. Antes pelo contrário!

Foi já no regresso de uma volta pela cidade tão facilmente conquistada (em grande parte graças a ele) que D. João Peres de Aboim deparou de súbito com o rei D. Afonso III sentado debaixo dum bonito arco.

— Senhor meu rei, que fazeis aqui?

D. Afonso III sorriu afavelmente. Sorriu e semicerrou os olhos.

— Descanso, meu bom João, de tudo o que se passou. Isto faz-me bem. E sabeis que mais? Sinto aqui um repouso tão perfeito, tão bom, tão completo, que vou passar a chamar a este arco, daqui em diante, o Arco do Repouso!

Foi a vez de João Peres de Aboim sorrir.

— Dizeis bem Senhor meu rei, dizeis bem!

Tais palavras espevitaram a curiosidade do monarca, que reabriu os olhos e o fitou melhor.

— E vós que tendes, João Peres de Aboim?

D. João Peres baixou a cabeça num suspiro.

— Também eu venho inquieto e triste meu Senhor e rei... E aqui também estou a sentir um repouso de alma como ainda não sentira... Tendes razão em chamar a este local o Arco do Repouso!

El-rei de Portugal inclinou-se ligeiramente para diante.

— Algum percalço amoroso, João Peres de Aboim?

Desta vez, D. João Peres não baixou a cabeça nem desviou o olhar e falou francamente:

— E percalço bem grande Senhor meu rei!... Fugiu, desapareceu misteriosamente a mulher que eu amava... Deixou-me apenas um pequeno ramo de flores... Vedes Senhor?

E mostrou o ramo que trazia religiosamente seguro, enquanto continuava a falar.

— Sim meu rei, são flores rubras como o sangue e belas como o desejo…

E logo num impulso de imaginação, D. João Peres ajuntou:

— Se me permitis Senhor meu rei, como ela se chamava Alandra… em homenagem à sua memória, daqui em diante passarei a chamar alandras a estas flores de amor e saudade...

Desde então, essas flores belas e rubras ficaram a chamar-se alandra nome que mais tarde se transformou em aloandras e depois em aloendros…ou apenas loendros, o seu nome actual...

Quanto ao Arco do Repouso, esse lá continua no mesmo local de sempre, a perpetuar na tradição a passagem do rei D. Afonso III de Portugal, após a conquista de Faro.


 
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Beladona
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Mensagem Enviada: Ter Fev 05, 2019 16:00     Assunto : Responder com Citação
 
A Lenda da Galanteria de D. Rodrigo

In diversas fontes da net.

Esta lenda é de origem algarvia. Nasceu nos arredores de Loulé, quase junto à vila, num terreno outrora despovoado que hoje se chama Cabeço do Mestre.

Nesse tempo reinava em Portugal D. Afonso III, e a conquista do Algarve era o sonho máximo. D. Paio Peres Correia, mestre de Sant’Iago, reunindo a fina flor dos cavaleiros lusos levava por diante o sonho do seu rei. E entre os cavaleiros às suas ordens…diz a lenda…encontrava-se um tal D. Rodrigo de Mascarenhas, conhecido pela sua galanteria para com as damas e especial benevolência para com os enamorados.

Castelo após castelo iam caindo, numa entrega total. O exército português tinha chegado às portas de Loulé. Tomara posições num cabeço fronteiro. O combate travara-se logo no primeiro dia, num local próximo do castelo.

Dois dias durou o combate. Dois dias apenas. Os mouros capitularam e os cavaleiros cristãos entraram na fortaleza, fazendo prisioneiros. Como não convinha que os prisioneiros ali ficassem, D. Paio ordenou a D. Rodrigo que conduzisse os cativos a lugar mais seguro.

Escoltados por uma pequena hoste, foram os prisioneiros levados de Loulé, através de terrenos já conquistados. Pelo caminho, D. Rodrigo notou entre os cativos um jovem de semblante simpático, mas terrivelmente triste. Vinha ricamente vestido. D. Rodrigo esperou o momento de fazerem alto e, acercando-se dele, perguntou-lhe:

— Porque estás tão triste? Na vida guerreira, ou se vence ou se é vencido. Quanto à tua honra, fica descansado, porque está salva. Vencemos, mas foi necessário quebrar uma resistência valorosa.

O jovem mouro suspirou fundo, mas não respondeu. D. Rodrigo tornou:

— Não julgues que só conto vitórias na minha carreira! És novo e talvez a vida venha ainda a sorrir-te.

O mouro abanou a cabeça. A sua voz soou dolente:

— Senhor, não lamento o meu cativeiro, mas sim a morte das minhas ilusões. O meu nome é Abindarráez e sou da raça dos Abencerragens. Durante a minha infância fui criado em Cártama, vivendo em casa do alcaide da cidade. Esse alcaide tem uma filha, Jarifa, com quem brinquei em pequeno. Os anos passaram, e Jarifa tornou-se uma doce e formosíssima donzela. O nosso carinho de meninos transformou-se numa forte paixão. E quando supúnhamos chegada a hora da nossa união poder realizar-se, fui mandado para aqui, por ordem do meu rei e a pedido do pai de Jarifa, que não deseja ver-me casado com a filha. Ora, precisamente há dois dias, chegou aqui um mensageiro de Jarifa, dizendo-me da sua parte que ela me esperava em Silves, para nos casarmos em segredo. Deves calcular como rejubilei. Era, finalmente, a realização do meu grande sonho. A nossa separação ia terminar. Vesti o meu traje mais rico, escolhi o meu melhor cavalo, e dispunha-me a sair para Silves quando chegou a notícia de que as vossas tropas estavam às portas de Loulé. Seguiu-se a luta e a nossa derrota. E agora aqui vou, sabe Alá para onde, enquanto Jarifa se encontra em perigo em Silves e sem poder voltar para casa do pai! Bem vês senhor, como me sinto morrer! Se ao menos a pudesse salvar!

Emocionado, D. Rodrigo guardou silêncio após a narração do jovem mouro. Por fim, disse-lhe:

— Abindarráez, tudo na vida pode ser reparado quando Deus quer! Para quê pois esse desespero?

O mouro olhou intrigado o cavaleiro português. Mediu-lhe a expressão benevolente. Reparou melhor no seu porte altivo mas acolhedor. Murmurou:

— Como queres que eu espere algo de bom, se a minha situação é, na verdade, desesperada?

O cavaleiro sorriu…

— Assim pensas?... Eu não!

— Não? E porquê, podes dizer-me?

— Sim, vou dizer-to. És de sangue nobre e, apesar das nossas divergências de religião, sei o que um nobre deve à sua honra. Pois bem, vou dar-te liberdade para que vás a Silves ao encontro da tua noiva enquanto é tempo. Depois, regressareis ambos ao nosso campo, a entregar-vos como cativos. Queres?

Os olhos do jovem mouro brilharam de alegria:

— Pois... és capaz de acreditar em mim?

— Inteiramente.

— Por Alá te juro que voltaremos, a menos que encontre a morte pelo caminho!

D. Rodrigo como resposta, deu ordem de continuarem a marcha e de entregarem ao jovem mouro o seu cavalo.

Abindarráez montou no cavalo, que relinchou de alegria ao reconhecer o dono. E, com uma saudação reconhecida a D. Rodrigo, galopou a caminho de Silves.

No pátio privativo de Aben-Afan no castelo de Silves, Jarifa esperava com ansiedade o seu bem-amado. Já tinham chegado ali os rumores da batalha perdida e do perigo iminente em que estava toda a moirama de Al-Garb.

Abindarráez e Jarifa caíram nos braços um do outro. Ela murmurou:

— Começava a desesperar!

Ele beijou-lhe os cabelos.

— Querida, se soubesses quanto sofri! Mas agora estamos juntos e vamos casar. Mas não será aqui.

— Onde, então?

— Fiquei prisioneiro. Não penses que fugi à luta, pois jamais o faria. Porém encontrei, como chefe dos que nos levam nem sei para onde um homem extraordinário que se compadeceu de mim e de ti, ao ponto de me deixar vir buscar-te! Silves em breve será o lugar mais aceso desta guerra e eu temia pela tua sorte!

Jarifa ficou pensativa. Abindarráez voltou a acariciá-la. E perguntou, levantando-lhe o queixo para lhe ver bem os olhos:

— Querida! Não queres ser a esposa de um cativo? Pois liberto-te da nossa jura!

Ela escondeu o seu rosto no peito do bem-amado, censurando-o:

— Como pudeste supor semelhante coisa! Estava apenas a pensar se seria possível voltares para Cártama.

Ele apressou-se a informá-la:

— Jamais cometeria essa vileza! O homem que permitiu que viesse buscar-te é responsável por mim. Pagaria com a vida a sua cortesia. Nunca lhe corresponderia de tal modo!

Jarifa acariciou-lhe uma das mãos.

— Tens razão, perdoa-me! Partiremos já, antes que Aben-Afan te queira ver.

E montando o mesmo cavalo, Jarifa e o noivo voltaram para o local previamente combinado entre Abindarráez e D. Rodrigo.

Chegados ao acampamento cristão, os jovens mouros foram recebidos por D. Rodrigo. Houve um momento de admiração entre os cavaleiros portugueses. A beleza extraordinária de Jarifa, o encanto dos seus gestos e da sua voz deixavam a todos boquiabertos. O porte do jovem Abencerragem tornava-o simpático aos seus carcereiros. Servindo-se da influência dos alcaides depostos, D. Rodrigo pediu a estes a clemência do pai de Jarifa e o seu consentimento no enlace dos dois enamorados. E o perdão foi concedido aos prisioneiros.

Passeavam eles juntos, quando D. Rodrigo veio anunciar a boa nova.

— Chegaram cartas do meu rei e do vosso. O meu, concede-vos o perdão. O vosso, falou com o pai de Jarifa, que perdoa também a sua fuga e espera-vos para celebrar umas bodas dignas de vós!

Jarifa tomou a mão de D. Rodrigo, num arrebatamento.

— Senhor, senhor, como poderei agradecer-te?

Galantemente, D. Rodrigo retorquiu:

— Sorrindo, senhora! Tendes o mais belo sorriso do mundo!

Abindarráez, com os olhos brilhantes de lágrimas que não queria deixar correr, colocou a sua mão sobre a de D. Rodrigo, exclamando:

— Se precisares da minha vida, podes contar com ela!

Emocionado também, D. Rodrigo disfarçou essa emoção, continuando com voz segura:
— Ide buscar o que vos pertence, enquanto alguns dos meus homens preparam cavalos e escolta. Não desejo que vos aconteça nenhum mal. Adeus, sede felizes… e até um dia!

E, sem dar tempo a mais agradecimentos, D. Rodrigo retirou-se do pátio.

Semanas depois do jovem par ter partido, chegaram uns emissários de Abindarráez com grande quantia em dinheiro e dois formosos cavalos brancos.

Rodrigo olhou os emissários, sorrindo. Depois, falou-lhes assim:

— Levai essas prendas e dizei a Abindarráez que não se amofine por eu não poder aceitá-las. Acrescentai que nada me devem, pois não estou habituado a roubar damas, senão a servi-las e honrá-las!

— Recusais então o resgate?

— Não há resgate. Nunca o pedi. Levai antes as minhas homenagens à mulher mais bela que até hoje vi, e ao jovem de porte altivo e sangue nobre, que entraram fundo no meu coração.
E os emissários partiram, perplexos.


 
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