Espaço da Poesia

Moderador: Beladona

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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Um lindo soneto de Florbela Espanca...

Minha Culpa

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fatuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!…

Sou um verme que um dia quis ser astro…
Uma estatua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor…

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…

in "Charneca em Flor"
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

De um poeta que aprecio...Jorge de Sena...

Uma Pequenina Luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little ligth
una picolla...em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

in Obras de Jorge de Sena "Antologia Poética"
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Um pequeno mas bonito poema de Edgardo Xavier...

És a Sede

Basta crer que és o mar
para me sentir barco ou falua
para ser peixe ou morrer
na rua
em excesso de azul

És a sede
que arde nos meus olhos
e não te sabia

in Corpo de Abrigo
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Normas de vida...

Ensinarás a voar ... Mas não voarão o teu voo.
Ensinarás a sonhar ... Mas não sonharão o teu sonho.
Ensinarás a viver... Mas não viverão a tua vida.
Ensinarás a cantar ...Mas não cantarão a tua canção.
Ensinarás a pensar... Mas não pensarão como tu.
Porém, saberás que cada vez que voem, sonhem, vivam, cantem e pensem... Estará a semente do caminho ensinado e aprendido.

Madre Teresa de Calcutá
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Um pequeno poema de Lou Witt....

Eu sou feita de versos sem rima,
e palavras simples, de vento sul, de labaredas.
Sou mutável, sou mutante, quase inconstante.
Me perco no som das letras, me encontro
na junção das palavras.
Sou mansa, sou fera, sou avessa, sou matreira,
sou deleite, sou semente, sou orvalho.
Reticências...
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Re: Espaço da Poesia

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Um belo soneto de Florbela Espanca...

Anoitecer

A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu, que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...
Não sei o que em mim ri, o que em mim chora
Tenho bênçãos d'amor pra toda a gente!
Como eu sou pequenina e tão dolente
No amargo infinito desta hora!
Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Meu áspero e intérmino Calvário!
E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

De uma poetisa que muito aprecio...Natália Correia...

Do sentimento trágico da vida

Do sentimento trágico da vida
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Do nosso grande Luís de Camões...

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura
Vai formosa, e não segura
Leva na cabeça o pote
O testo nas mãos de prata
Cinta de fina escarlate
Sainho de chamelote
Traz a vasquinha de cote
Mais branca que a neve pura
Vai formosa e não segura
Descobre a touca a garganta
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado
Tão linda que o mundo espanta
Chove nela graça tanta
Que dá graça à formosura
Vai formosa e não segura
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